Sobre Black blocs e a democracia

Por Maiara Totti

Novembro chegou, e já estamos liberados pra admitir: ninguém esperava por junho.

Mobilizações progressivas de diversos cunhos, vinte centavos, repressão policial, e o estouro de um cano de gente das mais variadas inclinações políticas que ninguém soube muito bem de onde vinha – e como regular. O termo “Black Bloc” se tornou popularmente conhecido, substituindo (ou não) o estigma de “poucos vândalos que deslegitimam o movimento”. E, a despeito da re-estabilização das grandes massas a nível nacional, sua presença se manteve e sua influência parece crescer.

A tática Black bloc, recém-instaurada em território brasileiro – em verdade, suas primeiras aparições são em meados de 2001, em São Paulo, relacionada à rejeição à ALCA – surgiu como tática de autodefesa de ocupações autonomistas, ou seja, de cunho anarquista, anti-usinas nucleares, em Frankfurt, nos anos 80. Seu reconhecimento público se deu em 1999, em Seattle, em manifestações contra a OMC, nas quais foram depredadas propriedades de multinacionais, enquanto representações do capitalismo globalizado, transformando-se em uma forma de ataque simbólico, e, além de anarquista, anti-capitalista. Em junho de 2013, no Brasil, a tática se caracterizou pela ação direta de alto potencial “destrutivo” – levando à caracterização pela mídia como um “bando” de “baderneiros” ou “delinquentes” – principalmente de bancos, concessionárias e monumentos públicos; bem como pela rejeição a partidos políticos, interpretada por muitos como despolitização ou fascismo; por auto-declarada identificação anarquista e anticapitalista, que se tornou mais clara posteriormente; e, obviamente, pela caracterização vestuária.

Em outubro, após a estabilização relativa do quadro de manifestações no país, dois momentos chamaram atenção sobre a relevância adquirida por estes blocos.

Em uma situação, a ofensiva da Presidenta Dilma, a partir da agressão realizada contra um Policial Militar. Em 26 de outubro, ela caracteriza-os como “barbáries antidemocráticas”, e afirma que “Agredir e depredar não fazem parte da liberdade de manifestação”. Para deixar mais interessante, em 29 de outubro, o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, afirma que é necessário estabelecer um diálogo com os Black blocs e “compreender este fenômeno social”, admitindo que apenas a repressão não é suficiente, e demonstrando preocupação em entender “até que ponto a cultura de violência vivida na periferia já emigrou para esse tipo de ação”.

Ora, por que duas afirmações, da parte da presidência, tão rapidamente seguidas e aparentemente de cunho distinto, aparentando quase uma forma de retratação? E por que, com todos os depoimentos de abusos de repressão policial, que vão de fichar, prender arbitrariamente e/ou atirar balas de borracha em manifestantes pacíficos até abordagens com conotação de abuso sexual, a Presidenta só se manifesta na situação em que a violência é revertida? Mais do que representar um ataque a um “cidadão de bem” ou mesmo a uma autoridade, esta ação traz uma reversão simbólica da relação cidadão-Estado. Afinal, qual o critério para legitimação do mecanismo de manifestação? A problemática estaria no uso da violência ao indivíduo e sua propriedade ou na lógica instituída de comportamentos Estado-sociedade? E – sem entrar no mérito, mas uma observação – e de onde é que Sr. Gilberto Carvalho assume que o mecanismo adotado deriva de uma cultura de violência da periferia?

Em outra situação, cronologicamente anterior, O Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação (Sepe) declarou, em Assembleia, apoio aos Black blocs, afirmando terem sido protegidos por eles contra excessos de policiais, durante manifestações da greve municipal em vigência no Rio de Janeiro. Esta situação colocaria em xeque afirmações sobre o caráter despolitizado (“vândalo”), inconseqüente e irracional do movimento, sobre sua fetichização de forma e tática, com falta de conteúdo e estratégia.

Ainda assim, estes blocos conseguem uma “proeza” incomum – trazer um nível mínimo de concordância entre mídia, grande parte da população, governo e partidos, desde reacionários até esquerda radical: repúdio aos Black blocs.

