Transporte Público: o fator determinante

Fernanda César
Graduanda em Ciência Política – PET/POL

 

Primeiramente, esse texto é subjetivo e diz respeito às minhas experiências. Reconheço que é uma grande conquista e privilégio ser aluna de Ciência Política da Universidade de Brasília. Também acredito que ter uma base familiar que me apoia nessa jornada é fundamental para que eu possa continuar usufruindo deste local.

Dito isso, os espaços acadêmicos, culturais e econômicos são dispostos de forma extremamente excludentes no Brasil e, de modo especial, em Brasília. O acesso que a população das cidades satélites tem à esses ambientes é limitado e em grande medida, implicitamente negado. O que isso significa quando Brasília é elevada aos patamares mais altos da arquitetura e planejamento urbanístico? Significa que a cidade foi construída para que um determinado tipo de pessoa possa desfrutar desses ambientes, e para que a periferia fique exatamente onde está, nas bordas dos grandes centros.

O transporte público do Distrito Federal, e demais estados brasileiros, que deveria permitir essa acessibilidade, ou mais precisamente, o direito de ir e vir e o de desfrutar dos espaços da cidade, é precário e delimitador.

O que quero dizer com delimitador? O transporte determina e delimita as minhas atividades. Para ilustrar melhor: minhas aulas; meu estágio; minha participação em projetos de extensão e pesquisa; e minha vida social, só acontecem após uma análise dos horários e viabilidade dos ônibus que circulam pela Capital Federal.

Eu não enfrento essa jornada sozinha, com o passar dos anos o número de alunos que moram na periferia aumentou. Não é preciso cálculo matemático, as linhas e os horários ofertados continuam os mesmos, mas a lotação nos ônibus já atinge sua cota máxima antes mesmo de sair do terminal (porém isso não importa, entra-se da mesma forma). Quem mora em periferia já passou pela situação de cancelar uma reunião com amigos, por conta do horário, ou nunca pegou matéria no período noturno porque não tem ônibus a noite, ou ainda, desistiu de um estágio pois não teria como chegar até a empresa.

Atualmente, minha rotina me permite pouco mais de 5 horas de sono por noite, outras 6 horas são gastas dentro dos diversos ônibus que pego durante o dia, 4 horas em aulas, 4 no estágio, 3 horas para projetos, e por fim, 2 horas para outras atividades como estudar e alimentação.

Morando na periferia, aprendemos a normalizar 4/5/6 horas gastas por dia dentro dessas caixas metálicas lotadas, sem a menor estrutura, nos transportando de um lado para o outro e determinando como interagimos com os espaços disponíveis na cidade. Não é normal. É má gestão, é desrespeito e acima de tudo, é a perpetuação da exclusão da população periférica. Gastar mais tempo para me locomover dentro desse quadradinho brasiliense do que dormindo gera uma série de problemas que a Universidade não pauta, o governo ignora e a periferia sofre. Nossas relações sociais e familiares são prejudicadas, a nossa saúde física e psicológica, nosso desempenho acadêmico e nossa produtividade.

Veja bem, me refiro até aqui apenas ao tempo gasto nas conduções, mas quem vive com essa realidade sabe que o transporte público transborda com problemas estruturais, com a falta de segurança, desorganização e com a limitação de horários e quantitativa dos ônibus.

Como o problema não é pautado de maneira relevante nos espaços acadêmicos, políticos e econômicos, quando forçamos a nossa entrada nesses ambientes, causamos distorções. A maioria das pessoas que não passam por isso, não compreende mesmo depois que toda a trajetória é explicada, ainda nos cobra presença/produtividade/engajamento – não há reclamação sobre a demanda aqui,  iremos continuar enfrentando todos esses desafios, o problema é a naturalização dessa vivência como algo normal à sociedade e que seus efeitos no cotidiano devem ser ignorados.

Não irei comentar sobre o valor das passagens, para aqueles que sabem quanto custa uma passagem: uso 6 ou mais ônibus diariamente, façam as contas. Por ser estudante, tenho acesso ao passe livre estudantil, mas e o resto da população?

Como disse… transporte público é fator delimitador que perpetua a exclusão social.

 

 

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