Humano infalível ou gênio imperfeito?

Por Talita Maria

Allen

Na noite do dia 12 de janeiro o cineasta Woody Allen recebeu mais um reconhecimento por sua célebre carreira: ganhou o prêmio Cecil B. de Mille do Globo de Ouro. O que chama a atenção neste evento não é o reconhecimento em si. É inegável a preciosidade e a vanguarda do trabalho de Allen. O que realmente se destaca e que alimentou discussões durante a semana foi a reação de sua ex-mulher Mia Farrow e de seu filho Ronan Farrow. Eles relembraram o suposto abuso sexual sofrido por Dylan, filha adotiva de Allen e Farrow.

Tweets Farrow

O caso veio à tona em 1992, quando o casal de artistas se separou. A atriz descobriu que o então marido estava tendo um relacionamento amoroso com outra filha adotiva sua, Soon Yi, na época com 21 anos. A situação provocou estranheza e mal-estar, já que a moça tinha desde seus oito anos relação paternal com Allen. Nesse período Farrow revelou o abuso sofrido por Dylan aos sete anos. Durante o processo de divisão da guarda das crianças, foi reconhecido pela Suprema Corte de Nova York que Allen apresentava comportamento suspeito em relação à menina. Com exceção de Soon Yi, que se casou com o cineasta, todos seus outros filhos com Farrow cortaram relações com ele depois da polêmica.

O escândalo protagonizado por Woody Allen não provocou impactos sobre sua carreira e reputação. Apesar de a própria Dylan ter confirmado recentemente a uma revista norte-americana ter sido molestada pelo pai, Allen se encontra protegido por sua genialidade, fortuna e influência sobre Hollywood. Isso impede que uma investigação efetiva e idônea seja empreendida e que o abuso seja atestado e penalizado. É como se houvesse de forma subentendida a compreensão de que a obra de Allen não deve ser maculada por algo tão pequeno. Diante disso, surge a questão mais do que válida: por que a violência contra uma figura feminina, e neste caso incapaz, é considerada indigna de atenção e de preocupação?

Woody Allen não é a única figura do meio artístico a se envolver num suposto caso de pedofilia. O famoso cineasta Roman Polaski foi acusado de praticar sexo com uma jovem de 13 anos sob efeito de álcool e drogas nos anos 1970. Na época, ele foi condenado a 90 dias de prisão, tendo cumprido um pouco mais da metade da pena e então fugido dos Estados Unidos, onde estava sendo acusado. Ele passou mais de trinta anos fugindo de países que poderiam prendê-lo pelo crime. Ainda assim, em 2009 ao viajar para a Suíça para receber um prêmio, foi preso, ficando recluso por dois meses e tendo de cumprir prisão domiciliar.  Outro exemplo é o do célebre Charlie Chaplin, que não escondia a preferência por meninas menores de idade e virgens, tendo se envolvido com várias garotas que se encaixavam nesse padrão.

Além da inferiorização da figura feminina, que de forma recorrente é culpabilizada pela violência que sofre, outro fator que pode explicar a naturalização de casos como o de Allen, Polanski e Chaplin é a sensualização da menina na puberdade. Este é um período em que a criança começa a adquirir traços característicos do seu sexo, como o surgimento dos seios e o alargamento dos quadris no caso feminino. Tal transformação, revestida pela aura de inocência e inexperiência da criança, colaboram para a formação da imagem de “lolita”. Tal imagem remete ao livro de mesmo nome, do russo Vladimir Nabokov, conhecido mundialmente e adaptado duas vezes para o cinema. O romance conta a história de um homem que se sente atraído por uma menina de 12 anos. Eles acabam por se envolver de forma turbulenta e doentia.

Em meio à espinhosa discussão, resiste a dúvida: é possível separar autor e obra? A postura de Allen, o suposto caso de abuso de menor, seriam suficientes para renegar toda sua obra, rejeitar toda a peculiaridade de seus filmes e a reflexão que eles provocam? Até que ponto pode-se perdoar o lado humano do mito, que comete erros e possui vícios? Neste caso, a pedofilia deixaria de fazer parte dessa humanidade e se tornaria uma transgressão moral inaceitável? Condenando o comportamento do homem, devemos condenar também o brilhantismo do cineasta? Por outro lado, ao permitir que o gênio infalível proteja o humano imperfeito, o que se está realmente querendo dizer em relação à falha cometida? Que ela é perdoável, talvez pouco significante? Lavam-se as mãos, colocando a responsabilidade de julgamento do erro à justiça, a Deus, à vítima? Há conivência, então?