Para a surpresa de muitos, partidos que buscam massificação de lutas sociais, particularmente o PSTU, declarou que o anti-partidarismo nas manifestações se aproximaria ao fascismo, e a postura vanguardista e individualista de anarquistas, representados pelos Black blocs, seria um desserviço às causas, por afastar a população e “justificar” uma maior repressão estatal.

Em contraposição, grupos anarquistas fazem uma análise sobre a crise de representação, entendida não como despolitização, mas como um processo de ruptura, do sistema político brasileiro. Coexistiriam duas formas de despolitização das massas: o anti-partidarismo irreflexivo e a redução de política a dinâmicas partidárias e institucionais. A relação dos partidos com a democracia seria plenamente instrumental, alienando suas bases sociais e aparelhando movimentos sociais por meio de autoritarismo, burocratismo e traição de deliberações – mesmo entre partidos de esquerda radical. Esta reação de ruptura seria apropriada também pela direita e pelo centro, os quais, sob o discurso conservador de combate à corrupção, vão contra a noção de política enquanto um jogo entre representantes, cobrando relações concretas com o eleitor, enquanto cidadão autônomo e relevante.

Fez-se necessário, enfim, buscar uma compreensão do que representa o movimento, para além de parâmetros morais. Destacam-se questionamentos sobre o motivo do repúdio generalizado; a dimensão simbólica da violência e a qualificação de táticas de movimentos sociais; e o seu significado no contexto de crise de representação.

Legitimidade, qualificação de manifestações e a dimensão simbólica da violência

De fato, Hannah Arendt eleva poder e violência a uma contradição irreconciliável: nesse contexto, poder representa as possibilidades positivas da política; e violência representa desvios da dominação política. Onde o poder governa não há lugar para a violência: “Conceitualmente falando, isso significa: o Poder é, de fato, essencial a todos os estados, inclusive a todos os tipos de grupos organizados, ao passo que a violência não o é. A violência é instrumental por natureza; assim como todos os meios e instrumentos, requer um fim, que orienta e justifica seu uso. […] A violência bruta ocorre quando se perde o poder” (Arendt, 2009b, p. 52, 55).

(HERB, Karlfriedrich; 2013; p. 278)

A reflexão que arrisco a instigar pode incitar o ódio em setores da Academia e talvez causar movimentações adversas em túmulos, mas será que a violência, enquanto colocada por Arendt, não se legitimaria em circunstância alguma? Se a população não pode fazer uso pleno de suas liberdades positivas, poderia a violência servir como ferramenta de dominação? Afinal, a violência está sendo utilizada de forma claramente instrumental. Se o recurso de manifestantes à violência física se dá por um alijamento de sua possibilidade de ação política “legítima”, isto é, pela problemática da relação com instâncias de poder, não seria este um recurso para se reivindicar – ou até mesmo criar – poder?

Não pretendo me estender neste tópico, haja vista a complexidade do tema, os limites do texto e produções recentes deste blog sobre violência enquanto dinâmica de ação política, como “Considerações acerca da violência policial” e “Memória, esquecimento e a contraviolência”. Conforme com um trecho do primeiro texto referido:

Ruth Vasconcelos trata desse ponto: “é problemático defender o uso da violência para finalidades justas porque é um contrassenso pensar que a violência só seria condenável quando dirigida para finalidades ilegais, na medida em que a própria noção de ilegalidade está condicionada à concepção de poder”. (VASCONCELOS, 2005, p.133). Violência é violência, independentemente de ser considerada legítima ou não. Como colocar a questão da violência ilegítima quando quem decide o que é legítimo ou não é justamente aquele que detêm seu monopólio? (http://petpol.org/2013/06/19/consideracoes-acerca-da-violencia-policial/)

Frisando o questionamento anterior: o repúdio à violência como forma de ação política se daria em um campo moral ou estratégico? Caso o problema seja a agressividade em si, contra indivíduos ou não, a diferença de reação ante ações policiais e manifestantes é no mínimo contraditória.

