Socialização e Violência

Por Rayssa Cardeal

1. O Processo de Socialização

A sociedade como a conhecemos é resultado de profunda interação e constante mutação de seus agentes. Indivíduos, instituições, normas legais e preceitos morais todos influem para a formulação e reformulação do cenário social. A noção de “civilizado” advém mesmo dessa perspectiva, de modo que o contexto influi deveras na percepção individual. Assim, indivíduos que se deparam com outros contextos sociais (seja em tempo ou espaço distintos) têm a impressão de lidar com civilizações “primitivas”, “atrasadas”. O mais comum para o homem moderno é considerar como “civilizados” as normas e costumes de seu próprio tempo, povo e terra.

As normas da convivência social são aprendidas. Desse modo, o processo de socialização está incumbido de inserir os indivíduos no respectivo cenário social. A educação, por exemplo, é tida em larga medida como o instrumento mais eficaz de “preparação” do indivíduo para a sociedade. Assim, todas as sociedades criaram e criam normas com a finalidade de orientar ações de grupos e pessoas. E ainda que não estivessem amparadas em preceitos legais, essas normas sociais, salvaguardadas pelo costume e pela tradição, têm “força de lei” visto que, se desobedecidas, implicam em penalidades as mais diversas, desde manifestações de desaprovação à exclusão.

O texto de Siqueira e Cardoso traz a noção de que a aprendizagem das normas sociais se dá por meio de três estágios. São eles: aquisição (o indivíduo adquire informação do meio imediato), transmutação (o indivíduo internaliza as informações adquiridas), evolução/aplicação (o indivíduo aplica/usa as informações como recurso). Estes são os passos da socialização no qual se incluem as instituições (Família, Estado, Igreja dentre outros) responsáveis pela formação e inclusão do indivíduo. Da mesma forma que práticas de solidariedade são repassadas, práticas violentas são produzidas e reproduzidas em todas as civilizações com suas respectivas variações.

Assim sendo, na medida em que os indivíduos são educados (e por educação está incluso a educação familiar, escolar, do trabalho e etc), hábitos considerados “indesejados” são suprimidos por processos implícitos e explícitos de coerção. Há então uma naturalização de hábitos e costumes. Ou seja, o indivíduo, quando nasce, está inserido em um cenário social com regras específicas de modo que considera o que há como algo natural, algo que sempre existiu. Sem pensar muito a respeito apenas reproduz comportamentos e modos de agir transmitindo essas mesmas regras às próximas gerações.

Uma coisa interessante sobre a naturalização de alguns costumes é que, com o passar do tempo, as funções que acabam adquirindo, pouca ou nenhuma relação têm com as razões de seu primeiro implemento. Assim, um determinado comportamento, postura, ou o uso de alguma palavra, quando de seu início, tem fundamento “racional” para ser daquela forma. Entretanto, quando reproduzido por muitos e por muito tempo, as razões iniciais de seu implemento se perdem, de modo a tornar-se algo “místico”, um “ritual” que as pessoas respeitam e repassam porque foi assim que aprenderam. Ou seja, torna-se uma “segunda natureza” que, interiorizada pelos indivíduos, gera mudanças na estrutura da personalidade.

Dois atributos, influência externa e autocontrole, são de fundamental importância para a garantia de “compromisso” do indivíduo com as normas socialmente estabelecidas. Sobre a influência externa, esta se revela em mecanismos formais ou informais de “controle” e monitoramento das pessoas (coerção externa). Já o autocontrole se refere às normas sociais interiorizadas no sujeito, de modo que ele age tendo em mente o que é considerado “certo” e “errado” e consciente das penas à cada norma desrespeitada (autocoerção).

A todo o momento ocorre algum tipo “reorganização social”. As transformações sociais acontecem e todo o comportamento humano foi construído respeitando as demandas e objetivos dos respectivos contextos sociais (temporais, espaciais, culturais). Mais que isso, a economia e a política, associada ao monopólio dos meios da violência bem como dos meios de consumo e produção, são instrumentos do processo de socialização os quais velam para que todos “ocupem seus respectivos lugares e funções”. Desse modo, a civilização pode ser entendida como uma “constituição psicológica” individual e coletiva.

  1. Socialização enquanto Cultura de Violência

O processo de socialização é comumente apresentado como algo positivo. Desde os contratualistas até a contemporaneidade discute-se acerca das consequências da vida em comunidade e o ingresso dos indivíduos às estruturas consolidadas de articulação social. Interessante pensar que adentramos uma realidade em “movimento”. As regras já estão dadas, cabe a nós segui-las ou infringi-las (tendo em mente os mecanismos punitivos existentes). Entretanto, não passamos nossas vidas como meros “expectadores”, sujeitos passivos. Ao contrário, somos naturalmente afetados e afetamos a realidade que nos cerca interferindo, assim, nas normas “pré-estabelecidas”.

Socialização e simbolismos se desenvolvem conjuntamente. Nesse processo, ações sociais são produzidas (e reproduzidas) e carregam em si noções de público, privado, relações de poder, preconceitos, dentre outros. Nesse sentido, deve-se pensar a socialização como processo reprodutor de práticas sociais e, dado o que foi dito, é possível falar de dominação simbólica.

