O que Marx tem a dizer sobre aquele frango à passarinho da semana passada?

Por Daniel Vasconcelos

Que vivemos em uma sociedade do consumo, todos nós estamos cansados de saber. E assim tem sido desde meados do século dezenove, pelo menos nas civilizadas terras americanas e europeias. As transformações do capitalismo industrial proveram não somente bases para um ciclo cada vez mais curto da mercadoria, mas sobretudo reinventaram novas formas de consumo. “Sim sim, muito bem. Mas não podemos comparar os padrões de comportamento do fim do século dezenove com os de hoje”. E por que não? Vivemos em uma sociedade mais consciente? Hmmm. Vivemos em uma sociedade mais racional? Hmmm. Já sei, vivemos em outra sociedade! Hmmm, também não. Eu acho, ao contrário, que muitas coisas pararam no tempo. Podemos não perceber a “olho nú”, mas sempre temos alguns “aparelhos” para identificar a realidade tal qual ela é. Digo que paramos no tempo em certos aspectos. E parar no tempo às vezes não é ruim. O conteúdo deste texto, creio eu, não seria um desses casos positivos.

E o que o título tem a ver com tudo isso? Bom, para começar, vamos compreender que, por mais que possam existir pessoas que odeiam Marx, ele conseguiu identificar potenciais padrões de comportamento extremamente relevantes para o ethos capitalista. Como já diria aquele cientista, para compreender o capitalismo como ele realmente é, leia sobre a crítica marxista. Não sou ingênuo ao ponto de considerar Marx um autor totalmente contemporâneo. Aliás, muito do que escreveu sobre o papel do Estado na sociedade capitalista seria pouco levado a sério hoje em dia. Entretanto, como me referia acima, nem tudo em nossa sociedade pode ter caminhado para a mudança histórica. Nesse sentido, um importante fenômeno social que permanece vivo nos corações de pobres consumidores – e de ricos também, ora – refere-se ao “fetichismo da mercadoria”. “Lá vamos nós outra vez. Os malvados capistalistas fazem todos nós sentirmos uma necessidade irracional e incondicional por um produto totalmente irrelevante para nossas vidas. Isso acontece o tempo todo, não há nada de novo nisso”. Claro. Mas eu diria que isso seria uma visão um tanto quanto simplista. (Calma querida leitora, em breve falaremos sobre o frango a passarinho da semana passada). O fetichismo da mercadoria é uma propriedade criada pelo capitalismo em que um determinado produto não possui mais seu real valor de uso. A mercadoria adquiriu propriedades metafísicas e sociais, e os seres humanos tornaram-se coisas. Em outras palavras, quem é o intermediário nas relações sociais é o próprio ser humano, e não as coisas que próprio produz. Nossa satisfação depende do que é produzido. Mais adiante veremos porque isso é importante.

Ao assistir a um documentário chamado “Meat the Truth”, me dei conta do quão presente está o fetichismo da mercadoria em âmbitos vitais de nossa existência, como é o ato de se alimentar. Para quem não viu o documentário – não vou contar o final, ele retrata uma visão pertinente sobre as causas humanas, por assim dizer, do aquecimento global. Uma deputada holandesa demonstra que a maior parcela de gases nocivos à temperatura do planeta são oriundos da indústria pecuária. Em outras palavras, não são carros e ônibus barulhentos e “baforentos”, e sim a nossa carne de todo dia que mais contribui para o aquecimento global. É uma revelação e tanto, não é mesmo? De fato, é. Entretanto, por que isso ocorre? Creio que é uma causa mais profunda e complexa, que se confunde com a economia capitalista, com as práticas culturais ocidentais e com um fator biológico importante: se descobrimos que os CFCs presentes em isopor, por exemplo, eram o grande responsável pelo buraco na camada de ozônio e imediatamente criaram-se regulações proibitivas para erradicar a produção desse componente, a carne, por outro lado, afeta hábitos alimentares de toda uma coletividade impossível de ser controlada somente através de normas abstratas que possam ser efetivas em coisas.

Enfim, as necessidades construídas pela produção capitalista se confundem com as próprias necessidades fisiológicas. Quem pode determinar com precisão se eu ou você comemos uma pizza de carne seca com catupiry por conta da relação produtiva específica que ocasionou no surgimento da mercadoria “pizza de carne seca com catupiry”?  Não pretendo ser o “advogado do diabo”. Ao contrário, pretendo chegar a uma conclusão de que certas construções sociais não são tão facilmente transformadas, mesmo que haja aquela tão sonhada “vontade política” por parte dos poderosos. Quando tratamos do nosso próprio alimento, será que, como indivíduos, somos capazes de “racionalmente” identificar padrões de produção que nos transformam em coisas? Será que não nos tornamos “alienados” – desculpem-me pelo “salto” conceitual – com a prática de se alimentar com algo que nem possuímos conhecimento de todo o processo produtivo até chegar às nossas mesas?