Isto seria óbvio no âmbito do Estado, pela função clássica da polícia, mas a reprodução deste discurso por parte majoritária da população aparentemente reflete uma internalização da cultura de apaziguamento entendida como característica da dinâmica brasileira, traduzindo-se na importância e na repulsa generalizada que se percebe conceder aos Black blocs.

Contextualização histórico-teórica e crise de representação

Segundo Alonso (2009), a Teoria dos Processos Políticos, que despontou em estudos de Movimentos Sociais nos anos 70 e tem como principal expoente Charles Tilly, entende a mobilização como um conflito ou interação contenciosa entre “detentores de poder” e “desafiantes”, relativamente a uma população, em uma perspectiva histórico-cultural. Ela estaria assim enquadrada na mesma categoria que partidos, terrorismo e guerrilhas, estruturas de dinâmica política variando em grau de atuação e de violência conforme adequação a percepções sobre a Estrutura de Oportunidades Políticas. O repertório empregado hegemonicamente pelos movimentos sociais estaria intimamente ligado ao desenvolvimento do Estado-Nacional Ocidental e a conseqüente centralização da política e declínio de participação em poder local. Neste contexto, coexistiriam modelos “arcaicos” e modernos de ação coletiva, sendo os primeiros caracterizados pelo poder local e uso de violência.

Tais características podem ser atribuídas aos Black blocs, mas o diferencial desta atuação é claro: seu caráter é intrinsecamente global, e em um contexto nacional de consolidação da democracia representativa, em que o repertório padrão é o segundo, em que a principal estratégia passa pela formação de maiorias. Assim, esta forma de atuação aparentemente seria um enfrentamento não só ao sistema econômico e cultural, mas à própria “essência”, isto é, à própria maneira de se entender disputas políticas. E, no contexto negação do sistema político e institucional atual, representado tanto na relação com o Estado quanto na crítica formulada a partidos, parece ser precisamente este seu objetivo.

Aliás, a relação deles com seus objetivos também é particularmente interessante. Ao contrário do que se entende como mecanismo próprio da democracia representativa, o convencimento discursivo para criação de maiorias, os anarquistas brasileiros raramente se pronunciam, e suas palavras de ordem em geral são essencialmente curtas, objetivas e sem muita profundidade aparente. A impressão que muitos apreendem é que não, eles não querem fazer uma disputa política de fato; querem que “isto tudo o que está posto” tudo se exploda; são antidemocráticos e inconseqüentes.

E então eu trago a pergunta: até seis meses atrás, qual era sua opinião sobre a tarifa zero? Um absurdo, uma abstração impossível ou ao menos incoerente? Este era o posicionamento de diversas autoridades; e muitas delas vêm cedendo brechas em seu discurso, afirmando que, veja bem, não está entre as prioridades. Este exemplo mostra sua forma de disseminação de idéias: apresentando-as, forçando sua presença no espaço público, para possibilitar o debate. Ora, por que a tentativa de convencimento e, por vezes, manipulação de opiniões, seria mais ou menos legítima do que a imposição de que elas se tornem conhecidas?

Minha conclusão, sumariamente, é: você não precisa ser um Black bloc. Você não precisa gostar dos Black blocs. Você não precisa concordar com eles. Mas fica cada vez mais difícil negá-los.

Referências:

ALONSO, Angela. “As teorias dos movimentos sociais: um balanço do debate”. Lua Nova, São Paulo, 76: 49-86, 2009. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/ln/n76/n76a03.pdf> Acesso em 30 de outubro de 2013.

CANARY, Henrique. “Anarquismo e socialismo: o individual e o coletivo nas mobilizações de massas”. Em: <http://www.pstu.org.br/node/19465&gt; Acesso em 30 de outubro de 2013.

CARDEAL, Rayssa. “Considerações acerca da violência policial”. Em: <http://petpol.org/2013/06/19/consideracoes-acerca-da-violencia-policial/&gt; Acesso em 30 de outubro de 2013.

