Solidão universitária: a exclusão como agravante das psicopatologias

Joaquim Fernandes
Graduando em Ciência Política – PET/POL

 

 

A universidade como um dos poucos espaços públicos que privilegiam a produção de capital social- desenvolvimento de contatos, relacionamentos, confiança, sentimento de reciprocidade e intercâmbio entre pessoas de diferentes grupos étnicos e situações sócias- passou a ser, com a intensificação da necessidade de produção acadêmica e o atendimento dos interesses dos grandes grupos de influência exteriores ao meio, um espaço altamente excludente, se colocando insensível aos problemas sociais , de renovação cultural e de transformações de costumes.

O meio acadêmico que, na teoria, deveria abrir-se para a sociedade estando receptiva aos seus problemas, tensões e conhecimentos tumultuosos (atualizando seus conhecimentos na direção de acolher as novidades e inovações da sociedade moderna), às vezes, se coloca apática, rejeitando uma premissa básica de um local que produz conhecimento: a ética da solidariedade e da participação. A universidade quando se coloca insensível aos problemas sociais acaba por se tornar um ambiente excludente e solitário, no qual a incerteza e o individualismo afetam não penas seus alunos, mas também seus docentes, técnicos-administrativos e demais funcionários.

A literatura sobre saúde mental nos anos universitários ainda é muito escassa. Isso nos permite inferir, a priori, que o assusto ainda é pouco debatido e suscetível a obstáculos de investigações com teor mais científico. Essa lacuna bibliográfica é fruto da secundarização do assunto em vogo; a ideia permeada de que algumas patologias mentais seriam menos importantes ou até mesmo produto da fraqueza humana. Dessa forma, a universidade que poderia apresentar um conjunto de possibilidades aos problemas desenvolvidos ao longo do período que compreende o pré-universitário até sua conclusão que, em tese, deveria culminar no mercado de trabalho, se torna um obstáculo aos seus estudantes, mesmo àqueles determinados a obter um resultado positivo.

            A falta de conhecimento acadêmico sobre o assunto é compensada pelos corajosos testemunhos de estudantes com experiência de sofrimento mental, nos permitindo entender melhor o que estaria por trás do mal-estar vivido ao longo da experiência de formação, configurando-a, surpreendentemente, como uma situação de intensa solidão. A relevância da questão da saúde mental na universidade e da necessidade de construção de respostas se torna, cada vez mais, uma missão incorporada nas metas de várias democracias modernas. Estudos internacionais, por exemplo, já apontam o alto índice de distúrbio em estudantes universitários, destacando-se geralmente a predominância de transtornos depressivos. (Segal, 1966; Roberts et al., 2001).

            Um fator importante é que as pesquisas concluem que, dentre os estudantes que desenvolvem algum tipo de patologia mental na universidade, o índice de estudantes do gênero feminino que apresentam queixas de sofrimento mental é significamente mais frequente, assim com sinalizam maiores dificuldade psicossociais, e essa condição estaria diretamente ligada às questões de machismo dentro do meio acadêmico.  As disparidades socioeconômicas seria um outro fator importante no entendimento da exclusão social de determinados alunos, agora, independente de gênero.  Com a democratização da universidade nos últimos anos e a pluralização que permeia o meio universitário atualmente, alunos de classes subalternas denunciam as dificuldades de permanecerem na universidade e até casos de preconceito por parte de docentes e demais funcionários dessas instituições. (Neves; Dalgalarrondo, 2007)

            A desvantagem social que provoca vulnerabilidade e exclusão é agravada quando a variável raça é incorporada nos estudos. O preconceito racial, a pesar do empoderamento difundido nos últimos anos, ainda se impõe como um fator que favorece o aparecimento do sofrimento mental. De forma mais ampla, a universidade age de maneira a não minimizar os problemas sociais e ambientais que impactam diretamente na vida acadêmicas de seus alunos, pelo contrário, em vezes, ela age no sentido de maximizar esses problemas, principalmente quando persisti em ser um meio elitista, excludente e segregador. (Ribeiro, 2014)

            Muito se fala no atual modelo das universidades e o quanto esse é falho e já não mais atende à realidade das transformações que essas universidades sofreram nos últimos anos. Certo é, que os resquícios de um passado triste, de uma universidade feita para homens brancos e ricos, ainda se manifestam nas desigualdades que o meio reprodução. A, “surpreendente”, predileção de discentes por alunos de classes elevadas, as criteriosas barreiras que excluem os alunos pobres de parcerias produtivas e pesquisas, o machismo que silencia e inibe o potencial de mulheres em salas de aulas, o preconceito que, vira e meche, estão estampados nos jornais no qual negros são vítimas de diferentes tipos de violência ligado ao ódio racial, são alguns exemplos de como, ao não combater esses males, a universidade que deveria ser um conjunto de possibilidades frente ao combate de doenças ligadas à solidão e à exclusão, se torna um conjunto de obstáculos a essa luta.

            Baixo autoestima, dificuldade de comunicação, falta de capacidade de resolver problemas e lidar com adversidades, que são agravadas quando o aluno está frequentemente exposto à violência, abuso, insucesso escolar, pobreza, desemprego, desigualdades de gênero, descriminação e desigualdades sociais, são problemas categóricos que potencializam a probabilidade de um determinado aluno desenvolver psicopatológicas, problemas esses os quais a universidade, com todo seu modelo ultrapassado de gerar conhecimento e lidar com seus discentes, ainda está longe de torna-los menos devastadores.

Referências Bibliográficas:

NEVES, M. C. C.; DALGALARRONDO, P. Transtornos mentais auto-referidos em estudantes universitários. J. bras. psiquiatr. vol.56, no.4, Rio de Janeiro, 2007.

RIBEIRO, M. G. S. Sofrimento psíquico entre estudantes de medicina da UFMG: uma contribuição da Assessoria de Escuta Acadêmica.[Dissertação de mestrado]. Belo Horizonte: Faculdade de Medicina, UFMG, 2014.

SEGAL, B. E. Epidemiology of emotional disturbance among college undergraduates: a review and analysis. J. Nerv. Ment. Dis. 143:348-62, 1966.

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