Breaking Bad e a Condição Humana

Por Mariana Cartaxo

Tentei minimizar ao máximo os spoilers, mas quem estiver no começo da série é recomendável que não leia.

A série Breaking Bad teve seu fim há poucos meses e deixou um legado significativo para a história do entretenimento. O que mais chamava atenção, em geral, era o espírito de compulsão e ganância que rondava a trama, acompanhada por personagens que davam à série seu fulgor característico. Do início ao fim, o espectador se depara com a luta pelo poder e pela glória, num contexto em que ninguém é herói, nem vilão, mas todos são conduzidos por uma busca indelével de preencher o vazio da existência humana.

Na série, Walter White, um mero professor de química, segue um cotidiano familiar e pacato na cidade de Albuquerque, Novo México. Possuía a carreira científica frustrada e não tinha grandes ambições para o futuro. Em meio a essa vida, Walt descobre que possui um câncer de pulmão fulminante. A partir daí, todo o paradigma de sua existência entra em colapso. Observando o seu passado e seu presente, percebe que o legado que deixou era ínfimo. Não valia a pena continuar fazendo o que fazia, dever alguns milhares para pagar o seu tratamento e acabar morrendo em decadência.

A partir desse contexto, o personagem vê no vazio árido do sul dos Estados Unidos uma oportunidade de mudar tudo o que sempre foi. Ao produzir metanfetamina, Walter White constrói seu reconhecimento, deixando de ser um mero professor de química e passando a ser o maior – e melhor – produtor da droga.

Seu cunhado, Hank, policial do departamento de narcóticos, se torna um grande obstáculo às ambições de Water. Desde o começo, se mostra a face da justiça implacável. Dentro de casa Walt também é confrontado. Sua esposa Skyler não é condescendente nem passiva em relação a esse trabalho, adotando uma postura de vigília e prontidão.

 

Atuando na ilegalidade, Walt entra em conflito com a justiça e com os valores tradicionais, procurando todas as formas possíveis de driblar as instituições para conseguir manter a sua atividade. Alia-se ao jovem Jesse, que, dentro desse mundo, se encontrava sempre em contradição consigo mesmo, buscando a bondade e a ingenuidade, mas ao mesmo tempo se sentindo tentado a ceder às paixões que o tomavam. Não conseguia compreender se era de fato um indivíduo bom ou ruim. Jesse também viu na produção da droga uma oportunidade de ser reconhecido, e ajudou na introdução de Walt no mundo das drogas.

 A construção do personagem de Walter White se aproxima bastante do que seria a condição humana hobbesiana. Antes de ser diagnosticado pelo câncer, ele era um indivíduo extremamente contido pelas instituições sociais em que estava inserido. No trabalho e na família era manso, sendo apático e recebendo agressões dos alunos e do chefe. A doença, então, o dá condições e legitimidade de poder agir contra tudo que seguiu durante 50 anos de vida. Nesse quesito, o pensamento de Hobbes se encaixa. Para o autor inglês, a subjetividade se desdobra a ponto de tornar a consciência escrava das paixões. Apesar de procurar validar as ações com um critério familiar, Walter ao decorrer do tempo perde a justificativa inicial em detrimento de ambições próprias.  Prover a família se torna um fim muito fraco em relação aos meios que estabeleceu. O que fazia se torna um fim em si mesmo.

O crime representava toda a autoridade e o poder que Walter White nunca teve em sua posição de professor. E ao tomar posse de tudo isso, mostra-se o que ele realmente é, um homem ruim. Assim como o sujeito hobbesiano, mau e voltado para a realização dos interesses pessoais. Um indivíduo atomizado, egoísta. Pronto para se livrar de qualquer um que seja obstáculo para a sua ação, e para utilizar a violência como meio de garantia. Para tanto,  Walter não mede esforços para subjugar os demais e garantir seus próprios objetivos. Em sua tarefa, luta contra todos tanto por ganho quanto pela reputação e pela glória. Apesar de agir racional e meticulosamente, não consegue parar sua compulsão por poder e conquista.

Em Hobbes, a vida seria como uma corrida em que haveria outro objetivo a não ser chegar em primeiro lugar. A competição, a vontade de superar o outro seria a motivação do indivíduo. Nesse sentido, ou se quer alcançar algo por meio do outro ou se quer defender aquilo que já foi conquistado. Na corrida, o percurso é cruel, e os competidores sempre estão em posição de desconfiança em relação aos adversários. E assim acontece na série Breaking Bad. Walter luta infindavelmente para construir seu império e encontra em seu caminho as ambições e vontades de todas as pessoas ao seu redor. Além disso, precisa lidar com o aparato legal instituído para conter os ímpetos e paixões de toda a sociedade.

Nesse contexto de conflito que a luta humana se evidencia. Conforme Hobbes, o homem é o lobo do homem. E isso se aplica perfeitamente a essas relações, em que a atividade ilegal propicia uma ação sem total fiscalização da justiça. O resultado é o confronto de crenças que impede o estabelecimento da harmonia entre os indivíduos. Na desconfiança de uns em relação aos outros e no conflito entre espíritos, o resultado é a guerra de todos contra todos. 

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Um comentário em “Breaking Bad e a Condição Humana

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  1. Ótima leitura da série :) Para mim, Breaking Bad é um estudo de personagem que no nível de grandes filmes como Taxi Driver ou Godfather, e foi incrível ver isso no formato de série que dá liberdade de explorar todos essas personalidades por muito mais tempo do que um longa-metragem permite. BrB não foi pioneiro em trazer complexos, mas foi a primeira série a conseguir uma profundidade raramente vista mesmo em mídias mais “mainstream” como cinema ou literatura. Foi também um dos reinventores da forma como se conta histórias na TV e uma das principais razões para termos grandes shows como Game of Thrones, House of Cards e Mad Men no ar.
    Apenas discordo em um ponto: você falou que Walter White era realmente um homem ruim mas eu acho que ele mais sofreu uma mudança de caráter do que realmente revelou uma identidade que tinha desde o início. Acredito que os primeiros episódios da série mostram uma pessoa que realmente acreditava que suas ações eram justificadas e no fundo queria o bem da família. Essa fase obviamente não dura muito porque a personalidade de Heisenberg já aparecia no final da primeira temporada (“This is not meth” foi o ponto que ficou mais aparente a inevitável transformação naquele período). Claro que ele tinha seus próprios motivos para virar um traficante e você os citou como a necessidade de tomar controle da própria vida, mas não acho que isso era tão predominante no início quanto ficou com o seguinte desenvolvimento da história e do personagem.

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