FUIZA, Bruno. “Black blocs, lições do passado, desafios do futuro”. Em: <http://www.viomundo.com.br/politica/black-blocs-a-origem-da-tatica-que-causa-polemica-na-esquerda.html> Acesso em 30 de outubro de 2013.

HERB, Karlfriedrich. “Além do bem e do mal: o poder em Maquiavel, Hobbes, Arendt e Foucault”. Revista Brasileira de Ciência Política, nº10. Brasília, janeiro – abril de 2013, pp. 267-284. Disponível em: <http://periodicos.bce.unb.br/index.php/rbcp/article/view/8618/6536> Acesso em 30 de outubro 2013.

NASCIMENTO, Rafael. “Algumas questões sobre repressão, tática black bloc e enfrentamento com o Estado”. Em: <http://pstuabc.blogspot.com.br/2013/10/algumas-questoes-sobre-repressao-tatica.html>  Acesso em 30 de outubro de 2013.

UNIPA, União Popular Anarquista. “Colhendo o que se planta: autoritarismo, apartidarismo e anarquismo”. Em: <http://uniaoanarquista.wordpress.com/2013/06/19/colhendo-o-que-se-planta-autoritarismo-apartidarismo-e-anarquismo/> Acesso em 30 de outubro de 2013.

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4 comentários em “Sobre Black blocs e a democracia

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  1. OQQÉ
    Número 2/2013 novembro
    JOGOS BLACK BLOC 2.0
    O Black Bloc parecia o começo de uma nova revolução cultural. Jovens brasileiros descontando o atraso na participação política e cívica, depois de uma ressaca da “Geração Coca-Cola” que descarregou toda a sua adrenalina, deixando a sua cota de responsabilidade civil nas poesias cantadas em versos melódicos compostos para três acordes de guitarra berradas no rock planaltino.
    Estávamos todos nos sentindo aliviados pelo efeito placebo da sublimação da nossa culpa coletiva e pela expiação da nossa alienação política em nome do dever cumprido ao deixarmos para os poetas-roqueiros a missão de nos redimir da nossa apatia diária diante das telenovelas pseudo-críticas que apenas repercutem a leitura oficial das mazelas do Estado patrimonialista e clientelista que supunha esgotar o seu trabalho patriótico obrigatório deixando todas as carentes chefes dos lares brasileiros satisfeitas com as suas prebendas dos programas assistencialistas que cobrem as necessidades urgentes dos sem-tetos nos programas “Minhas casas minhas vidas” até as satisfações das despensas cheias de farinha e cachaça dos “Cartões Famílias”.
    Convém saber que ainda vinha mais: para desculpar a nossa preguiça diária de sairmos às ruas para enfrentar triunfalmente os cães preparados das polícias anti-manifestação que são o guia de ação de qualquer país civilizado para garantir que o governo não se omite e que permite as democracias participativas proativas de ratificarem o status de país democrático, segundo as normas ISO 9000, então adjudicamos aos bravos rapazes e moças fantasiados de heróis internéticos dos Black Bloc a missão de dialogarem com as forças políticas através do braço fardado da polícia e das polícias.
    Quantos de nós os cientistas políticos dedicamos tempo ao tentar descobrirmos as linhas ideológicas deste tão vibrante movimento espontâneo, parecia que estávamos estudando um novo tipo das estratégias Gramscianas de guerrilha urbana, estávamos tentando enquadrar estes sofisticados eventos em teorias da desconstrução de políticas nuperinstitucionalistas, quem sabe descobrimos que fora das instituições políticas padronizadas e envernizadas pelo tempo estavam sendo forjados novos discursos políticos sem fazer da política o seu eixo, ou quem sabe, estaríamos assistindo ao sucateamento das estruturas de discurso Arentianos, fomos nos socorrer nos teóricos da anarquismo utópico présocialistas, mas eles seriam avançados demais para se enquadrarem em qualquer imperativo de categoria analítica kantiana, ou de qualquer outra.
    Assim, estes nossos novos heróis deixaram os seus campos de batalhas do Facebook, abandonaram as simulações do X-box e do PlayStation e foram para as ruas praticarem o que eles aprenderam desde a tenra idade das primeiras telinhas do jogo do Mário.
    Como se sabe, os heróis do vídeo game não morrem depois do game-over, nem depois das explosões, como se sabe sempre acumulam vidas, como os gatos, assim morrem depois voltam à vida, assim que o jogo recebe um restart.
    Esqueceram de dizer aos jogadores do Black Bloc que não tem a opção do restart na rua do prefeito do Rio de Janeiro, ele não é da geração vídeo-game, além do mais o José Mário Beltrame mandou fechar todos os vídeojogos abertos nos morros Uppeizados.
    Meninos do Black Bloc, quando os jogadores passam por todas as estações e ganham novas vidas e vão utilizando os seus bônus chegar-se ao fim do jogo, então o jogo se repete ad infinitum mas sem aquela mesma empolgação do começo, assim precisamos de uma nova versão Black Bloc 2.0 para substituir a versão obsoleta.
    Enquanto esta nova versão do jogo Black Bloc 2.0 não é lançada sugiro uma nova diversão até o Natal do próximo ano, quando o Papai Noel estará nos presenteando com novos cartuchos de jogos para curtirmos no próximo ano, a propósito, a geração vídeo-game precisa de novidades pois ela é muito superficial, consumista, imediatista e não curte o mundo real.

