Violência de quem?

Por Louize França

O mês de junho representou para a população brasileira um momento de protestos e revoltas intensas.  Slogans como “o Brasil Despertou” ou “Não é só pelos 20 centavos” e muitos outros ecoaram por toda a extensão do país. Muito foi discutido e novas propostas foram surgindo. Momentos de paz e de tensão, e até mesmo de violência tiveram espaço.

No entanto, falar que o Brasil só despertou agora é ignorar a maioria dos movimentos sociais que sempre atuaram durante todos esses anos. Podemos concordar que as reivindicações ganharam maior força com a efetuação do evento da Copa das Confederações. A impressão de antes era de que gritávamos, mas não éramos escutados. Indignávamo-nos, mas continuávamos sendo deixados de lado.

O povo brasileiro chegou ao seu limite. Pensar que um país que não consegue manter um hospital público de maneira minimamente funcional consegue ter dinheiro para fazer estádios padrão “FIFA”. E então podemos entender o mínimo da indignação. O mínimo que levou milhares “às ruas”. E da mesma forma podemos entender o que levou ao esgotamento de paciência, como também à violência.

Chamar de “vândalo” quem protestou de maneira mais intensa é uma maneira errônea de categorizar o sujeito. O autor Oscar Vieira diz que:

“A exclusão social e econômica, oriunda de níveis extremos e persistentes de desigualdade, causa a invisibilidade daqueles submetidos à pobreza extrema, a demonização daqueles que desafiam o sistema, e a imunidade dos privilegiados, minando a imparcialidade da lei”*.

Portanto, utilizar o termo “vândalo” nada mais é do que certa forma categorizar sem na verdade pensar o motivo por detrás dos ataques. Confesso que sou contra a violência. Participei dos protestos e senti o verdadeiro medo na pele no momento em que fiquei sozinha no meio da multidão e experimentei pela primeira vez os efeitos do spray de pimenta. Concordo com aquelas que gritam “sem violência”. Não acredito que a destruição seja uma maneira legítima de conquistar algo. Mas não devemos ignorar que aqueles que vão contra o sistema estão indo contra a correnteza. São taxados de “demônios” por não atuarem de maneira conformista.

Afinal, quem agrediu a quem? A polícia ou o manifestante? Nunca saberemos.

O policial está ali para defender o sistema. Os manifestantes estão ali para mudar este sistema. Quem está certo? Quem está errado? Não há certo ou errado nesta história, e sim o que podemos fazer para mudar a nossa realidade.

*Vieira, Oscar Vilhena. A desigualdade e a subversão do Estado de Direito. Disponível em 

http://dx.doi.org/10.1590/S1806-64452007000100003

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Um comentário em “Violência de quem?

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  1. Eu sou contra a violência mas não sou contra o vandalismo nem à destruição e depredação que ela implica, e nem vejo contradição nisso. Quem sofre violência são pessoas, não coisas. Tudo que é destruído um dia foi construído e é passível de ser reconstruído (com exceção, diria, de obras artísticas) então nem vejo razão pra tanto drama pra algumas perdas materiais. O dinheiro público gasto pra repor algumas depredações pra mim é até bem gasto. Mal gasto é político andando de avião e helicóptero pago com dinheiro público. Isso sim é vandalismo, no seu pior sentido.

    Fui aos protestos com todo meu pacifismo e sai sabendo respeitar o vandalismo e a galera mais combativa sem que isso comprometesse minha posição antagônica à violência. Primeiro, por essa distinção entre o que é violência e o que é revolta. Sendo que eu prefiro muito mais uma esplanada destruída por ‘vândalos’ que um policial linxado. Segundo, porque até Gandhi sabia distinguir violência do opressor e a do oprimido, e advogava que a resistência violenta era superior à passividade que permite a continuação de um status quo que é diariamente muito mais violento do que qualquer incidente que, por exemplo, as revoltas recentes no pais mostraram. Se a não-violência engajada é superior a violência, esta por sua vez é superior à passividade e tem bastante legitimidade.

    E assim, sem maniqueísmo nem nada, mas da minha ótica, quem tá pra defender o sistema tá do lado errado. Pode não saber, pode não querer. Mas tá.

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