Êxodo

Por Ernesto Lazari

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Este texto foi embasado no artigo “Refuge, 18 stories from the Syrian Exodus”, do jornalista Kevin Sullivan e da fotógrafa Linda Davidson, publicado em Dezembro de 2013 no jornal The Washington Post.

O objetivo do projeto de Sullivan e Davidson foi movido pela complexidade da crise vivida pelos refugiados sírios que se encontram na Turquia, Líbano e Jordânia, principalmente em áreas fronteiriças, juntamente com os grandes impactos que ocorrem em tais países, que já se encontram economicamente fragilizadas. Esta é com certeza “uma das maiores migrações forçadas de pessoas depois da Segunda Guerra Mundial”.

A Guerra Civil da Síria teve início no começo de 2011, progredindo para uma revolta armada muito rapidamente, causando levantes contra o governo sírio em diversas partes do país. Mas diferentemente do que ocorreu em diversos países, na chamada Primavera Árabe, o governo do presidente Bashar al-Assad revidou contra a população como um todo. Estima-se que 125 mil pessoas já tenham morrido e milhares de pessoas tenham ficado feridas ou mutiladas, na guerra civil da Síria, em um conflito que já dura quase três anos.

Atualmente, a Turquia abriga cerca de 700.000 sírios que migraram desde o início da guerra. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), e os países vizinhos da Síria, eles estimam que entre 2,3 milhões e 2,8 milhões de pessoas abandonaram suas casas e foram para outros países. Estimativas da ONU calculam que cerca de 3.000 pessoas deixem a Síria todos os dias.

“Autoridades da ONU estimam que um terço ou mais das pessoas que vivem no Líbano em breve será de refugiados sírios – 1,6 milhões em um país com uma população pré-guerra de apenas 4,4 milhões de pessoas”*. Seria como se toda a população do México migrasse para os Estados Unidos.

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Os países vizinhos à Síria têm gastado bilhões nos últimos anos com a construção de infraestrutura básica, escolas, hospitais e rede de água potável para poder conseguir lidar com o aumento drástico da população. Com isso, os campos de refugiados tem parecido cada vez mais com cidades permanentes. “Zaatari campo de refugiados da Jordânia, com 120.000 pessoas, de repente é a quarta maior cidade do país. Um novo campo em construção no fundo do deserto é esperado para ser ainda maior. Ao invés de barracas e trailers, tem edifícios com estrutura de aço, um reconhecimento de que a crise vai durar muitos anos.”*. Mas ao mesmo tempo, os governos vizinhos tem tentado evitar a criação de acampamentos formais, como medo de que ocorra o mesmo que aconteceu em 1948.

Segundo relatório emitido pelo Banco Mundial, foi relatado que entre 2012 e 2014, a crise da Síria cortará provavelmente o crescimento do Produto Interno Bruto do Líbano em até 2,9 pontos percentuais por ano. Segundo o mesmo relatório, a concorrência por empregos vem diminuindo os salários, aumentando a taxa de desemprego em mais de 20 por cento, tornando suscetíveis ao ingresso de mais 170 mil libaneses na “linha” da pobreza, aumentando o número a 1 milhão de pessoas pobres que se encontram nessa condição no país.

Refugiados têm vivido a beira de hospitais no Líbano, dormindo em corredores, em gramados ou simplesmente onde encontram algum espaço, por terem parentes internados ou por receberem um prato de comida durante o dia.

Essa grade onda de migração também tem causado um efeito de desequilíbrio no âmbito religioso. Por exemplo, a população no Líbano era de 60 por cento de muçulmanos, com um equilíbrio entre sunitas e xiitas, mas a onda de migração tem abalado esse equilíbrio, já que a maioria de imigrantes sírios são sunitas, aumentando as tensões entre tais grupos.

“A ONU diz que 6,5 milhões de sírios foram forçados a sair de suas casas e se abrigaram dentro da Síria, muitas vezes com parentes em aldeias rurais. Quase três milhões a mais estão precisando de alimentos, remédios e outros tipos de assistência. Isso é cerca de 9,3 milhões de pessoas – se aproximando de metade dos 22 milhões da população da Síria antes da guerra – que já são vulneráveis ​​ou desabrigados.”*

Entre os refugiados espalhados por todos os lados, encontram-se pessoas que levavam uma vida estável na Síria e que hoje mendigam pelas cidades turcas, libanesas e jordanas, ou se submetem a longas jornadas de trabalho para conseguir ganhar ao menos o dinheiro para pagar o aluguel de alguma garagem, onde geralmente de 10 a 15 pessoas dividem o mesmo cômodo já que apenas cerca de um quarto dos 2,3 milhões de pessoas que fugiram da Síria vivem em campos de refugiados.

