Sobre o cansaço, uma opinião boba e a greve

Por Vinicius Januzzi

Todos nós temos alguns posicionamentos-chave que não saem de nossas cabeças. Quando uma situação chega aos nossos ouvidos, são ocasionais e até raros os momentos em que reagimos com completa surpresa, sem que algo passado nos venha à mente. Preconceitos, opiniões enraizadas, dilemas de toda uma vida, conversas e outros diálogos aparecem à nossa mente e aos nossos interlocutores em qualquer coisa cotidianos que vivemos.

E por que falo isso? Falo devido às últimas greves que enfrentei na UnB: 1/2010 e 1/2012. Ambas tiveram motivos diferentes e agentes políticos diversos, mas a partir delas e do que posteriormente ocorreu é que faço algumas reflexões. A primeira delas, que sintetiza o meu argumento, é a seguinte: pensemos muito bem antes de entrar em greves na universidade e procuremos, o mais rápido possível, sair delas.

Greves, é claro, envolvem negociações políticas intensas, reuniões constantes e conflitos cotidianos. Envolvem os pré-vestibulandos, estudantes, servidores, funcionários terceirizados e professores com muitos ou poucos anos de carreira. Afetam salários, férias e são fruto de toda uma estrutura sócio-econômica dos países em que são feitas.

Sempre que se ouve a palavra greve, muitas são as reações possíveis e muitas delas fazem parte do conjunto de posicionamentos-chave com os quais baseamos boa parte de nossas opiniões políticas. Tanto os movimentos iniciados no 1/2010 e no 1/2012 tiveram seus motivos justos e conseguiram resultados positivos, ainda que de forma parcial. Em ambas as situações, minha primeira opinião acerca delas era básica: apóio e tentarei ajudar na causa.

cansaço - borbs

Até aí, tudo bem. Entretanto, diante de um final de semestre caótico, reviso meu sentimento inicial sobre as greves. Ao meu ver, o máximo possível de negociação que não envolva uma parada total e /ou parcial da universidade deve ser realizado. Muitas conjunturas podem não permitir isso, é claro, e ignorar isso seria, inclusive, sinônimo de irresponsabilidade política.

Passados alguns meses do fim da última greve e próximo ao recesso que bate à porta, tendo a ver que dificilmente são comparáveis semestres letivos em contexto grevista e em contextos “normais”. E não falo pensando apenas na sala de aula. Em termos de mobilização política, produção acadêmica e de intensidade de projetos extra-classe, greves, em minha enviesada perspectiva, tendem a prejudicá-los como um todo.

Esse argumento, de início, vai ao encontro da histórica luta grevista por melhores condições de trabalho e de oportunidades de carreira. No fim das contas, imagino que não. A depender do caso, a negociação e ações de pequenos períodos de parada das funções universitárias pode ser uma alternativa, ainda que isso não seja o foco do que abordo aqui. O que perpassa o que estou dizendo é reflexo de um estudante cansado e que não vê mais tanto sentido nos períodos grevistas – na universidade, vale dizer.

É bem possível que isso seja tão somente uma visão individual e que muitos de meus amigos e das pessoas com as quais não tenho contato na vida possam não pensar isso. Pode ser que tenha me esgotado menos pela greve que por outros motivos. Olhando o dia a dia das pessoas que conheço, dificilmente consideraria essas possibilidades como verdadeiras. Ao meu lado, convivo com pessoas cansadas e que esperam o semestre acabar, como poucas vezes esperaram alguma coisa na vida.

Meu posicionamento-chave mudou. Até que se prove o contrário, estou esperando o recesso.

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