Dzi Croquettes

Por Inayara Oliveira

Seja rompendo paradigmas, transgredindo à heteronorma ou abalando as estruturas daqueles que os assistiam, os Dzi Croquettes foi um grupo artístico que fez sucesso no Brasil e no exterior na época da ditadura. Nas palavras de Gilberto Gil, os Dzi Croquettes eram “(…) feminino, masculino, andróginos, eram tudo aquilo, aqueles corpos nus, maravilhosos. Eram uma explosão que protestava contra a ditadura através do escracho”.  Para Amir Haddad, diretor de teatro, eles eram homens fortes, cabeludos, cheios de pelo – eles não raspavam os pelos – que pisavam duro, dançavam como machos vestidos como mulher e com uma sexualidade dúbia que balançava muito as estruturas sexuais das pessoas.

O documentário Dzi Croquettes (ISSA & ALVAREZ, 2009), resgata a alma e genialidade do grupo que abalou as estruturas na década de 60 e 70 no Brasil. Um dos documentários mais premiados do país, Dzi Croquettes lança o olhar para cada um dos treze artistas que compunham o grupo, ressaltando, a cada enfoque, sua arte e perspicácia. O interessante desse documentário é que ele resgata do esquecimento a memória de um grupo que conseguia romper, através da arte, padrões reproduzidos segundo a heteronorma; que se esquivava da censura, uma vez que esta não conseguia captar onde estava a ameaça, apesar de saber que aquilo representava um perigo. É interessante observar o potencial do alcance político desse grupo, que era composto por homens, que se vestiam como mulher, mas pisavam duro, não se depilavam e faziam performances que não eram passíveis de crítica tamanho era seu talento e criatividade. Segundo um dos dzi, pais de família, psiquiatras, militares, os procuravam; senhoras, mães, que gritavam, os adoravam. E as pessoas foram modificando suas atitudes, suas roupas, seu modo de ser e de pensar. E é nesse ponto que os dzi rompem as estruturas, quebram paradigmas, rompem com os padrões que constituíam os campos de desejo e para estes estabeleciam fórmulas. O subversivo do grupo é essa abertura de novas formas de constituição de desejo, formas essas que rompem com as fórmulas, que outrora imputaram modelos normativos.  Com seu trabalho único, os dzi conseguiram transgredir a norma vigente, conseguiram criar, segundo Wagner Ribeiro (um dos cabeças do grupo) eles construiam, através do amor, algo novo e esse “algo novo” tinha o poder de se conectar com o outro.

Escrevo hoje para o blog do PET sobre esse documentário dos Dzi Croquettes para, além de aguçar a curiosidade e convidá-lxs a assisti-lo, por acreditar no projeto político proposto por esse grupo. Nas palavras de José Rossi Neto – diretor de teatro – “eles não estavam nem um pouco engajados com política institucional, mas é claro que é político, qualquer ato é político e havia uma revolução de comportamento e liberação sexual e de valores morais com relação à masculinidade e feminilidade e eles são um grande grito, sem duvidas”. E é nesse grito que empenho minhas forças e minha voz, no sentido de criar, subverter, transgredir essa ordem vigente heteronormativa, a fim de construir, segundo a perspectiva de Wagner de que só o amor constrói, um elo que me conecte com o outro.

E, para encerrar meu texto de hoje, fico com as palavras propositivas do brilhante escritor e militante Herbert Daniel, que fala um pouco sobre o projeto político no qual eu acredito: “Nada a assumir, tudo a construir. E construir o sexo de cada um significa inventar a criança de cada um, ou seja, a criança-sexo de cada um. Mas não a criança “real” que fomos, nem a criança-ilusão que memorizamos. É preciso gerar, hoje, em cada um, a criança que poderíamos ter sido. Processo de gestação: devemos nos engravidar todos, produzir um filho. Que filho? O nosso próprio sexo polimórfico, doce e perverso. Não há esquema ou um modelo. Poxa, sexo não é vestimenta prêt-à-porter! Há um plano, um projeto. Sejamos um útero PROGENITOR de nós mesmos, eduquemos nossa harmonia individual.

Tudo isso, enquanto opção, ação e programa é uma atividade política. Estritamente política sem partido, sem bipartidarismo sexual.

O que resta a aprender é que SEXO É A CONTINUAÇÃO DA POLÍTICA POR OUTROS MEIOS.”

Referências bibliográficas:

Daniel, Herbert. “Os anjos do sexo”. Jacarés e lobisomens: dois ensaios sobre a homossexualidade. Leila Miccolis e Herbert Daniel. Rio de Janeiro: Achiamé; SOCII-Pesquisadores Associados em Cências Sociais, 1983

Documentário Dzi Croquettes – (ISSA & ALVAREZ, 2009),

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Um comentário em “Dzi Croquettes

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  1. Incrível, Dzi Croquettes é tudo isso e um pouco mais, tive a oportunidade de conhecer a história e a trajetória deles, quando um colega da minha turma de teatro nos sugeriu que fizéssemos algo sobre eles, fizemos um espetáculo lindo, chamado CENSURADO, foi inovador e tivemos o objetivo que queríamos alcançado, fizemos com que as pessoas conhecessem esses homens revolucionários.

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