Um pouco de amor freireano para o início de semestre.

Por Beatriz Sabô*

Maravilhada por ter escolhido uma disciplina ministrada por um educador fora dos padrões conhecidos por mim, fiz um post em uma rede social exclamando essa surpresa, empolgação e preferência por professores adeptos da educação não bancária.

Inspirada por um amigo que gostaria de saber mais sobre o assunto, resolvi abrir os textos do blog do PET/POL desse semestre com o tema: Educação Libertária, colocando de forma sucinta alguns pontos do pensamento de Paulo Freire.

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E o que é essa tal educação bancária, afinal? E quem foi Paulo Freire?

Educação bancária é o termo pelo qual Paulo Freire denominava o modelo tradicional de prática pedagógica. Natural de Recife, foi um dos maiores intelectuais do século XX, elaborando, como dito por ele, ‘‘uma certa compreensão ético-crítico-política da educação’’. Uma de suas bases é o ser dialógico para conscientizar com objetivo de formar cidadãos da práxis progressista, cidadãos transformadores da ordem social, econômica, política, considerando, também, a autonomia como princípio educativo. Marxista, revolucionário, solidário, libertário.

Pelo o modelo tradicional de prática pedagógica, educação bancária, então, os professores depositam, transferem conhecimentos para os seus alunos, e estes, recebem pacientemente, memorizando e repetindo.  Assim, para os adeptos do modelo bancário de educação, o saber nada mais é do que uma doação dos professores, tidos como seres iluminados e dotados de todo o conhecimento, aos seus alunos que são tidos como desconhecedores.

No livro a Pedagogia do Oprimido, Freire nos deixa claro que essa doação se funda em uma das manifestações instrumentais da ideologia de opressão – a absolutização da ignorância. Mantendo os educadores como os que sempre saberão enquanto os educandos serão sempre os que nada sabem.

Perde-se, nega-se a educação e o conhecimento como processos de busca.

A visão bancária anula o poder criador dos educandos, seu pensamento crítico é desestimulado e assim, acaba por satisfazer aos interesses dos opressores que acabam por se manter na situação de que são beneficiários.

E o que querem os opressores? Querem mudar a forma de pensar dos oprimidos e não o que os oprime. Assim, é fácil entender porque a crítica não é estimulada, o pensar autêntico não é estimulado.

Pensar autenticamente é visto como perigoso.

Mas como se livrar disso?

Freire afirma que mais cedo ou mais tarde começamos a reparar sobre o que nos foi ensinado e como é a nossa realidade, e assim pode-se despertar contradições, causando um confronto contra a ‘‘domesticação’’. Começa-se a perceber a pretensão de que sejamos mantidos nessa posição fixa, invariável e assim, surge um engajamento na luta para a libertação.

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Professores adeptos da educação não bancária, portanto, são professores companheiros de seus alunos. Professor adepto da educação não bancária deseja aprender com os alunos, enquanto estes aprendem com ele. Professor adepto da educação libertária almeja a libertação, e não mais a opressão.

Desta maneira, o educador já não é o que apenas educa, mas o que, enquanto educa, é educado, em diálogo com o educando que, ao ser educado, também educa. Não é lindo?

Quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender.

Não existe mais, então, os argumentos de autoridade! Todas e todos se tornam sujeitos de seu processo de aprendizado e formação, se desenvolvendo juntos.

Enquanto na educação bancária o educador é sujeito do processo, e os seus educandos meros objetos, na educação não bancária, os dois são conciliados.

Freire afirma que a formação deve ser permanente e implica a presença de educadores instigadores, humildes e persistentes. Nessas condições, os educandos vão se transformando em reais sujeitos da construção e da reconstrução do saber ensinando, ao lado do educador, igualmente sujeito do processo.

No livro Pedagogia da Autonomia, há um ponto que se chama Ensinar exige respeito aos saberes dos educandos e, particularmente, acredito ser um dos mais importantes. Nesse ponto, o autor coloca a necessidade e a importância de não só respeitar os saberes com que os educandos, principalmente os das classes mais populares, chegam a ela mas também de discutir esses saberes vinculando-o ao conteúdo. ‘‘Por que não se estabelece uma ‘‘intimidade’’ entre os saberes curriculares fundamentais aos alunos e a experiência social que eles têm como indivíduos?’’, Freire questiona, e, assim, ensinar também exige aceitação do novo e rejeição a formas de discriminação.

