Peripécias do intercâmbio ou – das reflexões acerca da instrumentalização da democracia racial no Brasil

Há, mais ou menos dois meses, estava eu em casa, ansiosa pela viagem e pelos trabalhos e provas da universidade. Não sabia o que estava me deixando mais nervosa: as mil e uma coisas pendentes a ser entregue, a mala por fazer ou o nervosismo normal que precede qualquer parto/partida. Foram tantas emoções e correrias que acabei adoecendo; uma gripe pra me lembrar que comer é importante e dormir mais ainda. Embarquei pra Lisboa espirrando mais do que sorrindo (embora meu coração estivesse palpitando tão rapidamente que eu nem percebia direito).

Cheguei logo pela manhã e estava um frio! Na imigração, o senhor que me atendeu também tinha estudado Ciência Política, acabei descobrindo isso com os dois minutos de prosa trocados enquanto ele checava os documentos. Feito isso, embarquei pra Munique, onde cortei um dobrado pra conseguir me localizar. As pessoas que eu pedia informação e que supostamente falavam inglês, no meio da conversa começavam a misturar os idiomas e no final eu estava mais perdida que no início da conversa. Finalmente, depois de quase 24 horas viajando, conversando, pedindo informação, ficando perdida e sentido frio, cheguei ao destino final: Budapeste. Na capital húngara peguei um primeiro trem e embarquei pra cidade que trabalharia, Győr  (cidade localizada no noroeste da Hungria, a caminho da Áustria).

Ainda estava um pouco confusa acerca do que faria no trabalho. Sabia que era algo relacionado ao meio ambiente e sustentabilidade, mas não sabia muito bem meu lugar nisso tudo, o que deixava um pouco mais tranquila é que haviam me dito que receberíamos um treinamento no primeiro dia de trabalho (que mais tarde descobri que seria em húngaro!).

Descobri que teria que fazer apresentações sobre o Brasil, minha cultura e identidade, algo pra quebrar estereótipos e relacionado à natureza… – “Brasil, floresta amazônica, essas coisas, you know – (oi?) -, ah, e por favor, com pessoas sorrindo”. Ok. Quebrar estereótipos do Brasil com fotos da Amazônia? Pulando-esquecendo essa parte, montei minha apresentação tentando sempre enfatizar a cultura local e contrapondo aos estereótipos vigentes. Tentei enfatizar (e finalmente aqui você entenderá porque esse post está no blog do PET-POL) assuntos relacionados à diversidade cultural. Eu, que tentei quebrar estereótipos ressaltando a cultura de cada região e, tentando ao máximo, não mostrar o Brasil como país do futebol-carnaval, acabei caindo em um outro tipo de estereótipo que tentamos combater internamente: o mito da democracia racial e a não existência de preconceito. Quando me dei conta, estava dizendo que somos um país que é resultado da mistura, do casamento de diferentes identidades e etnias e que aprendemos a conviver com a diferença e dela fizemos um ambiente saudável e harmonioso pra viver. Estava vendendo a imagem que eu tanto criticava. Tentei, então, entender os motivos que me levaram a fazer tal coisa (quase que naturalemnte).

A primeira delas foi ter me deparado com muitos pessoas que sentem ódio pelx outrx, por elx ser romenx, turcx ou, principalmente, ciganx. Uma das coisas que mais me impressionou ‘politicamente’ por aqui foi o preconceito e, muitas vezes, ódio, que as pessoas tem em relação à ciganxs. A segunda é que me pediram que a mensagem teria que ser passada de uma forma simples, pois, muitas vezes, o público alvo eram crianças.

Como o que mais me inquietava e incomodava era esse sentimento de superioridade, eu tentava, de uma maneira “ficção-mentirinha” colocar na cabeça da meninada que respeitar x outrx é a base de tudo, que elx ter nascido hungarx não significava ser melhor ou pior; que o respeito era o segredo pra viver em paz com o “coleguinhx”, ‘como fazíamos no Brasil’. Minha “boss” também pediu pra que eu não fizesse críticas, pois a apresentação tinha o intuito de passar uma mensagem positiva, de forma que críticas não seriam muito bem-vindas.

Pois bem, o texto dessa semana foi pra contar como, quase que sem perceber, acabei instrumentalizando o mito da democracia racial no Brasil pra tentar passar uma mensagem de respeito pras crianças na Hungria. Tentei, de uma maneira (in)direta, criticar aquilo que mais me incomodou aqui e, com um exemplo muitas vezes falho aqui do Brasil, passar uma mensagem de respeito à diversidade cultural e étnica.

Da petiana que não vê a hora de voltar pra casa,

Inayara Oliveira

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