Sobre leitura, (re)produção e relações de poder em nossas bibliografias

Por Inayara Oliveira

O texto de hoje traz uma reflexão sobre a necessidade de se construir uma sociologia das ausências, ou uma sociologia periférica. Uma sociologia que combata a razão metonímica – essa que toma a parte pelo todo – à partir do lado de cá da linha do Equador. Trago a ideia de que é preciso romper, como bem disse Boaventura, com o pensamento abissal – que tem como característica fundamental a impossibilidade da co-presença dos dois lados da linha. (BOAVENTURA, 2007, p71) Venho, portanto, expressar minha visão sobre a necessidade de se registrar outro tipo de conhecimento – que seja produzido fora do eixo EUA-Europa – e que tal conhecimento seja lido e disseminado dos dois lados dessa tal linha, por todo o globo.

Diferentemente do que costumo escrever, hoje proponho a reflexão sobre o que nós andamos lendo, conhecendo e, mais importante, (re)produzindo dentro da Universidade. A ideia de escrevê-lo surgiu quando, na aula de Pós-colonialismo, o professor nos contou que em sua defesa de doutorado (feita em 2007, no Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília), não fez menção à maioria dos cânones da sociologia (é, isso mesmo, em sua dissertação, ele não recorreu nem a Marx, nem a Weber, nem Elias, nem Giddens, nem Bourdier). Ele alegou, porém, que isso não teria sido possível uma década antes; o que significa que… estamos ampliando nosso aspetro teórico, no sentido de dar mais possibilidade às diversas matizes de produção de conhecimento, certo? Nem tanto. Digo isso porque volta e meia somos entupidos de textos que foram su-ces-so na Europa séculos atrás, ou, sendo mais otimista, na década de… 1960, 1970? (1990 é o ápice da vanguarda, quase todos sabemos, ou melhor, experenciamos). Você, caro leitor, ou deve me achar uma prepotente ou uma translocada por fazer tal crítica, não é? De ante-mão me defendo já dizendo que não estou insinuando que temos que parar de lê-los – os clássicos são de demasiada importância; entretanto, eles não estão sós. Agradeço a esses gigantes a quem sempre subimos nos ombros quando precisamos. Entretanto, meu objetivo aqui é o de trazer a proposição de que é preciso dar espaço às novas teorias que não essa “mainstream-nossa-de-cada-dia”. Isso porque acredito que  nós nos lemos muito pouco e, ainda pior, nos citamos menos ainda – por isso a crítica feita acima sobre sermos entupidos de textos canônicos que pouco nos dizem de nossa realidade empírica, que pouco retratam do nosso dia-a-dia.

Defendo, portanto, a ideia da abertura de campos de possibilidade de saber, para que a intelectual pós-colonial, a intelectual feminista, a intelectual negra, a intelectual indígena e todas aquelas que  trazem o desafio de tentar romper com o discurso hegemônico da modernidade sejam lidas e (re)conhecidas – e isso não somente nos guetos,  onde lhes é resguardado lugar. Falo da importância de se trazer outros saberes, outras experiências de operacionalização de justiça, de economia, de concepções territoriais. No intuito de quebrar aquela famosinha máxima hegeliana de que “só é possível filosofar em alemão”; proponho a ideia de nos lermos e nos (re)conhecermos, afim de descontruirmos essa ideia iluminista de universalidade (que, olhe só, localizava-se, à época de Hegel, nos Pirineus; e hoje, ancora seu pensamento abissal nas cátedras do “Velho” ou “Primeiro” mundo). É pra romper com essa ideia de sujeito transcendental, pra dizer-lhe que pare de se mascarar atrás dessa tal “universidalidade” – pois sabemos que tal sujeito está e sempre esteve muito bem situado e localizado e que a tal “universalidade” que o acorberta é, para teóricas como Mackinnon, nada menos que uma forma de justificar maneiras de exploração – uma vez que a desigualdade material acaba reduzindo  a capacidade de auto-determinação dos indivíduos, tão necessária à construção desse “sujeito-universal-transcendental”.

