Seis faixas, mil razões

Por Maiara Totti

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Era uma rua muito engraçada.

Não tinha casas, não tinha nada. Mas tinha muita grama no chão rodeando o duplo conjunto de seis faixas, e se estendia de cabo a rabo ao horizonte, pontuada por um sanduíche branco ao leste.

Também costumava ter aglomeração. Geralmente, de carros e ônibus e pessoas entre eles, com sua pressa e suas bolsas e seu cansaço e seus produtos à venda; outras vezes, de barracas e carros de som e cartazes. De vez em quando, as pessoas se juntavam tantas que os carros desviavam a rota e a coisa toda virava notícia de TV e internet e rádio e telefone e todo o resto.

 

De vez em quando, as pessoas eram convidadas para a rua.

Passavam-se dias trabalhando em megaestruturas de palco e som e em divulgação de tantas bandas e por vezes até se criavam novas áreas temporárias de estacionamento e se estendiam os horários dos ônibus – claro que não havia necessidade das pessoas circularem pelas cidades, especialmente à noite, sem terem sido formalmente chamadas a festejar pelos donos da rua. Outras vezes, empresas resolviam que também podiam convidar diretamente as pessoas, em seu nome, para além da ‘terceirização’ de qualquer tipo, e davam àquilo algum nome festivo.

Daí acontecia o mesmo que acontecia em todos os outros lugares. A música tocava, as pessoas cantavam, dançavam, algumas choravam e pessoas bebiam, fumavam, cheiravam, algumas até comiam e as pessoas conversavam, beijavam, algumas eram assediadas ou abusadas ou violentadas e as pessoas se perdiam, se achavam, tocavam outra música e algumas brincavam com crianças e algumas perdiam bolsas, outras roubavam e algumas mijavam em banheiro público, outras em árvores e algumas pessoas passavam por baculejo policial uma ou duas ou três vezes e costumavam ser as mesmas. E ocupava-se a grama e fechava-se a rua, por segurança e bem-estar.

 

De vez em quando, as pessoas não eram convidadas. Elas marcavam entre si, por reuniões ou panfletos ou pelo boca-a-boca ou só pelo facebook. Seus motivos variavam: algumas queriam falar sobre o direito ao próprio corpo e o fim do machismo, algumas queriam falar sobre a necessidade de melhores condições de vida e direitos básicos como saúde, educação e transporte, algumas queriam tratam da violência policial e constante e cotidiana exclusão e marginalização da negritude e tudo que a ela faz referência, como religiões e músicas, algumas queriam tratar de situações precárias de trabalho e mesmo de desconstrução de lógicas de subalternização, algumas queriam reivindicar direitos de quem não tinha como reivindicá-los, como animais e crianças e a natureza em si, algumas queria tratar do genocídio indígena e seus direitos a auto-determinação, algumas queriam tratar sobre ética e corrupção em abstrato e eficiência da gestão pública, algumas queriam se contrapor a todas as outras e pedir por mais moralidade. Algumas queriam simplesmente falar do direito de se expressar. Às vezes, (quase) todas essas se juntavam.

Mas essas pessoas não tinham sido convidadas. E, ainda assim, elas chegavam, uma a uma ou em grupos, e iam sentando-se para fazer cartazes ou tirando a blusa para desenhar no corpo ou distribuindo seus papéis e montando seus sistemas de som. E elas começavam a entrar na rua, revertendo a lógica de prioridades de mobilidade e de funcionamento da vida social, obrigando a rua toda a parar por algumas horas para que se ouvisse o que elas tinham a dizer. Algumas delas ficavam atentas à segurança do evento, algumas ficavam atentas na mobilização, algumas ficavam atentas a brechas com as quais pudessem escandalizar a sociedade ou ameaçar simbolicamente quem se tinha como inimigo, e algumas ficavam atentas a como poderiam trazer suas idéias para quem nem sempre vinha à rua e fazer daquilo algo popular e mesmo divertido.

Mas nenhuma delas tinha sido convidada. E elas forçavam a cidade e a rua a se subverter à sua lógica, fosse ela qual fosse. E a mídia vinha de todos os lados, às vezes mais e às vezes menos, e às vezes simplesmente não vinha, a depender do grau de periculosidade em uma escala que variava de manifestação-rotineira-inofensiva-ignorável-filhosdeninguém a vandalismo, puro e simples. E policiais brotavam por toda a parte, com cavalos e armaduras e cacetetes e sprays e bombas, e por vezes decidia-se que o evento tinha que acabar e que era preciso deter algumas pessoas, que de vez em quando até que eram responsáveis por algum tipo de ilegalidade.

Ao menos, ao contrário das demais ruas, naquela não havia casa e não havia nada e a polícia usava apenas bala de borracha.

 

Uma vez, algo curioso aconteceu.

A população foi chamada para a rua.

E para a rua ela foi. Mas nem toda ela atendendo ao chamado.

