Individualismo e modernidade

“Há dois peixes nadando juntos. Ambos acabam por conhecer um peixe mais velho que vem nadando na direção oposta. O peixe acena para eles e diz:

– Bom dia, garotos! Como está a água?

Os dois jovens peixes continuam nadando por um pouco até que um deles se vira para o outro e pergunta:

– O que diabos é água?”¹

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Um dos muitos conceitos caros à sociedade ocidental é o individualismo. A afirmação da força do indivíduo frente a um grupo se faz intrínseca ao ethos individualista que se propaga por todo o globo.

Georg Simmel, sociólogo alemão, em seu texto “As grandes cidades e a vida do espírito”, busca formar uma teoria geral acerca do homem das cidades modernas. Segundo ele, a vida agitada e nervosa que é intensificada na modernidade leva as pessoas das cidades a racionalizarem as coisas que as cercam, inclusive as próprias relações sociais.

Assim, sob essa ótica, o indivíduo se vê tendo que ser cada vez mais objetivo já que seu tempo é mais e mais escasso. Os valores quantitativos sobrepõem os valores qualitativos, tornando o espírito moderno um “espírito contábil” (SIMMEL, 2005, p.508).

Ademais, Simmel também percebe um distanciamento por parte dos indivíduos frente ao todo. O sentimento de solidão e anonimato em meio à multidão cresce na vida moderna. A cidade é marcada por um constante tom blasé, por uma indiferença ou mesmo aversão entre as pessoas que buscam se proteger de tal distanciamento reproduzindo justamente a atitude de reserva de um para com os outros.

Em paralelo à pequena história acerca dos dois peixes que nadam sem se darem conta da realidade que os cerca, um grande problema pode surgir quando o indivíduo passa a não perceber o meio em que está inserido. Simmel já apontava para o anonimato em meio à multidão. Na ânsia pela auto-afirmação enquanto indivíduo dotado de liberdades frente ao todo, corre-se o risco de se transformar os demais indivíduos dotados dessas mesmas liberdades em uma massa amorfa e indistinta que não leva em consideração a individualidade de cada parte que a compõe.

Dessa forma, tem-se uma primazia da concepção de indivíduo ao mesmo tempo em que ocorre uma desvalorização do próprio indivíduo enquanto pessoa.  O tom blasé apontado por Simmel se propaga no meio social e a indiferença, a desvalorização do outro, passa a ser uma característica cada vez mais paupável no dia-a-dia. Reconhece-se a própria liberdade individual e ignora-se a liberdade de outrem.

O indivíduo é único e específico. Tem suas particularidades e deve prezar pela sua própria liberdade. Entretanto, que a existência dos demais não seja esquecida, afinal, a sociedade em si se faz de indivíduos distintos; o total não está dissociado do particular.

1 Tradução livre. Trecho da palestra de David Foster Wallace intitulada This is water concedida aos graduandos do ano de 2005 do Kenyon College. Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=PhhC_N6Bm_s&gt; Acesso em: 20 de Agosto de 2013.

BIBLIOGRAFIA

SIMMEL, Georg. As grandes cidades e a vida do espírito (1903). Mana [online]. 2005, vol.11, n.2, pp. 577-591. Disponível em: <http://dx.doi.org/10.1590/S0104-93132005000200010&gt;

 

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