E é na postura de uma “ativista” (inspirada por Boaventura), que venho aqui defender uma ecologia de saberes, na qual o conhecimento seja um interconhecimento; no sentido de pensarmos uma inesgotável diversidade epstemológica do mundo, em que o conhecimento seja pensado como intervenção no real — não como representação do real ; que “a credibilidade da construção cognitiva seja mensurada pelo tipo de intervenção no mundo que ela proporciona, auxilia ou impede. (BOAVENTURA, 2007, P88)

E é nesse sentido mais propositivo, embora um tanto quanto confuso, admito, venho lhes convidar a pensar para além, ou melhor, a pensar de maneira uma maneira “pós-abissal”, de conhecer uma outra visão que não essa consolidada há anos em sociedades tão distintas das nossas – apesar da  pretensão ou universalista ou imperialista de tais sociedades – e a tentarmos, ao máximo, compartilharmos tais saberes e o disseminarmos, afim de construirmos um interconhecimento mais plural possível.

 

Esse texto é da petiana Inayara, que está animada com as novas possibilidades de campos de saber que lhe cruzaram o caminho nos últimos tempos.

 

Referência bibliográfica:

SANTOS, Boaventura de Sousa. Para além do pensamento abissal: das linhas globais a uma ecologia de saberes. Novos estud. – CEBRAP,  São Paulo ,  n. 79, Nov.  2007 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-33002007000300004&lng=en&nrm=iso&gt;. access on  25  Sept.  2013.  http://dx.doi.org/10.1590/S0101-33002007000300004.

 

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Um comentário em “Sobre leitura, (re)produção e relações de poder em nossas bibliografias

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  1. Não há nada pior do que a unanimidade.

    A CIÊNCIA é avessa à democracia.

    “Toda unanimidade é burra” dizia Nelson Rodrigues, que significa dizer que o conhecimento sempre será elitista, e solitário.

    Lembra-me agora na Universidade de Cambridge Inglaterra, Sir Isaac Newton aos 23 anos de idade apresentando a sua “Principia” a sua teoria da força gravitacional para um auditório de doutores em Filosofia, Matemática e Física.

    Um a um todos foram se retirando para não serem constrangidos a serem cúmplices de tanta estultície de um jovem arrogante.

    Não me constrange ficar na minoria, dos contrários. A tecnologia moderna tem perto de 150 anos, pois nada de novo surgiu nas ciências básicas exceto a nanotecnologia, os nossos conhecimentos tecnológicos são meras aplicações de princípios descobertos dentro deste século e meio.

    O computador ainda não debate com o ser humano, consumimos meio ano de viagem espacial para levarmos até Marte um pedaço de metal repleto de bugigangas ininteligíveis para testarmos se algum composto orgânico ali seja reconhecido como algo antropomórfico.

    As novas idéias tem de brigar e gritarem para serem ouvidas.

    A banca não deixa passar nadas das margens da lauda, as tabelas tem de estar bem centralizadas nas páginas senão, lá se vai uma idéia brilhante para o ostracismo.

    O CNPQ faz meticulosas e cuidadosas exigências para selecionar projetos e pesquisadores, mas nenhum requisito se refere à competência, apenas formalidades como diplomas, idade, temas correlacionados com o conhecimento e as preferências temáticas da banca, tem de ser vagabundo (não pode trabalhar em outra atividade se não a pesquisa), infra exigências veladas sobre o gênero, cor da pele e origem geográfica doso candidatos, e, pasmem, tem que ter um padrinho! (cartas de apresentação dos grãos-mestres da Guilda científica).

    Assim fica difícil fazer ciência!

    Ouvindo e vendo uma entrevista recentemente no programa “Roda Viva” com o imortal Fernando Henrique Cardoso percebi com seria fácil para qualquer aluno de um curso de Ciência Política ou de Relações Internacionais atuais colocá-lo em saia justa: as referências bibliográficas de FHC todas tem mais de um século de atraso! O autor mais recente citado pelo mesmo durante toda a entrevista foi de um livro prefaciado por ele “A Sociedade em Rede” de, Castells.

    Como a nossa inteligência acadêmica envelheceu!

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