Por fim, Freire coloca que não há diálogo se não há um profundo amor ao mundo, às mulheres e aos homens. Amor é um ato de coragem, é um compromisso. O ato de amor se compromete com a causa de libertação dos e das oprimidas. O compromisso é dialógico por ser amoroso, por ser ato de liberdade. Somente com o fim da situação opressora que é possível restaurar o amor. É preciso amar. É preciso ser humilde, não silenciar, é preciso estimular o pensar crítico para se ter um verdadeiro diálogo. É preciso continuar a luta, com esperança e caráter humanizador.

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Comentários da minha experiência:

A escola, pra mim, sempre foi um receber conteúdo. Nunca fazia perguntas, nunca participava, não havia dúvidas da minha parte. Era o professor falando, logo, não havia o que rebater, duvidar. Me foi imposto que pessoas mais velhas e experientes em tal assunto deveriam falar e eu deveria apenas escutá-las. Não dividia as minhas experiências, os meus pensamentos, minha opinião. Muitas vezes não concordava, de fato, mas não questionava. Me era desinteressante, desestimulante.

Não me era perguntado sobre quais eram os meus interesses, o que eu tinha para dividir, quais eram as minhas experiências, o que eu vivi, quem era Beatriz Sabô. Para a escola? Apenas um número a mais, uma mensalidade a mais, uma possibilidade de ser estatística nas aprovações de vestibular. Para o professor? Alguém que ele se sentia no direito para ser autoritário, repressivo e que usava da punição para que sua matéria fosse levada ‘‘a sério’’. E assim, como pode ser esse o nosso modelo de educação tradicional? Um modelo que tira a individualidade das crianças, que usa do medo para controlar, que não dá autonomia.

Sonho com o falecimento da escola como empresa. Com o (re)surgimento de uma escola humanizadora, que não transfira conhecimentos e coloque em caixas de formas iguais seus e suas alunas e sim, que ajude no processo de desenvolvimento e transformação de cidadãs e cidadãos solidários a coletividade. Cidadã e cidadão críticos, de pensamento autônomo que deem relevância a suas vivências, ao que tem a partilhar. Uma escola, universidade que respeite o ser de cada um/a, suas particularidades, suas vontades, seu poder criativo. Se formos procurar por notícias, há algumas sobre essas escolas dos sonhos, e isso no Brasil! Uma das reportagens que eu estava lendo há alguns meses atrás era de uma escola que criou um conselho formado por alunos de cinco anos para estimular o protagonismo na gestão escolar. Quão lindo é? Que essas ações se reproduzam!

Para finalizar, convido-as/os a pensar a respeito de sua própria experiência, desde a fase em que estava sendo alfabetizada/o até hoje, refletindo sobre qual é o papel que você tem ocupado na construção do seu próprio aprendizado. Você se considera sujeito no seu processo de formação?

Segue um conselho: Participem de projetos de extensão. No Curso de Ciência Política há o Política na Escola e o Projeto de Marias que está começando agora no PET/POL. Não deixe a extensão de lado, lembre-se do tripé universitário idealizado por Darcy Ribeiro: Ensino, pesquisa e extensão.

É maravilhoso ter uma relação de troca e de tamanho aprendizado. Tanto no Pol na Escola com as crianças como no Projeto Marias com as mulheres, as experiências são incríveis. Diferentes pessoas com diferentes visões com diferentes vivências.

E acredito que seja isso que devemos buscar. A compartilha, o ensinar e ser ensinada em cada experiência, em cada conversa. Produzir e construir conhecimento de forma coletiva, sem imposições de ideias, de forma humana, com amor, com libertação.

Desejo uma boa volta às aulas com gostinho de ‘te quero educação libertária’.

Beatriz Sabô

Ps: Esse pequenino texto/resenha foi bem o básico, recomendo a leitura de tudo que ver pela frente do Paulo Freire <3

*Beatriz Sabô é membro do PET/POL. Feminista (Revolucionária e Marxista) e adepta do modelo de educação libertária.

Referências:

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários à prática educativa. Rio de Janeiro: Paz & Terra, 2015.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Solidariedade. São Paulo: Villa das Letras, 2009.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz & Terra, 1987.

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