  2. OQQÉ
    Número 2/2013 novembro
    JOGOS BLACK BLOC 2.0
    O Black Bloc parecia o começo de uma nova revolução cultural. Jovens brasileiros descontando o atraso na participação política e cívica, depois de uma ressaca da “Geração Coca-Cola” que descarregou toda a sua adrenalina, deixando a sua cota de responsabilidade civil nas poesias cantadas em versos melódicos compostos para três acordes de guitarra berradas no rock planaltino.
    Estávamos todos nos sentindo aliviados pelo efeito placebo da sublimação da nossa culpa coletiva e pela expiação da nossa alienação política em nome do dever cumprido ao deixarmos para os poetas-roqueiros a missão de nos redimir da nossa apatia diária diante das telenovelas pseudo-críticas que apenas repercutem a leitura oficial das mazelas do Estado patrimonialista e clientelista que supunha esgotar o seu trabalho patriótico deixando todas as carentes chefes dos lares satisfeitas com as suas prebendas dos programas assistencialistas que cobrem as necessidades urgentes dos sem-tetos nos programas “Minhas casas minhas vidas” até as satisfações das suas despensas cheias de farinha e cachaça dos “Cartões Famílias”.
    Convém saber que ainda vinha mais: para desculparmos da nossa preguiça diária de sairmos às ruas para enfrentarmos triunfalmente os cães preparados das polícias anti-manifestação que são o ISO9000 de qualquer país civilizado para garantir que o governo não se omite e que permite as democracias participativas pró-ativas de ratificarem o status de país democrático, então adjudicamos aos bravos rapazes e moças fantasiados de heróis internéticos dos Black Bloc a missão de dialogarem com as forças políticas através do braço fardado da polícia e das polícias.
    Quantos de nós os cientistas políticos dedicamos tempo a tentar descobrir as linhas ideológicas deste tão vibrante movimento espontâneo, parecia que estávamos estudando um novo movimento da estratégia Gramsciana de guerrilha urbana, estávamos tentando enquadrar estes sofisticados eventos em teorias da desconstrução políticas nuperinstitucionalistas, quem sabe descobrirmos que por fora das instituições políticas padronizadas e envernizadas pelo tempo estavam sendo forjados novos discursos políticos sem fazer da política o seu eixo, ou quem sabe, estaríamos assistindo ao sucateamento das estruturas de discurso Arentianos, assim, fomos nos socorrer nos teóricos do anarquismo utópico présocialistas, mas eles seriam avançados demais para se enquadrarem em qualquer imperativo de categoria analítica kantiana, ou de qualquer outra.
    Assim, estes nossos novos heróis deixaram os seus campos de batalhas no Facebook, abandonaram as simulações no X-box e no PlayStation e foram para as ruas praticarem o que eles aprenderam desde logo nas primeiras telinhas do jogo do Mário.
    Como se sabe, os heróis do vídeo game não morrem depois do game-over, nem depois das explosões, como se sabe, sempre podem acumular novas e novas vidas, como os gatos, assim morrem, depois voltam à vida, assim que o jogo recebe um restart.
    Esqueceram de dizer aos jogadores do Black Bloc que não tem essa opção do restart na rua do prefeito do Rio de Janeiro, ele não é da geração do vídeo-game, além do mais o José Mário Beltrame mandou fechar todos os vídeojogos abertos nos morros Uppeizados.
    – Meninos do Black Bloc, quando os jogadores passam por todas as estações e ganham novas vidas e vão utilizando os seus bônus para chegar-se ao fim do jogo, então o jogo se repete ad infinitum mas sem aquela mesma empolgação do começo, assim, precisamos de uma nova versão Black Bloc 2.0 para substituir a versão obsoleta.
    Enquanto esta nova versão do jogo Black Bloc 2.0 não é lançada sugiro uma nova diversão até o Natal do próximo ano, quando o Papai Noel estará nos presenteando com novos cartuchos de jogos para curtirmos na próxima temporada de manifestações, a propósito, a geração vídeo-game precisa sempre, continuamente, constantemente de novidades pois ela é muito superficial, consumista, imediatista e não curte bem o mundo não-virtual.