Nessa época, havia-se decidido por tornar o esporte um megaevento que traz gente de todo o mundo e gastos e lucros bilionários. E, para isso, todo um país precisou se rearranjar. Mega-obras foram feitas em grandes cidades e grandes populações foram violentadas em mega-remoções. Grandes trabalhadores morreram em mega-falhas-de-planejamento-de-construção. Grande parte da população foi treinada, por anos, para aprender a trabalhar para estrangeiros, voluntariamente ou não, inclusive no que se entendia como mercado sexual, enquanto a grande parte da população se tinha negado o direito a exercer livremente o seu trabalho cotidiano, para privilegiar as megaempresas que promoviam o evento.

E, quando se entendeu que o momento chegara, as pessoas foram convidadas para assistir o que se tinha preparado. Assistir, e não participar. Na rua. Porque apenas uma parcela ínfima delas teria condições de participar do evento no estádio onde acontecia. E, ao mesmo tempo, algumas pessoas se convidaram ao mesmo local, mas com outros propósitos, não atendendo ao convite colocado. E se tornaram não-convidadas e deixaram de ser bem-vindas.

E os donos da rua entenderam que elas estavam ameaçando todo um projeto de sociedade que estava implicado naquele evento, e atrapalhando seus planos e seus negócios. E a mídia apareceu. E a polícia apareceu. E houve gás, spray, tiros de borracha e prisões, inclusive em quem pedia por não-violência e quem sequer acreditava que ela pudesse ser exercida pelo Estado e não costumava freqüentar muitas ruas.

E, no da seguinte, elas voltaram para lá. E se sentiram satisfeitas de atrapalhar o trânsito e subverter a lógica da cidade, mesmo com toda sua divergência de motivações. E elas voltaram alguns dias após. E depois. Grande parte delas estava apenas continuando a ir. Algumas começaram a ter problemas em seus empregos e casas e colégios, e não puderam ir no dia seguinte. Mas elas não se esqueceram que a rua um dia tinha sido delas. E que de lá elas foram expulsas.

E algumas inclusive sabiam, parte delas por sentir na pele, que existiam pessoas que eram expulsas de todos os outros lugares porque se entendia que elas faziam parte da rua, e que elas eram expulsas cotidianamente mesmo assim. E sabiam, também, parte delas por sentir na pele, que existiam aquelas que tinham todas as ruas escuras e vazias negadas a si, por seu gênero e por sua orientação sexual. E sabiam, e sentiam, também, que algumas pessoas não eram bem-vindas à rua porque esta não era adaptadas a suas necessidades, que eram entendidas como deficiências. E que, para tantas pessoas, a rua significava infância, de diferentes formas. E, para tantas outras, significava violência. E, para algumas, as ruas significavam falta de conforto, assepsia e o ‘outro’ indesejável. Enquanto, para outras, significavam vida e riso e lágrimas e arte.

Parte dessas pessoas todas começava a perceber que existia uma (uma?) lógica que articulava todas essas, e tantas outras, relações com a rua.

E elas prometeram voltar para aquela rua, para seguir na defesa de suas idéias, fossem quais fossem e quais tivessem se tornado. E ocupar todas as outras ruas. E ousaram fazê-lo. Em todos os meses, em greves, em marchas, em pleno carnaval.

Porque às pessoas – todas elas – a cidade deveria pertencer.

 

 

 

[Aquela rua, na verdade, estava mais para uma avenida]

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2 comentários em “Seis faixas, mil razões

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  1. Deve ser mesmo uma pessoa da boa classe média, a autora deste texto.

    Nestes 44 anos que aqui vivi, muito se passou para que isto aqui se realizasse, para que Brasília tivesse cara de povo.
    Mas, a classe média continua reclamando: do Eixão do lazer; da Micarê, do Pacotão, do Reveillon, do Natal, do Líbanus, do Beirute, a classe média brasiliense não gosta de alegria, não gosta de ver ninguém alegre.

    Custa acreditar que na Copa de 70 não saiu ninguém às ruas de Brasília para comemorar, exceto o triste cortejo dos campeões onde a alegria teve que vir dali do lugar de sempre: Taguatinga.

    Assistir a um show com sucesso, programas de rádio AM e FM, canais de TV ao vivo e jogos de futebol eram sempre dos mesmos lugares: Taguatinga e depois Ceilândia.

    E assim, Brasília me ensinou a passar os natais no mais absoluto silêncio das madrugadas quando o Maestro Nelson Mathias nos transportava de quadra em quadra nas madrugadas de Natal para incomodar os ingratos moradores do Plano Piloto com as nossas vozes infantis e juvenis, nas noites frias e nas madrugadas de cânticos madrigais natalinos apenas para nos confortar-nos de que havia alguma humanidade neste lugar frio.

    Hoje, quando vejo as Esplanadas e os Monumentais repletos de gente mesmo quando o Flamengo é campeão carioca mal posso acreditar que é a mesmo Cidade de 1970.

    As almas estão lá, e eu não sei se são todas de Taguatinga, mas com certeza Taguatinga está poe trás de tudo isso que você disse no seu texto.

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