Acho que assim chegamos ao frango a passarinho da semana passada. Minha intenção é demonstrar duas coisas: um, não temos a mínima noção do processo e das conseqüências do processo produtivo da mercadoria “frango” e, dois, possuímos vontades socialmente construídas que se camuflam em necessidades fisiológicas. Antes, uma breve consideração sobre a mercadoria “frango”. “Mas que desumano, o frango é uma ser vivo, por que o trata como coisa?” Eu respondo: a produção de frango não é uma criação sustentável ou de subsistência, e sim uma linha tradicional de construção de um produto a partir de patamares de satisfação socialmente hiper-considerados. Em outras palavras: na visão do produtor, e eu diria até do consumidor, o frango deixou de ter vida. Mas não vamos perder o foco. A produção pecuária movimenta enormemente a produção agrícola. Vocês sabiam que cerca de 75% de toda a soja produzida é para servir de alimento para aquilo que vamos comer? E as conseqüências disso? Produzimos milhões e milhões e milhões de frangos mutilados e “adaptados” para o comércio mundial de alimentos. Muitos desses frangos apodrecem e são jogados fora. Muitos desses frangos não chegam a muitas áreas desse nosso planeta. Para onde vão esses frangos? Quais são os problemas ligados à saúde que todo esse processo acarreta? Doenças? Lixo?

Sobre o segundo ponto, uma mera questão de relativização. Muitos dizem que tudo é uma construção social. Há controvérsias. O caso em questão é um daqueles problemáticos: nós temos condições de alterar nosso comportamento visto que é uma questão de mudança cultural ou a carne seria um alimento indispensável para a saúde perfeita do ser humano? Se for indispensável, é imprescindível que comemos todos os dias, em grandes quantidades? Vejam bem, não quero com isso orquestrar uma marcha global para todos se tornarem vegetarianos. Mas, como sábias da ciência (especialmente aquelas que não são consideradas ciência pelos “mandachuvas”, ironicamente), da religião, e de qualquer outra fonte de conhecimento, costumam dizer, a autoreflexão, às vezes, é mais importante que o acúmulo do saber. A natureza está à nossa disposição para podermos fabricar mercadorias de frango sem qualquer conseqüência? Talvez essa resposta tenha que extrapolar os conceitos da ciência. Talvez há uma conexão muito íntima entre nós e a natureza – no fim das contas, somos parte dela, não é mesmo? – e sua exploração pode não ter um final feliz. Talvez…

Sim! O que Marx diria com tudo isso? Bom, já vimos que consumo de carne já ultrapassou o simples consumo de um alimento “necessário” para um consumo de uma mercadoria que corresponde às satisfações do mercado. Isso porque o valor desse produto não mais corresponde com sua “produção”. Dessa vez, entretanto, creio que seja o caso inverso do clássico. O preço a se pagar está muito barato, barato demais. “Quanta ingenuidade… para a maioria da população global, um frango é um artigo de luxo!”. E é aqui a novidade: não pensem que o preço é somente monetário. Estamos lidando com uma cadeia de devastação para alguns terem uma asinha de frango na mesa, e muitos terem uma sopa de terra. Creio que Marx ainda não tinha uma consciência ambiental, mas sua consciência “econômica” pode suscitar uma boa reflexão para o nosso propósito aqui. Afinal, é o nosso modo de produção capitalista não-sustentável e nossa cultura do consumo alienado – sim! Nós alienados não podemos ficar fora da equação – que resulta em problemas além do que Marx poderia supor. Pois esse não é um problema de “luta de classes”, é um desafio à nossa capacidade de superar outro tipo de exploração. E o que Max diria? Talvez: “seu consumista alienado! Está financiando sua auto-destruição?”. Talvez isso seja duro demais para ser ouvido. Talvez: “caro amigo, você pode não saber, mas pode estar vivendo como coisa, e sua mercadoria como ser, em outras palavras, você não consegue ter controle sobre seu consumo e acaba pensando que sua satisfação é genuína….”

