O Vazio Constitui

 Por Beatriz Vilela

“Aí está ele, o mar, o mais ininteligível das existências não humanas. E aqui está a mulher, de pé na areia, o mais ininteligível dos seres vivos. Como ser humano fez uma dia uma pergunta sobre si mesmo, tornou-se o mais ininteligível dos seres vivos. Ela e o mar” (LISPECTOR, 1998: 144).

Tendo como inspiração inicial a mencionada citação de Clarice Lispector pretendo apresentar uma leitura do recente filme de Lars Von Trier, Ninfomaníaca. Durante o filme Joe, a personagem principal, segue uma busca ininterrupta por alguma coisa que não sabe ao certo, ao passo que busca sempre provar para si mesma que não pode ser penetrada. Pois, se ela se deixa penetrar fisicamente é para provar que não pode ser penetrada na alma. “Mas se a toca concretamente, no mais fundo de seu corpo, ao mesmo tempo não a toca. […] E Joe segue, em abissal solidão, uma mulher não marcada” (BRUM, 2014).

No entanto, em algum ponto de sua enérgica caçada ela ama. E ao amar, Joe é marcada e há finalmente um encontro. Como Lispector novamente nos diz, “só poderia haver um encontro de seus mistérios se um se entregasse ao outro: a entrega de dois mundo incognoscíveis feita com a confiança com que se entregariam duas compreensões” (LISPECTOR. 1998: 144). Pois, aquele que encontra o outro perde a si mesmo, anestesia-se.

Portanto, neste momento existe a possibilidade de se sentir completa por um instante. Aquele momento em que os corpos que se amam se marcam mutuamente.

“Com a concha das mãos faz o que sempre fez no mar, e com a altivez dos que nunca darão explicações nem a eles mesmos: com a concha das mãos cheia de água, bebe em goles grandes, bons. E era isso que lhe estava faltando: o mar por dentro como o líquido espesso de um homem” (LISPECTOR, 1998: 145-6).

Por um segundo Joe está preenchida e no seguinte, vem a tragédia “não sinto nada”.

A experiência muda o curso da busca de Joe. De modo que a segunda parte do filme apresenta a sua busca pelo pênis que poderá preenchê-la. Contudo, Joe não se permite se perder no outro. A visão que tem de si mesma e que busca passar àquele que a interroga é a de que possui total conhecimento de seu corpo e daquele com quem se deita, porém se encontra fracassada quando percebe não possuir controle total sobre seu próprio corpo.

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Se a realidade é corpo, está também para além do corpo. Em consonância com Brum, acredito que esta falsa dualidade entre mente e corpo que a modernidade acolhe se traduz em um enorme prejuízo para todos nós. Ao trabalhar o sexo feminino, aquele que não pode ser apreendido nem decifrado, Lars Von Trier está buscando nos dizer sobre a tentativa sufocadora de enquadrar a sexualidade, de explicá-la e dar-lhe limites (BRUM, 2014).

Talvez a grande dificuldade de Joe seja o não saber como ser corpo e também além do corpo ao mesmo tempo. Talvez sua grande tragédia não seja ser ninfomaníaca, mas sim carregar o medo paralisante de perder o controle, que a consome. A limitação de se saber tudo sobre o sexo e o seu corpo domina a modernidade e não nos permite perceber que se tudo o que somos são corpos, a sensibilidade não pode estar separada do entendimento. Talvez então, o maior erro seja a tentativa de separar entendimento de sensibilidade, ao não perceber que estes são contínuos e são fissuras entre si.

Como Brum coloca, “talvez em algum momento Joe descubra que o vazio nos constitui e nos mantem desejantes”. Pressuponho a conjectura em que a consciência e, consequentemente, o saber se fundam sobre o nada, no vazio, já que suas bases estão na incompletude. A consciência é corpo. Logo, pensamentos são gestos que atuam no e sobre o mundo.

A consciência é um trabalho silencioso e constante da ausência e do presente. Sentir, ser e pensar. Movimentos de preencher o vazio geram completude ao mesmo tempo que instauram o vazio.

 

 

Referência Bibliográfica:

 

 

BRUM, Eliane. “Preencha todos os meus buracos”. 2014. Disponível em: http://www.geledes.org.br/areas-de-atuacao/questoes-de-genero/180-artigos-de-genero/23117-preencha-todos-os-meus-buracos-por-eliane-brum. Acesso: 08/05/2014.

 

LISPECTOR, Clarice. “As águas do mundo”. IN: Felicidade Clandestina. [1971]. Rio de Janeiro: Rocco, 1998, 1º edição.

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