Por uma vida antimanicomial

Texto por Marcelo Caetano

A Reforma Psiquiátrica tomou ares concretos no ano de 2001, a partir da promulgação da Lei 10.216. Embora muitas iniciativas tenham começado bem antes, dentro do contexto da redemocratização e dos processos da Reforma Sanitária (que deram origem ao SUS), só em 2001 o governo assumiu o verdadeiro compromisso de criar serviços susbstitutivos para além das instituições asilares, os manicômios.

Há vários relatos dos horrores ocorridos dentro dos hospitais psiquiátricos, especialmente no período da ditadura, mas não só. Até hoje, na verdade, esses relatos insistem em aparecer – as condições desses “depósitos de gente”, em muito, ainda são precárias e casos até mesmo de tortura continuam a acontecer. Contudo, outros serviços, como os Centros de Atenção Psicossocial, já se tornaram uma política minimament consistente.

Porém, a criação dos serviços substitutivos não é suficiente para nos livramos dos manicômios. A vida continua manicomializada, processo que toma seus primeiros contornos já na escola, uma instituição total. Pensar a luta antimanicomial é ir muito além de derrubar os manicômios, suas estruturas físicas: é repensar, e reconstruir, práticas cotidianas.

Uma vida antimanicomial pressupõe o livre exercício da identidade e da criatividade; envolve nos livrarmos, tanto quanto possível, das coisas que nos amarram; valorizar e incentivar a diversidade e a liberdade. O manicômio não está só dentro dos hospitais psiquiátricos: está na mente, nas ideias, nas ações, nas crenças, nos valores.

A doença mental é resultado de múltiplos fatores. O capitalismo enlouquece; a rotina enlouquece; o transporte público enlouquece; a burocracia enlouquece; até mesmo o amor enlouquece. Pensar formas de tratar essa “loucura” está para muito além de criar serviços de saúde. É importante pensar espaços de lazer, de música, de arte, locais que, ao menos, canalizem essa “loucura” nossa de cada dia.

Uma vida não manicomializada é vivida plenamente, com satisfação, com alegria, com a garantia do desenvolvimento das capacidades de todos os seres humanos, ainda que tais capacidades não atendam a demandas de mercado. Limitar a luta da Reforma Psiquiátrica a uma reformulação apenas dos serviços de saúde é manter o manicômio vivo: ainda que os nomes mudem, os serviços substitutivos podem continuar operando sobre uma lógica manicomializante.

É preciso, ainda, termos o direito à loucura. Ficar louco não é tornar-se ruim, ou menos humano. É tornar-se outro, diferente, mas, nem por isso, pior ou menos digno. E, sempre bom lembrar, pode acontecer a qualquer um. É claro que, sim, muitas vezes é preciso de acompanhamento psiquiátrico e até a internação pode se tornar necessária, mas como último recurso, não como a saída mais fácil e mais rápida para uma sociedade com grandes dificuldade de conviver com aquilo que é “diferente”. Só que a lógica psiquiátrica também pode ser enlouquecedora, e, sem dúvida, não promove as respostas para todos os males.

Por uma vida antimanicomial, onde todo mundo possa ser, não importa como.

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