E eu diria: vamos parar nossas vidas mecanizadas por dez minutos e pensar um pouco sobre aquele frango a passarinho da semana passada?

 

Daniel Vasconcelos é petiano, não é vegetariano, e prefere sempre criar consciência de seu mundo. Pode não alterá-lo com isso, mas é um começo…

 

PS: acaba de ser divulgado (11/09/13) o relatório oficial da FAO sobre o desperdício e produção de alimentos e seus impactos ambientais.

O link é este: http://www.fao.org/docrep/018/i3347e/i3347e.pdf

Se não puderem ler por completo, peço para que vejam os gráficos 8, 17, 25 e 26.

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2 comentários em “O que Marx tem a dizer sobre aquele frango à passarinho da semana passada?

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  1. Muito bom texto! Realmente uma reflexão necessária e pertinente para dilemas sociais e sociológicos de nossas vidas.

    Outro paralelo com Marx, e também um apontamento em relação ao seu pensamento, é quanto à coisificação. Ainda mais aguda, em se tratando de animais.
    O coisificar-se, a reificação, entendida somente em torno da relação capital-trabalho e do distanciamento do trabalhador/operário quanto ao fruto de seu trabalho, leva-nos ao seguinte ponto:

    1. Tomemos o animal como sujeito, o que é quase surpreendente a depender do caso;
    2. Na produção de carne, o animal é o sujeito ativo da produção (afinal, é a razão do produto final) e, ao mesmo tempo, objeto passivo do sistema, uma vez que é explorado e posto de forma subserviente em direção a resultados promissores da indústria carnívora.
    3. Sendo sujeito o animal, a produção de carne exige a eliminação o mesmo. Se o trabalhador-humano é alienado no processo de desenvolvimento e consolidação do capitalismo, o escravo-animal é tão somente extinto. É um caso máximo de aniquilação física, ou mesmo, de alienação fatal.
    4. Se o capitalismo industrial, no modo visto por Marx, se acumula, então, pela exploração do trabalhador, a produção de carne (e, portanto, de nosso capitalismo dos dias de hoje) se baseia na morte.
    5. Reveste-se esse processo de um caráter ainda mais miserável. O animal não-humano é levado a reproduzir somente em torno da manutenção e ampliação do sistema. Cresce a população animal, no ritmo produtivo, somente em torno da serventia à produção de carne.

    Nos termos de Marx, essa é a minha consideração: se o trabalhador é alienado do processo de produção, o animal é: a) privado de vida saudável; b) dirigido à reprodução e aumento do sistema e c) aniquilação e morte.

    Trata-se ou não de um dos maiores escravidão que vivenciamos hoje em dia?

  2. Muito bom texto! Realmente uma reflexão necessária e pertinente para dilemas sociais e sociológicos de nossas vidas.

    Outro paralelo com Marx, e também um apontamento em relação ao seu pensamento, é quanto à coisificação. Ainda mais aguda, em se tratando de animais.
    O coisificar-se, a reificação, entendida somente em torno da relação capital-trabalho e do distanciamento do trabalhador/operário quanto ao fruto de seu trabalho, leva-nos ao seguinte ponto:

    1. Tomemos o animal como sujeito, o que é quase surpreendente a depender do caso;
    2. Na produção de carne, o animal é o sujeito ativo da produção (afinal, é a razão do produto final) e, ao mesmo tempo, objeto passivo do sistema, uma vez que é explorado e posto de forma subserviente em direção a resultados promissores da indústria carnívora.
    3. Sendo sujeito o animal, a produção de carne exige a eliminação o mesmo. Se o trabalhador-humano é alienado no processo de desenvolvimento e consolidação do capitalismo, o escravo-animal é tão somente extinto. É um caso máximo de aniquilação física, ou mesmo, de alienação fatal.
    4. Se o capitalismo industrial, no modo visto por Marx, se acumula, então, pela exploração do trabalhador, a produção de carne (e, portanto, de nosso capitalismo dos dias de hoje) se baseia na morte.
    5. Reveste-se esse processo de um caráter ainda mais miserável. O animal não-humano é levado a reproduzir somente em torno da manutenção e ampliação do sistema. Cresce a população animal, no ritmo produtivo, somente em torno da serventia à produção de carne.

    Nos termos de Marx, essa é a minha consideração: se o trabalhador é alienado do processo de produção, o animal é: a) privado de vida saudável; b) dirigido à reprodução e aumento do sistema e c) aniquilado e morto.

    Trata-se ou não de um dos maiores casos de escravidão que vivenciamos hoje em dia?

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