Felicidade distópica

Por Kimberly Anastácio

“Quando um indivíduo sente, a sociedade treme”
 – Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley

Realidades alternativas sempre permearam o imaginário humano. Fantasias aliadas às Grandes Navegações, mitos extraordinários envolvendo seres desconhecidos, novos mundos – ora piores, ora melhores do que o existente – são criados por escritores ávidos pela ideia de uma sociedade diferente.

Por vezes, obras marcantes que relatam uma realidade desagradável – embora não tão distinta da nossa própria – chegam a introduzir conceitos que levam a uma reflexão acerca não só da sociedade que nos cerca, mas dos nossos sentimentos pessoais.

Admirável mundo novo, livro escrito por Aldous Huxley em 1932, nos introduz a uma sociedade estável e feliz. Não feliz porque seus moradores tem o que desejam, porque seus relacionamentos são amorosos ou porque seu futuro é colorido. Antes, uma sociedade feliz por não desejar, não se relacionar profundamente e não ser capaz de apreciar cores.

A infelicidade, nesse mundo, é poder sofrer; é ter a opção de sentir-se desagradável e triste, é poder sentir qualquer coisa que vá além de breves desejos carnais libertinos ou doses de drogas inofensivas. Afinal, uma sociedade que não sabe qual é a dor da morte é feliz. Sentir intensamente gera desestabilidade e laços familiares e afetivos só causam dor. Ora, todos os Natais geram brigas na hora da ceia, no fim das contas. Aliás, a religião já não tem mais importância nesse caso. O Estado e a droga provida por esse mesmo soberano geram felicidade, paz e segurança; ninguém precisa mais de um deus ou de álcool para buscar consolo.

Uma vida emocionalmente fácil, pessoas sem incertezas quanto ao futuro ou quanto ao seu papel na sociedade, sem anseios e, por isso mesmo, sem desejos inalcançados. Todos são iguais e todos são de todos: não há mais solidão e não há mais rejeição. Na consciência de si, eis a infelicidade; no progresso e na comunidade pré-fabricada e condicionada, a felicidade.

Agostinho, Platão e o apóstolo Paulo são alguns autores que apontam para uma outra realidade para além da ignorância e da conformidade como forma de felicidade. Paulo, apresentando a consciência como razão para a angústia do reconhecimento de uma conduta errada, diz em sua carta aos Romanos:

“Mas eu não teria conhecido o pecado, senão por intermédio da lei; pois não teria eu conhecido a cobiça, se a lei não dissera: Não cobiçarás”¹.

Da mesma forma, não há realidade e, consequentemente, felicidade para além do conhecimento de si, do mundo e dos seus respectivos erros e imperfeições. Diz Agostinho de Hipona que a felicidade está justamente no conhecimento de si mesmo – nesse caso, como imagem de Deus. Em Platão, novamente, a busca por conhecimento representa um marco para a plenitude humana e uma quebra com a escuridão da ignorância e inocência (inocência essa bem representada na infantilidade dos habitantes da sociedade de Huxley, incapazes de enxergar sua condição de vivência mecânica). Sob essa ótica, não há felicidade real na supressão do homem e seu pensamento, no fim dos problemas e da própria pessoalidade em prol da dita estabilidade social da distopia de Huxley.

Reconhecer a imperfeição humana é também uma forma de perceber verdadeiramente os momentos em que a humanidade é bela. Suprimir a vontade intrínseca do homem de ser – e seu dever de buscar conhecer – gera o que “Admirável mundo novo” aponta: uma sociedade que não consegue enxergar que na sua falta de problemas e falta de rejeições reside a infelicidade: uma vida vazia de sentido.

Nietzsche afirma:

“Nas menores como nas maiores felicidades é sempre o mesmo aquilo que faz da felicidade felicidade: o poder esquecer ou, dito mais eruditamente, a faculdade de, enquanto dura a felicidade, sentir a-historicamente. Quem não se instala no limiar do instante, esquecendo todos os passados, quem não é capaz de manter-se sobre um ponto como uma deusa de vitória, sem vertigem e medo, nunca saberá o que é felicidade e, pior ainda, nunca fará algo que torne outros felizes”². 

O selvagem personagem principal de “Admirável Mundo Novo” parece discordar. Felicidade que esquece do passado é incompleta e fútil. Felicidade sem a completude do reconhecimento de quem se é, de sua própria história e condição é vã.  Diz tal selvagem: “eu não quero o conforto. Quero Deus, quero a poesia, quero o perigo autêntico, quero a liberdade, quero a bondade. Quero o pecado. […] Eu reclamo o direito de ser infeliz”³.

Se a felicidade distópica de um mundo estável vem acompanhada do fim da liberdade do erro e da consciência, endosso o não-tão-bom selvagem.

______________________________________

1. Bíblia Sagrada, Romanos 7:7.
2. NIETZCHE, F. “Da utilidade e desvantagem da história para a vida”. In: Nietzsche. Coleção “Os pensadores”. São Paulo: Nova Cultural, pp. 273, 1999.
3. HUXLEY, Aldous. “Admirável Mundo Novo”, pp. 366, São Paulo, Globo de Bolso, 2009.

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Um comentário em “Felicidade distópica

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  1. A vida tem um propósito?
    Os grandes filósofos gregos elegeram uma sequência de tentativas para restabelecer esta discussão talvez refazendo a pergunta, ou fazendo a pergunta certa:
    O termo grego ataraxía, introduzido por Demócrito (c. 460-370 a.C.), significa tranquilidade da alma, ausência de perturbação. É um conceito fundamental das filosofias de epicuristas e dos céticos, e pode traduzir-se como imperturbabilidade, ausência de inquietação ou serenidade do espírito.Ataraxia é a disposição do espírito que busca o equilíbrio emocional mediante a diminuição da intensidade das paixões e dos desejos e o fortalecimento das almas face às adversidades. A ataraxia caracteriza-se pela tranquilidade sem perturbação, pela paz interior, pelo equilíbrio e moderação na escolha dos prazeres sensíveis e espirituais.A ataraxia está muito próxima da apatia proposta pelos estoicos, na medida em que ambas caracterizam estados anímicos que contribuem para o alcance da felicidade através da disciplina da vontade para moderar os desejos e para aprender a aceitar os males voluntariamente. Ambas promovem a liberdade face às paixões, aos desejos, às coações, às circunstâncias e, mesmo, ao destino.Distingue-se da apatia pela forma como promove a felicidade. Enquanto esta procura eliminar as paixões e desejos, a ataraxia tenta criar forças anímicas para enfrentar a dor e as adversidades. A ataraxia implica saber aceitar as situações e conviver com elas, ponderando o sentido e a utilidade dos prazeres e do que possivelmente magoa.A ataraxia surge, muitas vezes, complementada pela aponia, que se traduz por ausência de dor, ausência de esforço como sofrimento. Segundo Epicuro, a felicidade alcança-se com a ataraxia, que proporciona um prazer estável, e deve ser acompanhada pela aponia, ou seja, pela ausência de dor física.Esta praga ocidental dionisíaca introduzida pelo objetivo em si mesmo representado pela da busca da felicidade através do caminho do menor esforço possível, também chamada pelos utilitaristas de racionalismo individual, tem lançado as pessoas desesperadamente em busca de atalhos para esta alegria efêmera, que pode vir desde um gole de uma gelada cerveja, até o sexo inconsequente, e, no estado mais agudo, ao uso de crack ou outras drogas mais sociais.
    http://professorrobertorocha.blogspot.com.br/2013/05/liberdade-e-felicidade.html

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