Sobre sociedade de informação e laços sociais

Por Paola Novaes Ramos

O intelectual brasileiro Gabriel Cohn, conhecido por seus estudos sobre Max Weber, discorre de forma precisa sobre o que vem a ser o mundo moderno e o chamado novo mundo quando reflete sobre o que chama de sociedades pós-modernas, que incluem sociedades de informação (COHN, Gabriel. “Qual é a forma da sociedade da informação?”. In Práticas Midiáticas e Espaço Público. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2001, pp.15-22. Compós, vol 1).

Segundo Cohn, Marx buscava delinear tendências em seu tempo, e Weber curiosamente, embora de forma diferente, também. Enquanto Marx falava da marcha da história principalmente em termos de cenário, sem ter tido tempo para desenvolver muito quais seriam as tendências da condição humana em si, Weber preocupava-se, mesmo que indiretamente, com a dimensão subjetiva e mesmo existencial dos seres humanos a partir do desenvolvimento e da intensificação da racionalidade no mundo moderno (daí surgem expressões como desencantamento do mundo, manto de ferro que resulta da burocratização excessiva, entre outros). Enquanto Marx previa um movimento materialista histórico evolutivo inevitável, Weber, em sua análise probabilística, dizia principalmente que a racionalização envolve um cenário propício não apenas no mundo material mas também na dimensão dos valores, falando mais de tendências do que de movimentos inexoráveis.

Retornando às interpretações de Gabriel Cohn, sua análise discorre sobre o que chama de sociedades pós-nacionais principalmente quando fala de sociedades de informação e qual o espaço da nacionalidade nesse tipo de cenário. Sabemos que em Weber a sociedade nacional é central, e em Marx não. No que diz respeito ao mundo moderno capitalista, os dois autores discorrem sobre e buscam entender a dinâmica e os fundamentos do capitalismo e da sociedade capitalista em geral. Contudo, além de Weber dar mais foco ao Estado do que Marx, segundo Cohn o próprio capitalismo é concebido de forma diferente para os dois: em Marx é uma imposição de formas de relações sociais (análise macro-estrutural da economia, que tem desdobramentos políticos e ideológicos não menos importantes do que o modo de produção), em enquanto em Weber trata-se de uma modalidade de conduta de vida (com referências marcadas e pontuais em sua obra).

Cohn afirma que em Weber há mudança secular de caráter social na Europa Ocidental Moderna, que é a passagem da centralidade do tema da vontade para a conduta marcada pela racionalidade. E quando a racionalidade protagoniza, “estar no mundo” pauta-se principalmente pelo cálculo e pela tentativa de realização de preferências em contextos de escassez por meio de oportunidades dadas, em vez de se buscar realizar no mundo a própria vontade, ou a vontade superior mística, independente dos obstáculos.

Nesse sentido, enquanto a visão de Marx é marcada pela expansão e pelo crescimento, com a abordagem de que o capitalismo é expansão, adição, acumulação e dinâmica externa expansiva, a visão de Weber tem outra perspectiva, quase oposta, pois trata-se de observar a capacidade e a necessidade de contenção (e isso inclui a vontade individual) presente no capitalismo. O cálculo e o controle do futuro geram seres humanos muito mais contido do que expansivos, muito mais centrados em controlar seu cenário imediato e em calcular o futuro do que qualquer outra coisa. Citando Merlau-Ponty, que dizia que indivíduos segregam sentidos com as ações, Cohn afirma que em Weber, os sentidos segregados adquirem rigidez e perdem elasticidade, perdem plasticidade e movimento e tudo o que seria possível à ação humana se torna rígido. Assim, a contrapartida de Weber para Marx não seria  de estreitamento do mundo, e sim sua rigidez.

No que diz respeito às atuais sociedades de informação, pergunto-me – as redes de relacionamento, a interação via internet, a mediação do contato por aparelhos, nos permitem expansão ou limitação? A expansão da mente e dos contatos virtuais é uma expansão da condição humana, se recorremos à ideias de alteridade, distinção, pluralidade e ação em Hannah Arendt (uma autora que se aproxima muito mais de Weber que de Marx na maior parte de sua obra)? Se expandimos nossas mentes e o número de relações virtuais e superficiais por um lado, será que nos enrijecemos no contato direto e nos atomizamos por outro? As relações virtuais viabilizam a socialização ou a substituem? Que novos laços estão sendo construídos (se é que são laços) por meio de relações virtuais, uma vez que não são fonte de contato sensorial, de afeto físico e nem de presença real? A mente estaria substituindo, em vez de conviver, com nossa condição humana sensorial? Isso nos levaria a perder o senso da socialização em relações de amizade, afetivas, familiares e mesmo profissionais?

São perguntas sem resposta mas que levam a refletir sobre o quanto talvez estejamos vivendo mais do que percebemos o desdobramento do que tanto Marx quanto Weber chamavam de mundo moderno, cada um à sua maneira.

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