PET e educação, uma reflexão possível

Como minha última contribuição ao blog do PET, pensei em nada mais do que refletir sobre uma tão necessária reformulação sobre como a educação pode permear de fato a construção do conhecimento emancipado dos indivíduos. Uma tarefa não muito fácil, é claro, mas amplamente aberta ao debate e à reflexão (ao menos deveria ser). Pois educação, no meu ponto de vista, refere-se a um processo de construção de seres humanos, e não sua domestificação. Enfim, refletir sobre educação requer relativismo, uma vez que a atual forma de construção do conhecimento, baseada em preceitos cientificistas, não necessariamente transforma o ser humano em todas as suas facetas; requer também conciliação, já que relativismo por si só não garante apropriação de outras formas de interpretação das diversas realidades do mundo. Neste texto, pretendo trabalhar com a ideia de que a educação, em seu imperativo para (des)moldar seres humanos, urge por uma reforma rápida e consistente.

A educação típica do século XXI é impregnada por modelos retrógados e definitivamente inúteis de transmissão e de reflexão sobre o conhecimento. Métodos e arranjos medievais, como a própria disposição das salas de aula, retratam uma verdadeira incompatibilidade com anseios de produção de conhecimento sustentados por princípios pouco coincidentes com aqueles métodos. Na verdade, vivemos um tempo paradoxal: a nossa preocupação exagerada pelo avanço em tecnologias sociais e materiais é tamanha que esquecemos (quisemos esquecer, para parecer menos cínico) de alterar meios, métodos e arranjos para esse avanço. Em outras palavras, a educação foi em muito perdida. E não quero aqui desmerecer aqueles que se dizem especialistas no assunto. Ao contrário, afirmo que o sistema social, como um todo, reproduz dinâmicas pouco transformativas, o que, em última instância, significa o esvaziamento do arsenal teórico e prático para uma verdadeira revolução do sistema educacional.

Simplificando: se pensamos na criação de um mundo cada vez mais emancipado de conflitos (em sua maioria morais) aparentemente eternos, a educação, em suas diversas manifestações e concepções, deve ser levada a sério. A visão ocidental do mundo, proliferada descontroladamente, acabou por esmagar concepções que se concentram em facetas imprescindíveis dos seres humanos. Desenvolvimento espiritual, moral, físico, de sociabilidade, ambiental, entre outros, são quase esquecidos (sim, esquecidos, não sejamos cínicos de dizer que nossas escolas se preocupam com isso) em detrimento do desenvolvimento intelectual-científico. Somos moldados para intervir no mundo de forma “racional”, estrategicamente direcionada ao desempenho econômico, tanto individual quanto grupal.

Mas, o que isso tudo tem a ver com o PET? O PET é formulado a partir de uma política pública baseada exatamente nesses preceitos até então criticados. Ironicamente, entretanto, sua forma e seu modelo teórico e prático revelam em seus membros seu próprio caráter subversivo. Apesar de ser uma visão totalmente enviesada, uma vez que estou em um PET de Ciência Política, em que temas como Justiça e Legitimidade, choque de culturas e de processos sociais são colocados em perspectiva, penso que o modelo (não o conteúdo) possa ser incorporado por outros níveis educacionais e outras “especialidades”. Antes de mais nada, apenas quero advertir que não considero o modelo PET uma forma ideal de educação. Ao contrário, são suas diversas falhas que me fizeram refletir sobre o conteúdo necessário para uma educação emancipada.

Ao reunir conceitos de pesquisa, de ensino e de extensão, em primeiro lugar, o PET é capaz de quebrar a barreira quase intransponível do modelo de educação individualista focada na preparação de indivíduos atomizados para o mercado de trabalho. Pesquisar gera reflexão. Ensinar (a si próprio e ao outro) gera transmissão e criação de conhecimento. Extensão gera comunicação. Em conjunto, são capazes de prover aos seres humanos uma oportunidade para relativizar e contribuir com seu meio social. Esse conjunto, além disso, “desterritorializa” a educação: esta não acontece e não se esgota em salas de aula. Opostamente a isso, educação somente se manifesta frutífera fora da sala de aula. Fazer pesquisa, ensino e extensão obrigatoriamente demanda uma expansão do “lugar” da educação.

Os limites disso são facilmente detectáveis, contudo. O PET ainda se caracteriza por um paradigma científico, o que restringe em muito sua capacidade de educar espiritual, moral, ambiental e fisicamente. Em defesa, argumento que a própria realidade com a qual a construção dessa política pública se faz é limitante e constrangedor. A partir do instante em que pessoas têm contato com outras visões de mundo, seja através da pesquisa ou da extensão, entretanto, o seu caráter subversivo ironicamente volta a florescer. Debater ideias em um modelo horizontal de reunião (sem a disposição professor-aluno das salas de aula); desenvolver interações humanas com pessoas, grupos e organizações externas e exógenas à Universidade; isso e outras ferramentas do PET acabam por gerar, mesmo que secundariamente e não propositalmente, reflexão sobre as condições físicas, morais e espirituais dos seus membros. O que gera, em minha percepção, uma tentativa de busca de alternativas fora do ambiente acadêmico.

É um processo de verdadeiro acúmulo de conhecimento, nesse sentido. As visões “repassadas” pela Universidade são conciliadas às percepções experienciadas por cada membro. Enfim, penso ser o modelo do PET algo passível de ser expandido. Aulas podem ser mais dinâmicas, menos territorializadas, mais abertas ao que é exógeno, menos limitada ao conhecimento científico, mais ligadas à criação de diversas percepções sobre o mundo. Educação, sobretudo, é não ser limitada à “aula”. O PET me revelou que é possível aprender, ensinar, acumular e conciliar visões de mundo, conhecimento e experiências longe das vias tradicionais da (ênfase nas aspas) “educação”. Assim como dialogar, respeitar, conviver são aprendizagens que pouco ou nada são contemplados em uma educação tradicional.

Na verdade, creio que a educação do PET ainda é muito limitada, se considerarmos tudo que foi falado acima. Mas foi graças a esse modelo limitado que posso hoje refletir sobre educação de seres humanos numa perspectiva emancipada (não totalmente, claro). Por fim, acredito que cada nível educacional possui suas peculiaridades. O modelo do PET-POL não é de forma alguma algo a ser engessado a outras áreas do conhecimento e da realidade. A reflexão, e a verdadeira contribuição do PET, é a própria reflexão. Educação para um ser humano contingente exige reflexão. Exige mudança, exige emancipação.

Daniel é e sempre será petiano, apesar de estar em processo de saída.

Leva consigo toda a vontade de transformar o mundo,

típica de qualquer petiano.

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