  3. Os meninos do Black Bloc perpetuam o sentimento e a avaliação de que o Brasil seguiu caminhos completamente diferentes de seu irmão quase-gêmeo os EUA desde a colonização de ambos por países ibéricos.

    A religião lá, hegemônica, foi o protestantismo, dos alemães, aqui, o catolicismo português.

    Lá os migrantes procuraram o Estado mínimo apostando no comunitarismo, a comunidade elege os juízes de primeira instância, elegem os delegados de polícia dos condados, e elegem os demais cargos, como fiscais de postura, fiscais tributários dentro de seus condados, onde o eleito é obrigado a prestar o serviço público comunitário sem reeleição e por dois anos, sendo suspenso o seu contrato de trabalho enquanto presta este serviço.

    No Brasil, em 1808 com a vinda do Rei de Portugal, os servidores públicos ficaram sem os salários, então, o Rei ordenou que cada um se virasse, o que significou a institucionalização da propina oficialmente nos serviços públicos.

    O que significa que a cidadania norteamericana é voltada para as obrigações dos cidadãos para com a comunidade, no Brasil, a noção de cidadania significa direitos dos cidadãos e obrigações do Estado.

    Os Black Blocs não fazem nada mais do que perpetuar este comportamento dependente do Estado em um clientelismo de quem depende sempre do Estado para as mudanças e para o futuro de suas vidas. Estão sempre cobrando e exigindo mais e melhores serviços do Estado, mas nada fazem pelo Estado, muito menos pela cidadania e pela comunidade.

    Parece uma revolução mas não passa de continuísmo em manter o Estado na condição de primeiro protagonista das mudanças e das iniciativas sociopolíticas.

    Não pergunte o que o seu país pode fazer por você, e sim o que você pode fazer pelo seu país.

    Esta frase do Presidente John Kennedy parece ser o anátema dos Black Blocs que continuam a teimar a culpar o Estado por tudo de errado, ao invés de inverterem a equação e assumirem o protagonismo das mudanças e das iniciativas.

    Nos EUA as bibliotecas privadas são tão comuns que nem são consideradas ONG, no Brasil as ONG são em sua maioria OG, o N de não-governamental foi vendido em nome dos convênios para receberem as prebendas do Estado e enriquecerem os seus falsos-dirigentes falsos-filantropos.

    Chega de choradeiras. Gostaria de ver um Black Bloc nos confins do sertão abrindo poços de água e canais de irrigação, construindo creches com a mesadinha do papai nas favelas do Rio de Janeiro, subindo o morro para ensinar balé e artes cênicas de graça.

