A farsa do romance ideal

Em meio à explosão das novíssimas ferramentas de paquera virtual e de avaliação de “ficadas”, me encontro indagando à respeito do amor romântico. Aquelas típicas narrativas clichês que se revelam quando o romance perfeito entra em cena – jantares à luz de vela, passeios de mãos dadas sob a luz da lua, pedidos de namoro com direito a rosas e serenata e, como não poderia faltar, um final feliz ao melhor estilo “ e viveram felizes para sempre” – são sonho ou realidade?

Desde os clássicos contos de fadas da Disney, passando pelas comédias românticas hollywoodianas, até os livros atuais de autoajuda, há um claro esforço em dizer: sim, a utopia romântica descrita acima é possível. No entanto, as relações amorosas atravessaram o tempo metamorfoseando-se.

A profunda ligação do amor romântico com o sagrado, materializada pelo ritual do matrimônio, se perdeu. Esse ideal é incompatível com as possibilidades de individualidade modernas. E essa incompatibilidade ocorre na medida em que, ao operar sob a lógica do romance ideal, transformando-se em um só, o casal se encontraria asfixiado pela relação, na qual a autonomia de ir e vir, de ter amizades próprias e liberdade sexual e amorosa passaria ao largo da rotina e muitas vezes a quilômetros de distância da mulher, o elo historicamente oprimido nas relações amorosas. Contudo, o que se verifica é a fluidez das identidades no social moderno, somos cada vez mais confrontados com maneiras diversas de viver o amor e a sexualidade – desdobramentos de uma luta enraizada no movimento feminista.

 Não se trata aqui de defender uma posição contra delicadezas como: olhos nos olhos, enviar flores, dançar junto. Mas sim de questionar a necessidade desses gestos estarem vinculados ao pacote do amor romântico já que o grande problema são as expectativas geradas por este. Portanto, o primeiro passo para deixarmos de lado os modelos ideais de homem, de mulher e de relacionamento é reformular as expectativas do amor romântico.

A partir dos recentes aplicativos (Tinder, Grindr, Lulu, Tubby) que explodiram nos últimos meses enxergo um movimento em direção a essa nova forma de pensar os relacionamentos. Neste sentido, percebo uma aproximação de um modelo em que se deseja alguém que simplesmente se encaixa na sua vida (de acordo com as suas necessidades momentâneas), porque o amor dá trabalho. Por conseguinte, prestes a ruir, o modelo do amor romântico cede a vez para outras (e novas) maneiras de se pensar os relacionamentos. Talvez esteja se formando no horizonte de expectativas um novo ideal utópico de romance, com consequências diversas, mas que condizem com as novas formas de sociabilidade insurgentes.

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2 comentários em “A farsa do romance ideal

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    1. O que está acontecendo no mundo contemporâneo é que as opções que se criam a cada dia não encerram as alternativas anteriores ao obsoleto.
      Ao contrário, eu vejo que mais pessoas e mais possibilidades se abrem para atender a um número maior de nichos de necessidades de realização amorosa ou carnal, se assim entenderem.
      Desde o modo de vestir, pensar, estilos de vida, as possibilidades de novas combinações estão a exigir cada vez mais o auxílio de especialistas de estilo de vida “personal affair”. Saber o que quer se tornou imperativo, diferentemente das eras recentes passadas onde éramos obrigados a seguirmos os estilos vindos de Ipanema, e nos conformarmos com a dicotomia por-dentro ou por-fora. absolutamente, agora é cada um na sua.
      Então, quem estava acostumado ao main strean agora terá que procurar o seu próprio estilo de vida e descobrir qual é a sua tribo.

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