Os “Encontros e Desencontros” da Globalização

Por Gabriella Kashiwakura

“Encontros e Desencontros” (2003, Lost In Translation) é, na minha opinião, um dos melhores filmes de Sofia Coppola. O filme gira em torno do encontro, em um hotel de Tóquio, entre Bob Harris, um ator de meia-idade frustrado com a vida, e Charlotte, uma jovem frustrada com o recente casamento.

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O que, em um primeiro momento, pode parecer um “chick flick cult” (porque, enfim, é Sofia Coppola), carrega, na verdade, uma importante reflexão social; analisando o filme, é possível perceber que o termo “globalização” está intimamente ligado a diversos aspectos dos seus 102 minutos de duração. Em primeiro lugar, Tóquio é uma “cidade global” (Saskia Sassen, 1991), e isso é claramente exposto no longa-metragem. Os protagonistas tentam interagir com a dinâmica vida cultural da cidade, seus enormes edifícios luminosos e seu convívio tecnológico latentes (que é belissimamente explorado por Coppola, no quarto onde os jovens japoneses passam a noite cantando músicas de karaoke, na cortina automática do quarto de Bob, na máquina de fazer exercícios físicos, no hospital altamente equipado, etc).

Outro ponto relacionado à globalização é a própria questão do idioma falado. Ambos personagens são norte-americanos que se encontram em Tóquio; mesmo passando por alguns problemas de comunicação, eles utilizam o inglês para se comunicarem com os japoneses. Tal fato retrata, de forma clara, a realidade vivenciada pelos turistas no Japão e no mundo – o inglês se transformando em um idioma global (o próprio comercial de Uísque, de Bob Harris, é gravado em inglês; bebida, esta, que, à propósito, é de origem européia, mas tem seu comercial dirigido, no filme, por um japonês).

Um terceiro aspecto interessante do filme é o relacionado ao indivíduo. A solidão e frustração de ambos protagonistas é o ponto central do enredo. A relação desenvolvida por Charlotte e Bob é autenticamente humana, levando em consideração a alienação social que a globalização provoca – por um lado, o filme ressalta os aspectos artificiais de nossas vidas globais, cercadas por mercadorias e pelo convívio com diversas culturas; por outro, nós nos tornamos cada vez mais individualistas e cercados por nós mesmos. No filme, ambos personagens estão passando por um momento de intensa frustração com suas vidas, fazendo com que tudo que os cercam seja superficial e fútil; apenas o encontro de ambas almas humanas os salvou de seus estados solitários. Ressalto, assim, que tal solidão é diferente da comumente conhecida, ou seja, do indivíduo isolado e afastado das pessoas. A solidão gerada pela globalização é algo mais contraditório e, digamos, subjetivo – a globalização gera uma individualidade, ocasionada pelo intenso dinamismo de nossas vidas. Uma individualidade que surge tanto pelo fato de termos uma vida extremamente corrida, sem atentarmos para sentimentos de solidariedade com o próximo, quanto pelo próprio multiculturalismo globalizatório: somos seres singulares, multiculturais, com diversas origens, não havendo, muitas vezes, uma identificação grupal.

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Dessa forma, chego, assim, no ponto central que originou o título desse texto: os encontros e desencontros gerados pela globalização. Na medida que vivemos em sociedades transnacionais e multiculturais, nos “encontramos” com diversas realidades e culturas; conhecemos outros mundos e nos conectamos com nossos passados, presentes e futuros, por meio das inovações tecnológicas, que nos possibilitam manter contato até com “randoms” que conhecemos em um simples passeio de ônibus. No entanto, apesar dessa maior capacidade de socialização, vê-se o surgimento de “desencontros” desses mesmos indivíduos com suas próprias essências, surgindo, como falado anteriormente, um vazio provocado pelas singularidades destes.

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