Você já ligou a sua televisão hoje?

Por Gabriella Kashiwakura

Comumente, em círculos de conversas informais, tanto entre familiares como entre amigos, já me deparei com debates relativos ao poder influenciador dos meios de comunicação, mais especificamente, da televisão, sobre a formação de nossas opiniões. Muito argumenta-se que a televisão possui uma pesada carga de culpa sobre a banalização da nudez, do sexo, da violência, ou seja, sobre uma dita sociedade sem valores, que prega a inferioridade da mulher e da visão da política como algo, ora rídiculo, ora importante demais para fazer parte do pensamento crítico do cidadão comum.

gabi 1

É fato consolidado que a televisão representa importante fonte de informação e de entretenimento, proporcionando a quebra de um monopólio da elite sobre o acesso ao conhecimento – “a mídia eletrônica, sobretudo a TV, rompeu a segmentação de públicos própria da mídia impressa e contribuiu para redefinir as relações entre mulheres e homens, crianças e adultos, leigos e especialistas” (Miguel, 2002, 155). Apesar da expansão e popularização do acesso à internet, tal mídia electrônica ainda pode ser vista como um importante meio de propagação de ideologias, idéias e influências à massa da população.

No entanto, atribuir, à televisão, toda a culpabilidade por todos os males que existem na sociedade é um meio fácil e irônico dos indivíduos se eximirem dos danos que causam entre si, por meio de valores e ideologias equivocados (procuro, aqui, ressaltar, no entanto, que a legitimidade e o julgamento de tais valores sociais não são objetos de estudo do presente artigo, reservando à este, apenas a discussão sobre a culpabilidade do ser humano social). Ainda sobre isso, se faz necessário argumentar que “os meios de comunicação não são seres sobrenaturais […] eles têm que ser assumidos por nós como na verdade eles são: construídos e sustentados por seres humanos” (Baccega, 1996, 8). Devemos, assim, parar de estudar a televisão como se ela fosse um poderoso ser influenciador e passar a olhar para nós mesmos, como indivíduos sociais, a fim de discutirmos a sociedade que queremos e os valores que queremos perpetuar.

gabi 2

Dessa forma, uma vez que a mídia possui uma posição de centralidade na sociedade contemporânea, amplia-se a visibilidade de certos valores e estereótipos presentes em nossa sociedade; com isso, se a televisão apresenta uma banalização da nudez ou da violência e se a mesma retrata (seja em filmes, programas ou propagandas), de forma constante e preconceituosa, a mulher e o homosexual como um seres inferiores, o problema maior está em como a sociedade vê tais aspectos – “A mídia pode ser pensada como esfera que participa ativamente da reprodução ou da transformação de práticas, valores e instituições que configuram as formas atuais de representação e da participação política nas democracias” (Biroli, 2010, 46). Vê-se, então, o forte papel legitimador, agregado ao papel propagador, da mídia televisiva.

A mesma coisa pode ser vista com relação à política. Em novelas, a política é sempre retratada como algo sujo, associado com corrupção e mau-caratismo; passa-se, assim, para o telespectador comum, a ideia de que, por mais que políticos corruptos não sejam algo bom para a sociedade, a sujeira é algo inevitável, sendo comum a sua existência na política – tal político seria um político típico. Pode-se, com isso, dizer que, por mais que as novelas tenham certa culpa ao retratar a política como algo negativo, por ter um papel orientador, tal aspecto não seria tão retratado se nossa sociedade, verdadeiramente, não possuísse tal concepção. Conforme Mauro Porto expressa, “os autores de narrativas de ficção televisiva frequentemente identificam e buscam ‘refletir’ aspirações e concepções do público” (2007, 272). O mesmo pode ser ainda mais claramente visto no horário eleitoral obrigatório, em que a política possui um tom debochado, promovendo uma visão de que a política não é algo que deva ser levada a sério pela população (http://www.youtube.com/watch?v=EWX12Qd_yXs).

Finalizo, assim, com o argumento de que, por mais que a mídia televisiva possa, de fato, exercer certa influência sobre o modo de pensar da população, tal fato, na verdade, possui um caráter muito mais cíclico, na medida em que age mais intensamente como propagador de visões e conceitos já arraigados na sociedade, consolidando-os. Há, assim, a urgente necessidade de pensarmos além do julgamento do conteúdo televisivo, partindo para um questionamento sobre quais valores queremos que sejam perpetuados e sobre o tipo de sociedade que queremos. Apenas, a partir de uma auto-análise, sera possível proporcionar uma televisão de qualidade à população.