Não existe verdade universal. Do mesmo modo, não há resposta absoluta para nenhuma dessas questões. Essas são reflexões que perpassam posições morais, perspectivas de gênero e especialmente a contraposição entre a figura do gênio e a do homem que há por trás dele. Ao se separar o homem da obra, pressupõe-se que eles sejam coisas dissociadas (ou dissociáveis), o que possibilita adotar uma posição impessoal e imparcial, talvez, de “arte pela arte”. Não é condenável continuar a assistir os filmes de Woody Allen. O problemático é quando a dissociação entre homem e obra é resultante de uma postura de omissão quanto às falhas deste homem. Omitir-se ao suposto abuso sexual de Allen equivale, de certa forma, a consentir com ele. Principalmente, omitir-se não impede que a violência contra a mulher e a criança se reproduza, não incentiva que as pessoas a enxerguem com relevância e procurem combatê-la.

Referências bibliográficas:

BELÉM, Euler de França. “O Chaplin pedófilo que Carlitos escondeu”. Revista Bula. Disponível em < http://www.revistabula.com/1090-pedofilo-carlitos-escondeu/‎ >. Acessado em 22 de janeiro de 2014, às 09h.

DISKI, Jenny. “O sono de Polanski”. Piauí. Disponível em < http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-39/questoes-juridico-sexuais/o-sono-de-polanski >. Acessado em 22 de janeiro em 2014, às 9h15.

LAPA, Nádia. “E se Woody Allen fosse um serial killer?” Carta Capital. Disponível em < http://www.cartacapital.com.br/blogs/feminismo-pra-que/e-se-woody-allen-fosse-um-serial-killer-6038.html >. Acessado em 21 de janeiro de 2014, às 20h30.

MENA, Fernanda. “’Eu o perdoei’: Menina estuprada por Polanski aos 13 lança livro 37 anos depois”. Folha de S. Paulo. Disponível em < http://www1.folha.uol.com.br/serafina/2013/10/1362058-eu-o-perdoei-menina-estuprada-por-polanski-aos-13-lanca-livro-37-anos-depois.shtml >. Acessado em 22 de janeiro de 2014, às 9h10.

MITCHELL, Victoria Coren. “Roman Polanski e o pecado da simplificação”. Carta Capital. Disponível em < http://www.cartacapital.com.br/cultura/roman-polanski-e-o-pecado-da-simplificacao-9782.html >. Acessado em 23 de janeiro de 2014, às 8h12.

“Roman Polanski fala sobre impacto de prisão por crime sexual em 1977”. G1. Disponível em < http://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2013/09/polanski-fala-sobre-impacto-de-condenacao-por-crime-sexual-em-1977.html >. Acessado em 23 de janeiro de 2014, às 8h05.

WINTER, Jessica. “Pesadelos de um sedutor”. Estadão.com.br. Disponível em < http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos,pesadelos-de-um-sedutor,1120073,0.htm >. Acessado em 22 de janeiro de 2014, às 8h10.

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  1. São apenas convenções sociais, que respeitamos, mas, não passam de treinamentos sociais de condicionamento cercitivo.
    Se pensarmos que apenas há cerca de meio século nossos bisavós casavam aos 13 anos e morriam aos 60 anos nos dá uma pequena amostra da percepção do que é amoralidade descontestualizada da época e da conjuntura economica-social.