Pessoas que possuíam formação acadêmica e exerciam uma profissão na Síria hoje carregam caminhões com cascalho para ganhar menos de cinco dólares ao final do dia.  Nessas condições, Khaled Habib diz :”Se pudéssemos morrer, seria melhor do que isso.” A síria Fathiya Ahmed, moradora de uma favela na Turquia diz que precisa voltar ao país de origem. Mas tem que ter certeza que é realmente seguro para fazer isso. Ela tem medo que possa morrer de fome se voltar agora, e ainda afirma: “Para nós, este é um bom lugar”, diz ela. “Eu sei que não posso voltar para casa em breve. Não é seguro, e não é habitável. Eu sei que a minha casa foi destruída. Mas eu ainda tenho um pedaço de terra ali, e no final do dia, ele ainda é o meu país”*.

Segundo a ONU e as autoridades libanesas, o país está inundado com cerca de um milhão de refugiados onde existia uma população de 4,4 milhões, dizem que não possuem estrutura para garantir saúde adequada e educação para todos. A maioria das contas médicas dos refugiados estão sendo cobertas pela agência de refugiados da ONU e pela ajuda de entidades privadas. Mas o sistema é tão cheio que o valor pago pelas entidades não são suficientes.

“Andrew Harper, que dirige a agência da ONU para refugiados na Jordânia, diz que há agora 6,5 milhões de sírios que foram forçados a sair de suas casas no interior da Síria. Ele diz que 400 mil deles estão de cócoras dentro de 36 milhas da fronteira da Jordânia, por isso não seria preciso muito para desencadear uma nova grande onda de refugiados na Jordânia”*.

Em “O Homem, o Estado e a Guerra”, Kenneth Waltz analisa como foram elaborados os diversos conjuntos teóricos que explicam as causas da guerra. Na primeira imagem, Waltz destaca a natureza má do ser humano e essa seria a responsável pela guerra, onde Assad se enquadraria, e afirma que a única saída, se é que existe saída possível para alguns, é o esclarecimento dos homens a fim de se comportarem melhor no futuro, que se daria pelo fim de ataques contra civis. Nessa primeira imagem, Waltz afirma que quem faz a guerra são os homens, mas logo ocorre o seguinte questionamento: se são maus porque a fazem, o que são quando vivem em paz? Nesse ponto o autor coloca determinada validade e o limite da primeira imagem, já as vontades dos homens individualmente não explicam as condições da guerra, ou seja, a Guerra Civil na Síria seria colocada em cheque. Já que como Waltz cita, Santo Agostinho afirma que um governo organizado, se vive com segurança e paz.

Acordando com Niebhur, Waltz entende que algumas imperfeições são melhores que outras, por exemplo, a democracia em relação ao totalitarismo, caso pertinente quando se fala na Guerra Civil Síria, pois Assad não reconhece um limite de autoridade. A aplicação da teoria da primeira imagem no uso de cientistas modernos traduz-se pela crença de que a ciência aplicada ao homem em sociedade pode resolver problemas sociais, entre eles, a guerra.

Um ponto importante, descrito são três problemas que aparecem constantemente ligados: em que velocidade se consegue a paz? Como se muda uma sociedade e ainda, como levar a mudança para as outras? Para Waltz, o principal erro dos antropólogos, foi a diferenciação entre conhecimento e controle. O autor crê que além do conhecimento para deter o controle, é necessário à força, ele usa Marx para caracterizar isso. A importância do elemento da força não está somente no indivíduo sozinho, mas sim na relação com os outros homens, e para conhecer essa relação é fundamental o estudo da política, como se dá no regime de Assad. Ele lembra que “a pertinência da estrutura política é avaliada por aqueles que, como May e Durbin, acrescentam às suas propostas sócio-psicológicas para a paz a estipulação de que antes se estabeleça um governo mundial. O que não é percebido por alguns deles é que suas soluções se tornam então mais políticas do que sócio-psicológicas”. (p. 97). O limite dos cientistas do comportamento, segundo Waltz, é o esquecimento da própria política em si.

* Trechos com tradução livre.

Referências bibliográficas

EVANS, Dominic. “Guerra na Síria e refugiados custam US$7,5 bi ao Líbano, diz Banco Mundial”. Disponível em <http://br.reuters.com/article/worldNews/idBRSPE98I07B20130919> Acessado em 17 de Dezembro de 2013.

SULLIVAN, Kevin. DAVIDSON, Linda. “Refuge, 18 stories from the Syrian Exodus”. Disponível em <http://www.washingtonpost.com/sf/syrian-refugees/story/refuge/>. Acessado de 14 a 22 de Dezembro de 2013.

WALTZ, Kenneth N. “O Homem, o Estado e a Guerra – Uma análise teórica”. Tradução Adail Ubirajara Sobral. Martins Fontes; São Paulo; 2004.

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