Bibliografia:

Baccega, Maria Aparecida. Meios de comunicação: dos homens para os homens. Comunicação & Educação. São Paulo (6): 7 a 12 mai./ago. 1996. Disponível em: http://revistas.univerciencia.org/index.php/comeduc/article/view/3978/3735. Acesso em 9 nov. 2013.

Biroli, Flávia. Mulheres e política nas notícias: Estereótipos de gênero e competência política. Revista Crítica de Ciências Sociais [Online], 90, 2010. 45-69. Disponível em: http://rccs.revues.org/1765. Acesso em 9 nov. 2013.

Miguel, Luis Felipe. Os meios de comunicação e a prática política. Lua Nova. N. 55-56 – 2002. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/ln/n55-56/a07n5556.pdf. Acesso em 9 nov. 2013.

Porto, Mauro P. Televisão e Política no Brasil: A Rede Globo e as interpretações da audiência. E-papers. Rio de Janeiro: 2007.

Anúncios

2 comentários em “Você já ligou a sua televisão hoje?

Adicione o seu

  1. O espetáculo da mídia convergente
    Roberto da Silva Rocha, professor universitário e cientista político

    O panorama atual da mídia está inflacionado de novidades que nem sempre representam um avanço com relação ao passado.
    A evolução que nos foi imposta, que parece natural e inelutável, não é natural nem inevitável: ela é provocada e orquestrada em função do espetáculo.
    A espetacularização caracterizada pela cultura de massa na mídia de massa atual está presente nos mídia multimeios e multimodais convergentes nas modalidades: vídeo-computação-telefonia-rádio, (internet, televisão, rádio) tanto como convergente nas formas e meios de transmissão e suporte de tecnologia empregada.
    Tudo converge para o espetáculo. O que não é incomum não pode ser matéria boa para ser convergido. O que é comum tem de ser transformado em espetáculo para serem consumidos pelos mais diferentes suportes midiáticos convergentes que disseminam não informação, mas os subprodutos devidamente marketerizados e produzidos para tornarem-se atraentes e transformados em um dos gêneros padronizados do composite da indústria da comunicação de massa.
    Os gêneros importantes que estão em moda hoje são enquadrados em: jornalismo, novelas, reality shows, talk shows, revistas populares, entrevistas desestruturadas, humorísticos, mundo-cão, seriados, videoclipes, competições artísticas e esportivas.
    Se as pessoas gostassem de competência os programas de mídia vitoriosos seriam de Filosofia ou de Matemática, talvez de Química.

