Lewis e a defesa do Tao

Por Kimberly Anastácio

Há quem diga que a guerra existe desde que existe o mundo. Que Israel luta contra a Palestina há uma eternidade. Que a pax romana nunca aconteceu e nunca vai acontecer. E que as pessoas nascem com uma predisposição natural à briga. Em suma, há quem diga que a humanidade é má e que ela corrompe a sociedade.

S. Lewis, famoso autor do livro sobre certo guarda-roupa, é o tipo de pessoa que apresenta um pensamento distinto, embora não contraditório, para a questão da maldade universal do homem. Sua obra “A abolição do homem” é uma grande defesa do que ele nomeia por Tao, uma espécie de lei natural humana presente em todas as pessoas e manifestada em todos os povos e culturas; uma força inerente à consciência humana, uma lei eterna e universal que é capaz de claramente distinguir o que é bom, louvando o que merece ser apreciado, apesar de apontar ao mesmo tempo para a maldade geral.

Contextualizando a discussão, há de se lembrar que Lewis levanta essa proposição em 1943. Em meio a uma das maiores guerras já vistas e a uma sociedade entregue à atrocidades, o autor tenta trazer de volta a criatividade ao homem, tenta mostrar como a sociedade do século XX obriga a população a seguir grandes moralismos restritivos ao mesmo tempo em que tenta negar com todas as forças a existência de uma moral universal.

Nesse contexto, não se pode jogar papel na rua. Não se pode matar os animais. Não se pode fumar em ambientes públicos. Não se pode deixar as crianças livres para pensar: a educação é formal e rígida. O homem é mecanizado e obrigado a se encaixar em um padrão definido não se sabe por quem. A transcendência é negada, a humanidade é abolida e o propósito da vida se perde. Ainda assim, garante-se no discurso a amoralidade da vida ou, de forma mais branda, a suposta liberdade da moral.

Com isso, aquele que cresce e é ensinado a viver apenas para a sua satisfação própria cumprindo seus deveres já estabelecidos, segundo Lewis, perde sua razão de si, toca a animalidade. Perde seu norte e se perde no egoísmo que valoriza excessivamente a ciência, a academia, a dureza de opiniões em detrimento da liberdade de espírito calcada na busca pela profundidade de conhecimento e de humanidade. Um resumo, para Lewis, do que era o pensamento de sua época.

Contrapondo tudo isso, então, tem-se a ideia do Tao, uma ética que aponta para padrões universais a serem seguidos ao invés de buscar uma relativização e abolição dos valores filosoficamente vazia e contraditória em si mesma. Uma ética que não é instintiva. Para ela, não é o instinto natural humano quem cria a moral humana: não há apenas um instinto guiando os homens, não é a ética quem diz o que os humanos fazem. A ética aponta para o que os humanos deveriam fazer, quais “instintos” deveriam suprimir ou não em cada ação específica.

Ora, o ano é 1943. O que Lewis aponta em seu livro é a tentativa de mostrar como o bom pode ser distorcido em coisas más, como obrigações baseadas em teorias vãs levam à destruição, como a supressão da criatividade e ausência de verdades pode gerar distopias a exemplo do totalitarismo nazista. Ele aponta para a necessidade de uma sólida fundação para julgamentos morais para que as coisas possam ser percebidas como intrinsecamente boas ou más, uma sólida fundação com avanços morais reais (ideias que acrescentam e avançam no pensamento existente) e não meras inovações (ideias que negam tudo o que existe em prol da sua própria lógica).

E essa sólida fundação é o Tao. Se negamos uma parte do Tao, a soma de todas as verdades no mundo, o negamos por inteiro. Se não aceitamos um valor universal, mas queremos regras de padronização na nossa sociedade, somos contraditórios. E essa lei universal pode ser encontrada em toda a humanidade, em todas as religiões. É um sistema global que abrange a forma intrínseca de pensar humana.

E é a própria existência do Tao que impede que pessoas tentem se consolidar como detentoras do “verdadeiro Tao” se impondo sobre as outras. Ele impede que as pessoas sejam dominadas, domadas, por outras. Ele prova a si mesmo e coloca quem tenta sobrepujá-lo ou alterá-lo para o seu bel prazer à prova garantindo a justiça e o valor da vida humana em si. Para Lewis, é o Tao, o grande padronizador do que é bom ou mau, aquele que gera o chão que garante, portanto, o embate de cosmovisões e a criatividade humana.

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