Bordieu trata das estruturas de dominação como “produto de um trabalho incessante (e, como tal, histórico) de reprodução, para o qual contribuem agentes específicos e instituições, família, Igreja, Escola, Estado” (BOURDIEU, 2002, p.23). Ela se reforça na aparente arbitrariedade com que algumas tendências podem ser observadas e tendem a produzir efeitos duradouros na ordem social.

As estruturas simbólicas de dominação exercem tamanho efeito, pois se legitimam nas predisposições, aptidões e inclinações que os indivíduos trazem consigo ao longo de suas vidas. Ainda segundo Bordieu, “O poder simbólico não pode se exercer sem a colaboração dos que lhe são subordinados e que só se subordinam a ele porque o constroem como poder” (BOURDIEU, 2002, p.26). Dessa forma, apenas uma “tomada de consciência” não será suficiente para a modificação do cenário social. Contrariando algumas perspectivas, é possível alegar que a socialização corrobora para uma “cultura da violência” a qual os indivíduos reconhecem e reproduzem.

A violência está inserida no próprio processo da socialização e, por estar presente em cada uma de suas etapas, esta se afirma e legitima nas próprias estruturas sociais. Há aqui um paradoxo, pois que, as mesmas estruturas criadas no intuito de aboli-la, acabam por ratificar seus mecanismos de existência bem como as razões de sua permanência.

O fenômeno da violência constitui uma dimensão histórica da humanidade. Porém, a compreensão da diferentes formas de violência requer contextualização no tempo e no espaço, visto que práticas comuns passam a ser consideradas como violentas ao passo que surgem outros modos de ser e estar no mundo.

Nesse sentido, por “cultura de violência”, entende-se a presença de certos padrões/regularidades possíveis de ser encontrados no todo social, a qual é produzida e reproduzida pelos indivíduos. Esta se manifesta de inúmeras formas, sob “nomes” os mais diversos e integrando normas e comportamentos da esfera social de modo que ao assumir “novas roupagens”, segue o caminho de sua própria reprodução (qual seja a reprodução da violência).

Pode-se falar em dois níveis violência: violência institucionalizada e violência comum. Por violência institucionalizada entende-se violência política e violência policial. Violência política pressupõe posturas ilegais frente às normas legalmente instituídas e a violência policial se refere à violência praticada pelos mesmos agentes cuja função seria de contê-la. Enquanto que a violência comum engloba os crimes contra vida nas relações sociais cotidianas.

  1. Considerações Finais

Pensar a violência como fenômeno cultural denota um caráter de crise no próprio processo socializante. Assim, o “contrato social” firma-se paralelamente à instauração de um processo de pacificação. Entretanto, essa pacificação, provavelmente, nunca será concluída. A violência se traduz em uma dimensão constitutiva das relações humanas, desse modo a questão não é “como erradicá-la”, mas “como mantê-la em limites compatíveis com a ordem social”. (VASCONCELOS, 2005, p.42).

Os efeitos dessa “cultura de violência” são extremamente diversos e serão mais visíveis em determinados segmentos sociais (pobres, mulheres, negros, homossexuais, dentre outros). Todos contribuem para sua reprodução quando adotam uma postura passiva, quando intimidados, tomam o “pacto de silêncio” permitindo a reprodução da “cultura do medo” de que são vítimas ou espectadores.

Assim, Ruth Vasconcelos dirá que “O cenário social que se desenha a partir de padrões de sociabilidade referenciados na ‘cultura de violência’ e na ‘cultura do medo’ revela uma certa naturalização e banalização da violência, simula uma estagnação na sociedade, como se nada pudesse ser feito para romper este cerco de violência no Estado” (VASCONCELOS, 2005, p.43). Mais que isso, o fenômeno da violência se alastra no tecido social infectando mesmo as instituições criadas para combatê-la.

Discriminação, preconceito, rotulação, estigmatização são outras formas de violências praticadas amplamente na sociedade. As expectativas e comportamentos que resultam em estigma são aprendidos pelos indivíduos. Trata-se de um processo de deterioração da pessoa enquanto sujeito social acompanhada de uma “acomodação” de suas características individuais à estruturas de comportamento tidos como “normais” e “anormais”. Este processo extremamente complexo separa as pessoas em categorias e homogeneíza-as garantindo que fiquem circunscritas à posição em que se encontram e não perturbem a “ordem”.

Conclui-se que, compreendendo melhor o papel da sociedade na produção e reprodução da violência, amplia-se a visão do que é preciso ser feito para que haja uma resposta mais eficiente aos mecanismos de controle e violência social.

Referências Bibliográficas:

BOURDIEU, Pierre. A Dominação Masculina. Tradução de Maria Helena Kuhner. 2ª edição. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2002. Capítulo I, A Violência Simbólica.

BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico. Tradução de Fernando Tomaz. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998. Capítulo I, Sobre o Poder Simbólico, p.7-16.Site:<http://hrsbstaff.ednet.ns.ca/mskinner/Sociology/Socialization/feral_children.htm>. Acesso em: 10 junho 2013.

COELHO, Maria Francisca Pinheiro; BANDEIRA, Lourdes; MENEZES, Marilde Loyola de (orgs.). Política, ciência e cultura em Max Weber. Brasília: Ed. UnB, 2000. Texto Maria Stela Grossi Porto: Análise weberiana da violência. P.311-329

VASCONCELOS, RUTH. O Poder e a Cultura de Violência em Alagoas. Maceió: EDUFAL (Editora da Universidade Federal de Alagoas), 2005.

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