    As pessoas preferem os Reality Shows, na verdade, são falsos shows, de uma falsa realidade onde pseudo-artistas ou pessoas que fingem não serem artistas, ou atores que fingem ou representam papel de amadores, fingem não estarem representando, com a falsa naturalidade de quem finge não estar sendo observado por milhões de pessoas, em sua naturalidade espetacularesca.
    Para este complexo de espetáculos funcionar, os profissionais de mídia no front transformaram-se em parte do espetáculo midiático, isto exigiu que estes profissionais também fossem artistas.
    Isto significou uma enorme revolução. Estamos falando não somente dos atores de novelas, atores dos humorísticos, mas também dos atores dos telejornais, dos atores-entrevistadores, ou dos entrevistadores-atores, dos atletas-atores, enfim todos são convertidos para atores, tudo é transformado em espetáculo, e é arrancada dos participantes a sua atuação atora, compulsoriamente.
    Todos que figuram neste meio midiático são, por um instante, peças dramáticas, componentes vitais deste enorme teatro de representação da realidade midiática e participam compulsoriamente do único espetáculo em que se transformou a mídia: do pastor, ao padre, passando pelo pedestre apanhado de surpresa na via pública pelo repórter que tem de extrair deste eventual participante o inusitado, o grotesco, o insólito e o artístico para preencher a sua pauta de rua.
    Diante desta necessidade criaram-se requisitos especiais para a atuação destes agentes midiáticos. O primeiro deles, e o mais importante, é a apresentação pessoal. Em segundo plano vem a capacidade de empatia, no caso, de identificação imediata com a massa espectadora. Em seguida vem o carisma que pode ser herdado de sua participação como celebridade até mesmo em outras especialidades, mesmo que ainda outrora não tenham sido midiáticas, como, por exemplo, desportistas, cabeleireiros, diretores, escritores, enfim alguma atividade ou comportamento especial, como os milionários, por exemplo, que, na linguagem antropológica, seja potencialmente ou de fato algum destacado formador de opinião que consiga catalisar esta empatia em um cenário de representação midiática.
    Uma vez identificado este agente ele é logo preparado para atuar neste cenário, para começar a produzir virtualidades dentro de um cenário verossímil, com requer a busca única pela audiência hegemônica dos espectadores.
    Neste mundo-cão, o limite fica estabelecido de modo sutil, como é sutil a linha que separa o erotismo da vulgaridade, a idiotice da bizarrice.
    As mentes mais sofisticadas sentem-se totalmente deslocadas deste mundo imbecil. O limite entre os modos de percepção da realidade e da virtualidade midiática ficam cada vez mais embotados quanto mais o espectador se deixa envolver emocionalmente, num contrato tácito entre ele, o espectador, e o meio midiático, que assim estabelecem uma mútua cumplicidade que anula por completo qualquer senso crítico ou capacidade de alerta contra os mais elementares vestígios de contato com a realidade.
    O reforço a este comportamento de massa vem da confirmação que a legitimização proporcionada pela cumplicidade advinda da percepção de que a maioria das pessoas está socializada e condicionada à linguagem cênica e aos símbolos icônicos que comunicam e decodificam as mensagens e os gadgets privativos e familiares aos iniciados.
    Os valores artísticos, culturais, científicos, religiosos, morais, legais ficam relativizados, flexibilizados, neste mundinho de fazdeconta, onde outras regras se subordinam e são subordinadas ao gênero específico, então, somente vale a emoção e o envolvimento sensorial, adormecidos ficariam o senso crítico, a razão, e, consequentemente, o contato com a realidade do mundo exterior ao massa-mídia.
    Neste estado de fragilização moral e intelectual não é preciso muito esforço intelectual para a produção de grandes sucessos midiáticos. Não estou dizendo que seja sucesso fácil. Ao contrário, a fórmulas são repetidas à exaustão, mas sempre enxertadas de elementos novos, que vão sendo criteriosamente colhidos para tornar novo o repetitivo sem que o espectador perceba as variações contínuas sobre o mesmo tema.
    Mudar para continuar o mesmo, copiar mudando e criar recriando o gênero. O segredo é o envolvimento emocional, através de uma porta sensorial aberta pela ocasião. Estabelecida a cumplicidade entre o espectador e o meio logo um contrato de fidelidade é assumido tacitamente, e ele começa a defender e a torcer fanaticamente por tudo que seja relacionado ao processo de produção e de disseminação, o que acaba reproduzindo e ampliando a cumplicidade de modo a não dar chance aos marginalizados da razão coletiva.
    A razão de ser está justamente na avassaladora audiência que gera um consenso hegemônico capaz de linchar e de aterrorizar qualquer voz discordante, obrigando a calarem-se a minoria crítica e desligada do processo de lavagem cerebral coletivo, num fenômeno de histeria de massa que é reforçado e obtém o seu reforço da repetição e da massificação fascista e histérica do inconsciente coletivo.
    Tudo vira mito. Os mitos prescindem de explicação, valem por si só. Uma verdade dita por todos sempre é uma verdade. Quando todos acreditam numa mesma coisa, somente os paranóicos enxergam outra realidade. Então começam a duvidar da razão minoritária. Quem são os loucos? É difícil estar sozinho, principalmente ao lado da razão solitária, sem parecer loucura. É preciso se isolar e reconstruir a realidade longe dos elementos disponíveis e fora da corrente geral e do consenso, mesmo parecendo esquisito e antisocial. Um bicho estranho. O que anda na contramão. O exótico. O irracional.

  2. Nos anos 30, era comum e popular um tipo de concurso promovido pelos jornais em que cada participante devia escolher, entre várias fotografias, os seis rostos mais bonitos. Todos faziam sua seleção dos seis melhores e ninguém podia conhecer as escolhas dos demais participantes, por óbvio.
    O jornal apurava então os seus rostos mais votados; eram premiados os leitores participantes do concurso que haviam escolhido exatamente aquelas alternativas.
    É de imaginar que o interesse dos participantes fosse ganhar o prêmio, e secundariamente opinar sobre a beleza das moças – de novo, a crença de que as pessoas são racionais, no sentido que se imagina cientificamente. Portanto, é de imaginar também que, conhecendo as regras, todos escolhessem não seus rostos preferidos, mas aqueles que provavelmente seriam do agrado geral.
    Cada um dos participantes procura adivinhar o que os demais participantes estão pensando, e cada um dos participantes sabe o que os outros fazem o mesmo cálculo. O segundo passo é imaginar o que o outro pensa que os demais estão pensando; o terceiro passo, o que ele pensa que os outros que os outros pensam que ele pensa, e assim indefinidamente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: