Foucault e os Movimentos Sociais

Para Foucault, a consciência histórica, principalmente analisada por ele através de sua própria metodologia da Genealogia, é um importante fator para que se nasça a noção de pertencimento histórico. As estruturas do conhecimento existem para serem “escavadas”, trazendo assim uma desnaturalização do conhecimento. Portanto, ao relacionarmos a origem dos Movimentos Sociais com a crítica social que Foucault traz, devemos ter em mente que os movimentos são “redes de interações informais entre uma pluralidade de indivíduos, grupos ou associações, envolvidos em um conflito político ou cultural, na base de uma identidade coletiva” (Diani, 1992, 40:13). Portanto, o surgimento do que seria a consciência individual está relacionado com o crescente desenvolver dos movimentos sociais. Essa mudança na subjetividade, sobre a percepção de Foucault, está relacionada com três fatores: o corpo, o poder e o conhecimento.

Segundo Alonso, “Os movimentos sociais seriam, então, uma forma histórica de expressão de reivindicações, que não existiu sempre, nem em toda a parte.” (Alonso, 2009: 57). Existiria, então, uma alteração do repertório da história através do tempo. Foucault entra em sintonia com essa ideia, principalmente por dedicar sua pesquisa em compreender a realidade atual a partir de fatos históricos. Para ele, o mais minucioso detalhe que ocorreu no passado pode ser o fator determinante para a compreensão do presente.  Ao final do primeiro capítulo de Vigiar e Punir ele diz que seu interesse não é “fazer a história do passado nos termos do presente” e sim “fazer a história do presente” (Foucault, 1989, p. 29).

Foucault considera importante olhar para o corpo ao invés dos indivíduos, pois ele considera que o poder é utilizado sobre o corpo, o material é controlado pelas instituições. Para o autor, o controle está cada vez mais relacionado com a “alma”. Daí ocorrendo o deslocamento dos conflitos para dois tópicos: o corpo (que então se tornou objeto científico) e a crescente intensificação do componente religioso. Portanto, concordaria com a ideia de Alonso sobre ação coletiva:

“Os agentes, em meio ao processo de luta, escolheriam dentre as maneiras convencionalizadas de interação presentes no repertório aquelas mais adequadas à expressão de seus propósitos. […] Isto é, o repertório de ação coletiva não é peculiar a um grupo, mas a uma estrutura de conflito.” (Alonso, 2009: 58)

Melluci aponta também algo interessante para a análise de Foucault – o surgimento de novas zonas de conflito, focados em fatores relacionados com o corpo.

“se configuraria um novo padrão de dominação, baseado na produção e controle de informação e na intervenção nas relações sociais, e exercido por meio da ciência e da tecnocracia. A distinção entre as esferas pública e privada teria se extinguido, transformando as relações interpessoais (consumo, lazer, relação com a natureza), sexuais e a identidade biológica (nascimento, morte, doença, envelhecimento) em novas zonas de conflito.” (Alonso, 2009: 63)

Para Foucault, a punição concentra-se na alma, e podemos destacar como principais alterações: a substituição de objetos (de punição) e a alteração da culpabilidade, onde ocorre um estranho complexo científico-jurídico (a sutil relação entre a loucura e culpa) (Foucault, 1989, p.21). Portanto, Foucault concordaria que quanto maior fosse o processo de individualização, de maior controle sobre o corpo, mais intensificados tornar-se-iam os movimentos sociais.

Bibliografia

FOUCAULT, Michel. “O Corpo dos Condenados” (Capitulo 1 da primeira parte “Súplicio”), in Vigiar e Punir. Petrópolis: Vozes, 1989.

ALONSO, Angela. “As teorias dos movimentos sociais: um balanço do debate”. Lua Nova, São Paulo, 2009. 76: 49-86.

DIANI, Marco. 1992 “The Concept of Social Movements” in Social Movements, 40:13

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