Sobre o hábito de comer feijão com arroz

Por Ana Matos

Definir em que consistiria a identidade nacional brasileira nunca foi uma tarefa fácil nem para o mais genial dos pensadores nacionais – mesmo levando em considerações as tentativas feitas por pensadores como Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Roberto daMatta, Caio Prado Jr. e tantos outros intelectuais dos trópicos. Entretanto, o brasileiro mediano, imbuído de valores nacionais em algum momento apresentados a ele, tende a associar sua brasilidade a um conjunto de expressões culturais, de gostos, comumente compartilhados por seus compatriotas- o gosto pelo futebol, o gosto pela internacionalmente famosa caipirinha e, não em menor grau, o gosto por pelos pratos culinários que seriam considerados tradicionalmente nacionais e simbolicamente representantes de parte de uma ideia sobre o que seria o Brasil e o seu povo.

A culinária brasileira se associa tanto a comidas encontradas regionalmente pelo país como ao universal feijão-com-arroz de todos os dias, sendo esse último prato exaltado em alguns momentos como o supra-sumo da nutrição e até mesmo da criatividade nacional – afinal, quem mais no mundo teria a capacidade de chegar a uma combinação tão perfeita como essa? Só um povo plástico, adaptável e feliz como o brasileiro conseguiria tal proeza. Há hipoteticamente uma identificação fortíssima com esse prato, quase uma presença universal dele nas mesas da nação, mas esse tipo de pressuposto sobre o que seria ser brasileiro (ter a identificação com determinados pratos fazendo parte disso) pode levar a um caminho perigoso sobre a nossa ideia identidade nacional.

Peguemos o exemplo dos índios. Antes (na primeira fase do período romântico – para uma especificidade maior) cercados por um forte pensamento indigenista e enaltecedor, hoje nem sempre são lembrados ou tem o devido crédito dado por suas contribuições ao que se caracterizaria como jeito brasileiro. Pode-se comer mandioca sem lembrar que o hábito já existia antes mesmo da ideia de Brasil vir ao mundo – a construção da brasilidade acabou dissociando a mandioca do índio e criando um novo tipo de associação, quase como o movimento antropofágico sugerido por Oswald de Andrade em seu famoso manifesto modernista. Alguns recorrem ao absurdo de dizer que o índio ou não é brasileiro por não compartilhar de alguns hábitos nossos ou então que não é mais índio quando não mantém sua cultura cristalizada- em ambos os casos há uma distinção entre uma identidade indígena e uma identidade brasileira.

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Nesses momentos a dita cultura brasileira e a ligação que ela tem com o ideal mais básico de identidade nacional mostra sua faceta cruel, que tem o poder ao mesmo tempo tanto de legitimar e oprimir – pode chegar a validar tanto bons pontos para a vida social como práticas sexistas, racistas, xenófobas, etnocêntricas. Embora à primeira vista não seja tão claro, pensar primeiramente como um hábito chinês, por exemplo, o de comer insetos e quase esquecer que há comunidades tradicionais dentro Brasil que também tem esse costume é uma forma de violência, é negar que a identidade nacional também se estenda a certos grupos minoritários, normalmente excluídos ou menos empoderados no âmbito social. Não se pode duvidar da capacidade de assimilação cultural do povo brasileiro, mas também não se pode esquecer que essa assimilação não é totalmente perfeita e gera silenciamentos que não devem ser ignorados.

Referências

ANDRADE, Oswald de. Manifesto Antropófago. Disponível em: http://www.antropofagia.com.br/manifestos/antropofagico/

LOSADA MOREIRA, Vânia Maria. História, etnia e nação: o índio e a formação nacional sob a ótica de Caio Prado Júnior. Mem. am.,  Ciudad Autónoma de Buenos Aires,  n. 16-1, jun.  2008

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