    Crises da AdolescênciaCrises da Adolescência (Na visão do cientista político, não é uma perspectiva psicológica)Origem da palavra “adolescente”Nunca havido antes da Segunda Grande Guerra – 2ª. GG Mundial, o mundo desconheceu, ou melhor, todas as civilizações e culturas humanas que aqui passaram desconheceram a fase da adolescência até os anos cinqüenta.Sua origem pode estar relacionada à criação das Nações Unidas, objetivamente preocupada com os rumos da humanidade neste novo concerto universal, liderada pelos países desenvolvidos ocidentais, vencedores da tal conflagração da 2ª GG Mundial.A motivação subjetiva para a criação da denominação e delimitação desta fase chamada “adolescência” pode estar associada à nova visão dos países ricos sobre os países pobres de uma nova concepção de divisão internacional do trabalho social onde os marcos humanitários, éticos e econômicos que balizariam a competição de mercado de trabalho no sistema capitalista visariam “proteger” os países industrializados da competição selvagem e desleal de mão-de-obra infantil, barata, aviltada pelos países do chamado terceiro-mundo, notadamente Índia, China, Paquistão, Indonésia e outros pólos mundiais de pobreza e da mão-de-obra barata, precoce (crianças, adolescentes e jovens) e abundante.Assim, evitar-se-ia a exploração “vantajosa” economicamente da mão-de-obra infantil, tradicional das eras passadas anteriores aos direitos trabalhistas do terceiro mundo pobre, contra a competição da mão-de-obra especializada, escolarizada, envelhecida e cara dos chamados países do primeiro-mundo rico.O fato é que fora acordada nas Declarações Universais dos Direitos Humanos imposta pelos países dominantes, ricos e vencedores, as grandes potências capitalistas, a proteção ao chamado trabalho infantil, agora estigmatizado e marginalizado pelos novos donos do Direito Internacional na civilização de pós-guerra.A partir deste marco histórico econômico-etário e dissociando-se a humanidade de suas origens perdidas na História, quando nas eras milenares passadas o ser humano passava da fase de vida infantil diretamente para a fase de vida adulta, procriando-se e trabalhando duro pela sobrevivência como o fazem ainda os silvícolas, a partir dos doze a treze anos de idade, até a chegarem à fase de velhice, que era por volta dos quarenta anos de idade.Então se introduziu um novo hiato entre a passagem da fase infantil para a fase adulta criando-se dois pontos de passagem úteis ao mundo civilizado e desenvolvido, porém, inúteis e vazios para o restante dos mundos. Estava criada a adolescência e a chama da juventude.No mundo desenvolvido era necessário que os trabalhadores concluíssem as fases de estudos superiores e pós-superiores o que requereria mais dez anos suplementares de pós-estudos sobre os anos de estudos básicos e superiores, o que empurrava o início da fase adulta produtiva economicamente e intelectualmente (sexualmente) para os vinte quatro anos de idade aos vinte oito anos de idade, assim, estes anos a mais, improdutivos economicamente e ociosos, eram financiados pela sociedade rica, afluente e abastada, o que seria inviável economicamente para o restante do mundo não desenvolvido, exceto para as famílias ricas dos segundo e do terceiro mundos.A esta fase alongada de preparação para a vida adulta se designaram os nomes de adolescência e juventude.Ficavam assim os ônus da ociosidade não produtiva da adolescência e da juventude sobre a família e sobre o restante da sociedade, embora não reste dúvida de que o cidadão melhor preparado intelectualmente representasse a manutenção e a ampliação das vantagens competitivas dos países do primeiro mundo ampliando-a cada vez mais sobre o restante da humanidade subdesenvolvida.Ficaram atendidos eficazmente e bem protegidos da competição da mão-de-obra os países mais ricos daqueles países dos segundo, terceiro e quarto mundos, isolados da competição capitalista.Esta parece ser a explicação mais convincente para a criação ou do surgimento desta fase na vida das pessoas. A adolescência.O que fazer nesta fase de adolescência quando durante os mais de dois milhões e meio de anos anteriores na existência evolutiva do homo sapiens, em que não existindo estas duas fases na vivência das pessoas, as vidas reprodutivas e laborais iniciavam-se aos onze anos de idade, e de repente, nos últimos sessenta anos quebra-se este ciclo e se proíbem de trabalharem, casarem, reproduzirem e de se autonomizarem, cercando-se de cuidados extremos aqueles que outrora eram aptos a assumirem todos os compromissos da vida social e econômica nesta fase-idade?Os argumentos “científicos” contra o trabalho infantil e contra a gravidez na adolescência se tornam sem efeito diante dos dois milhões e meio de anos de experiência emancipacionista dos agora denominados despreparados e desprovidos novos adolescentes para assumirem suas vidas agora consideradas precoces, mesmo diante da realidade biológica da sua evidente e da real capacidade reprodutiva ativa, efetiva e desperta desde a tenra idade.A outra questão ficou sendo: o que fazer entre a adolescência, a juventude, e o início oficial da nova fase adulta? Sem respostas eficazes para isto cria-se um vazio aonde o jovem e o adolescente se vêm aptos e potencialmente capazes de se assumirem no mundo adulto, mas, as normas sociais e legais os impedem de fazê-lo, apenas para cumprirem os caprichos dos estatutos sociais e legais convenientes ao mundo industrializado e desenvolvido.Este período de ócio dos adolescentes e dos jovens nos países subdesenvolvidos (e também dentro dos guetos subdesenvolvidos, dentro dos países desenvolvidos) não pode ser preenchido com atividades laborais, por serem vetadas e vedadas, nem pode ser preenchido por atividades escolares por falta de investimentos e financiamento social para este ócio. O resultado é: criminalidade, vadiagem, desperdício, gangsterismo, modismos sequazes, cultura da rebeldia “típica” da juventude, cultura da contestação, da revolução, típicas da juventude ociosa e cheia pretensões e de demandas não atendidas. “A única e verdadeira demanda dos adolescentes e dos jovens é o reconhecimento como um ser adulto.”Assim, o adolescente virou o alvo de terem continuamente as suas atitudes naturais consideradas criminalizadas, delituosas, infracionais, contravenções, agravos, violações e estarem potencialmente em permanente conflito com a lei.Seus atos que antes sempre foram considerados naturais passaram a ser proibidos e censurados, embora admitidas as suas capacidades para exercê-los.Ser adolescente passou a ser quase um atentado permanente aos costumes e os seus atos freqüentemente considerados anti-sociais. “É a contradição e o conflito criado entre a capacidade e a condição do adolescente de exercer as suas potencialidades contra proibições e limitações impostas para o exercício pleno de suas capacidades.”

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