Mulher Negra, sim!

Natália Oliveira
Graduanda em Ciência Política – PET/POL

Durante a minha vida meus pais sempre me passaram o fato de que eu era negra, não só porque isso era nítido a qualquer um que me visse, mas também porque eu tinha que saber disso.

Um caso que eles contam e sempre me faz lembrar o quão marcante isso foi pra mim, quando com os meus 5, 6 anos, meus pais foram solicitados a comparecer na escola em que estudava pois a professora estava preocupada com a minha insistência em sempre pintar nos meus desenhos as pessoas de marrom, e meus pais ficaram sem entender porque aquilo era óbvio para eles, e para mim, nós só não éramos cercados por pessoas negras como também éramos negros. Meus pais, meus tios, meus avós, meus primos, meus irmãos, e até muitos dos amigos da minha  família eram negros, não tinham motivos para eu ter outra visão senão essa.

E assim fui criada, sabendo que era negra, mas também sendo ensinada de que não seria nada fácil ser negra, que iria ter que me esforçar três vezes mais  do que um branco, de  que tinha sempre que estar atenta a tudo o que fizesse. Negro não pode vacilar, jamais. “Estuda, estuda que você consegue”, frase clássica dos meus pais. E foi isso que me sustentou, sou negra, o racismo vai querer barrar minha vida, mas não posso me abalar e nem vacilar. Sempre em alerta. Quando meus pais falavam para ter cuidado com a companhias, era justamente pelo fato de que se eu tivesse perto de pessoas que fizessem coisas erradas, em especial se elas fossem brancas, eu provavelmente teria punições que me marcariam de forma mais pesada, porque era negra, e as coisas aconteciam desse modo, era só ver os jornais para saber.

E assim fui vivendo minha vida, uma menina negra, morando em um bairro relativamente bom, com uma condição de vida que me deu amparo para acreditar que podia fazer tudo o que quisesse, óbvio dentro de um mundo branco, o que me coloca em limites. Tais limites foram muito difíceis de reconhecer, até hoje me perco.

Quando entrei na UnB, percebi que as pessoas negras do curso me tratavam de um jeito diferente, constantemente exaltavam o fato de que eu era uma mulher negra. Matutei e recusei essa lógica, não entendia porque os negros ficavam se autoafirmando o tempo inteiro, e era uma coisa para eles mesmo, “eu sou negro”. Ficava pensando, sou negra sim, mas e daí? Caramba, me mergulhei em reflexões sozinha, e observando outros negros, muitos se sentiam tão bem e eu queria isso para mim. Por fim, acabei descobrindo que apesar de me reconhecer como negra nunca me aceitei de verdade. Isso era um fato e tudo bem, mas talvez em outra realidade preferisse ser branca, as pessoas gostavam de brancos.

E foi aí o meu “clique”, olhando para inúmeras situações que passei na escola, em festas, com pessoas do meu convívio, sempre senti uma certa angústia e não sabia o que era, e na verdade era o racismo. Alisava o cabelo, sempre em tentativas frustrantes, até meus 16, 17 anos não tinha a menor ideia de como era meu cabelo natural, e nem queria saber, achava que era feio, grosso, não podia sair de casa assim. Criei uma mania de apertar o meu nariz, porque pensava que quem sabe um dia não fica mais fino, né? Tomar sol não dava, sempre amei o sol, mas poxa era muito preta, mais que isso já era demais. Fora o meu pensamento, quantas e quantas vezes deixei de ser eu, de falar o que pensava por medo, já era negra e se ficasse falando demais as pessoas me taxavam como metida, e realmente era vista por muitos assim, a “nega” metida.

Me fechei em mim mesma e nem tinha percebido, deixei de ser eu mesma porque eu era negra, e a gente tem que ser cuidadoso, lembra? Foi assim que eu descobri que o racismo estava marcado na minha vida toda, e eu ingênua achando que era só quando alguém me chamasse de algum modo pejorativo, ou deixasse explícito que não queria a minha presença em algum ambiente apenas pela minha cor, de fato foram poucas as vezes que passei por isso. O  que me deixou uma cicatriz profunda que até hoje tenho dificuldade de perceber é que eu mesma não queria ser eu, porque doía e ainda dói saber que era vista diferente, olhares, tratamentos, eu sempre “a negra” nos espaços em que ocupava, quando não tinha aquela senhora que limpava os lugares e que era invisibilizada.

Me encontrei em um lugar que não me via, de mulher negra, e isso mudou a minha vida, agora eu conseguia, mesmo que sutilmente, encontrar os tantos aspectos que o racismo condiciona a minha vida, como também perceber meus pares, outras mulheres negras. Desde como eu me porto, até como eu penso, é assim que o racismo me limita, e por outro lado, percebê-lo foi uma forma de combate. Acredito sim que não devo me abater com esse racismo, mas reconhecer sua presença tem sido a minha nova forma de enfrentamento.

Mulher negra, sim!

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