    Jogar merda nos bancos e multinacionais é muito cênico e pouco filosófico.

  4. Alguns comentários no facebook:

    Guilherme Crespo: Muito bom! O que ainda me deixa um pouco relutante em relação aos Black Blocs, muito mais do que o uso da violência ou a muita ou pouca reflexão na escolha de suas ações, é: quem são os Black Blocs? Elxs representam de fato pessoas que são alvo da violência policial como mecanismo de exceção permanente? Ou apenas podem nos dizer algo sobre resistência no contexto de manifestações que nem sempre dialogam com a periferia?

    Não acho que essa questão esteja fechada, nem que os Black Blocs não possam começar a agregar isso. Mas sei que tiveram algumas manifestações em bairros mais pobres, inclusive com forte repressão policial, e ainda há pouca participação de outras camadas da população (Black Blocs são classe média, ainda, majoritariamente?).

    Mas estou certo de uma coisa: ver setores da esquerda deslegitimando o movimento é muito muito prejudicial às lutas. Me lembro do Jean Willys repudiando os ataques ao Itamaraty (salvo engano), sem nenhuma problematização. É só dar mais corda a quem não quer ver mudança, a quem “luta” pelo status quo, porque acho que não ataca questões de fundo.

    Paique Duques Santarém: Oi maiara, achei muito legal o texto. Ele aponta algumas questões acerca do uso da violência e faz uma razoável digressão acerca do debate da ciência política sobre o assunto. O ruim de fazer um debate na academia é que os autores referẽncia em geral são, no máximo, liberais. Mas vc conseguiu trabalhar bem o debate.

    Há, todavia, uma questão que não fica clara no texto e que no meu ver gera deficiências que podem ser perigosas -> você não dedica um parágrafo a dizer quem são os black blocs brasileiros: seriam infiltrados dos movimentos sociais? seriam jovens de periferia? seriam parte da classe trabalhadora que participa dos sindicatos? seriam playboys mimados que só sabem quebrar tudo? Sem dizermos quem socialmente compoe o grupo, a análise fica centrada só na prática imediata ou na suposta ideologia deles. E é aí exatamente onde repousa o perigo, no debate acerca do anarquismo que você realiza.

    Durante todo o texto repousa uma visão que, julgo, é frágil sobre o processo anarquista atual brasileiro. Há uma unificação ou simplificação aparente do que é o anarquismo, autonomismo. Mais, sobre o que são as diferentes correntes anarquistas brasileiras, cada uma atuando a seu modo. E, especialmente, sobre os black blocs – que são parte pequena e, porém, mais visível dele.

    Por exemplo, em um parágrafo vc fala:
    “Aliás, a relação deles com seus objetivos também é particularmente interessante. Ao contrário do que se entende como mecanismo próprio da democracia representativa, o convencimento discursivo para criação de maiorias, os anarquistas brasileiros raramente se pronunciam, e suas palavras de ordem em geral são essencialmente curtas, objetivas e sem muita profundidade aparente. A impressão que muitos apreendem é que não, eles não querem fazer uma disputa política de fato; querem que “isto tudo o que está posto” tudo se exploda; são antidemocráticos e inconseqüentes.”

    Quais anarquistas? Os anarquistas especifistas, que lançam três livros por ano? Os anarquistas primitivistas, que tem três editoras? Os anarquistas de movimentos sociais, que falam por meio de seus coletivos? Os anarquistas do movimento antiglobalização, que constituíram enormes experiências de mídia junto a outros compas de outras correntes – por exemplo o Indymedia Center? Os bakuninistas, que tem um calhamaço programático a disposição de quem quiser acessar? Os anarcopunks, que tem como principal prática expressarem-se por meio de suas bandas e zines? Ou seriam os anarquistas somente os black blocs? Essa redução do anarquismo a uma única expressão recente dele pode ter horríveis consequencias.

