Machismo que é cotidiano

Por Talita Maria.

Estava um dia desses no metrô, apertada entre outras mulheres no vagão exclusivo. Próximo a mim, duas moças conversavam. Uma delas se queixava do ex-companheiro. Ele não se conformava com o término do relacionamento. Ela não tinha mais sentimentos por ele, já estava com outro namorado. Apesar de não estarem mais juntos há três meses, o ex continuava a perturbá-la. Ela trocara o número do celular, mas ele conseguiu o número novo. A moça o bloqueara no Whatsapp, mas não tinha sido o bastante. Foi instruída de que deveria trocar de número mais uma vez. Este poderia ser mais um caso de relacionamento mal resolvido. Entretanto, a impotência sentida por esta mulher diante de um ex-companheiro inconformado que a persegue não deixa dúvida: eis mais uma expressão do machismo.

Muitos defendem que machismo é coisa ultrapassada, esquecida e superada nos dias de hoje. Entre os argumentos, diz-se que a mulher é livre para se inserir no mercado de trabalho e ocupar as posições que deseja, que ela tem liberdade sexual, que homens e mulheres são como iguais. É verdade que as possibilidades para as mulheres se ampliaram e não são as mesmas de cinquenta anos atrás. Contudo, ainda existem restrições sobre o comportamento feminino, resistência e incredulidade quanto à capacidade de uma mulher ser tão boa quanto um homem, tão livre e autônoma quanto ele. Estes são entraves que estão presentes na estrutura de nossa sociedade e, principalmente, em nossas mentes.

Exemplos disso não faltam. Há algum tempo, os sites de fofoca pipocaram com notícias de que o casal perfeito formado por Grazi Massafera e Cauã Reymond tinha se separado. O motivo seria a infidelidade dele, que a teria traído com Isis Valverde. A separação de fato ocorreu, mas a relação entre Cauã e Isis nunca foi atestada. Grazi ganhou todos os holofotes como a coitadinha bonita e fiel que foi traída. Cauã também ficou positivamente em evidência, permanecendo com a imagem de galã querido e estampando várias campanhas publicitárias. Quem saiu perdendo foi Isis, que passou a ser vista como a vilã destruidora de lares e perdeu o carisma que tinha junto ao público, apesar de não ter traído ninguém, nem de ter forçado ninguém a nada.

Outro exemplo pode ser visto todos os dias por quem assiste o programa “Cidade Alerta”. O apresentador Marcelo Rezende não se cansa de fazer chacota das repórteres, que são todas mulheres. Se elas cometem algum erro de fala, é porque estavam preocupadas com o cabelo. Ele costuma fazer comentários pejorativos sobre a roupa delas, reclamar do quanto elas demoram a falar por causa do delay, dizer que elas precisam arranjar namorado… Uma das moças, por ser obesa, foi apelidada por ele de “fofolete”. Parece até que as supostas brincadeiras são uma das atrações do programa, veiculado na televisão aberta.

Enquanto não formos capazes de rediscutir a compreensão que temos sobre mulheres e homens na nossa sociedade, continuaremos a nos deparar com situações como a da moça do metrô. A mulher não é inerentemente frágil, resumida a sua aparência, nem é obrigada a seguir a conduta “moralmente aceitável”. Somos nós que insistimos em encará-la assim. Ser conivente ou considerar isso normal é favorecer a submissão feminina, possibilitar a violência. E isso também é violência.

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