    Os black blocs são um tipo autoproclamado de anarquismo, e não O anarquismo. Aliás, posso dizer sem muito medo de errar que os black blocs são a parte menos influente do anarquismo em relação às outras correntes. Ou seja, nenhuma corrente anarquista atual está reordenando suas práticas em função dos “ensinamentos” dos black blocs. Até mesmo porque este debate já é presente em nosso meio desde, pelo menos, 1999. O problema desta generalização que você faz é que ela incorre no mesmo erro que a mídia hegemônica sugere como tática de criminalização: generalizemos tudo em um, para bater em todos.

    Achei bem bacana o texto, mas e sugeriria que o desenvolvimento dele pudesse tratar com mais acuidade sobre o anarquismo brasileiro e sobre a composição social e organização dos bb’s. De resto, ficou ótimo. Abraços, paique

    Diogo S. Costa: Paique Duques, há um erro tbm quando o BB é caracterizado como um movimento puramente anarquista. A ação BB não surge como uma insurgência anarquista, mas, sim, como uma necessidade de proteção advinda da repressão policial a partir da Jornada de Junho e ainda uma tática de resposta poucas vezes vista, no Brasil, diante do ataque do aparelho opressor Estatal. A inspiração autonomista e anarquista não é preponderante nos simpatizantes da tática, que não é um movimento, é simplesmente uma tática que ganha adesão naturalmente dentro do atual contexto das manifestações populares.

    Paique Duques Santarém: Mas Diogo, minha análise foi justamente no sentido do que você disse. Até mesmo porque o black bloc não é um movimento, mas uma tática de manifestação. O black bloc é semelhante aos exércitos que palhaços que o MPL sempre fez, por exemplo. Como tática, essa expressão não precisa nem sugere que todos que dela participam tenham acordo programático com linha política a ou b, mas sim que estejam dispostos/as a realizá-la. Por outro lado, de fato a inspiração geral dos Black Blocs é e sempre foi mais vinculada às leituras e conceitos anarquistas. O que não faz com que os BB’s necessariamente o sejam.

    Leonardo Abecassis: Mesmo que não sejam anarquistas por ideologia, tem características de tais. Suas ações vão de encontro à teoria da ação direta, que pode ser considerada anarquista, visto que considera as instituições do Estado falidas e ineficientes.

    Paique Duques Santarém: A ação direta está presente em diferentes movimentos sociais e abrange um conjunto maior de ações que quebrar vidros e enfrentamento com a polícia. Os outros conceitos que teriam relação direta são, por exemplo, do de propaganda pela ação, livre associação, etc.

    Diogo S. Costa: Este é o ponto Leonardo Abecassis, os BB ñ precisam ter suas ideias mapeadas e suas ações rotuladas. A ação das classes dominantes está forçando um debate a respeito do BB e forçando esta criminalização e marginalização para desvirtuar o debate em torno dos temas vitais e enfraquecer a revolta da população.

    Maiara Zaupa: Gente, muito obrigada pelas colocações, bem merecidas. Principalmente no que toca ao anarquismo; meu conhecimento nessa área é ainda muito raso, de fato.
    Sobre a questão da legitimidade, acho que não ficou claro pela formatação, mas é uma citação de outro texto do blog. Entendo que a análise feita sobre o processo de legitimação da violência é exatamente criticando o discurso estatal, expondo que ele é claramente político.
    Como fica complicado reestruturar o texto, vou colocar nos comentários da página um resumo dos comentários de vocês, pode ser?
    Abraços!

    Paique Duques Santarém: Se quiser um livro que faz um belo panorama do anarquismo hoje, sugiro essa dissertação do felipe correa. Ele é faz um ótimo balanço. http://ithanarquista.wordpress.com/…/felipe-correa…/

    Paique Duques Santarém: uma outra leitura, de outro campo, vem do marcelo lopes de sousa. tem umas viagens, e o debate nos comentários dos textos compoe a obra. é uma rtigo em duas partes, mando a primeira, que tem o link da segunda. http://passapalavra.info/2013/05/77856

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