Quanto vale ser um milionário?

Essa pergunta-título sem um contexto anterior provavelmente não faz tanto sentido. Entrando em contato com manuais básicos sobre economia como o livro do Gregory Mankiw, há quem dirá que certos recursos não são abundantes o bastante para todos usufruírem, ou seja, existe uma oferta e uma demanda limitada e bens escassos ganharão algum tipo de valor quando se pretende efetuar trocas – não existe ninguém autossustentável, sendo até mais eficiente do ponto de vista econômico quando cada um se especializa naquilo que consegue produzir com o menor custo de oportunidade comparado. Para que as negociações ocorram de forma menos problemática, define-se uma moeda de troca amplamente aceita e esse novo sistema que não depende mais do escambo.A princípio, tudo funciona perfeitamente bem: o dinheiro tem seu papel, o circuito de comercialização possivelmente se encontrará em funcionamento e quanto mais recursos monetários você tiver, melhor, embora a reflexão sobre esse assunto não deva parar nesse ponto

imagem ana.

Tentando observar as relações mais diretas de valor, o dinheiro não pareceria valer muito por si só a princípio. Não se usam mais moedas de puro metal precioso ou mesmo as cédulas tem seu valor lastreado em ouro para que a própria base material, a matéria prima utilizada, explique a importância da moeda. E, embora o nível de riqueza de alguém normalmente seja medido pela quantia contida em sua conta bancária ou pelos bens que poderiam ser convertidos em moeda, a simples contabilidade dos recursos financeiros, por sua vez, também não é suficiente na explicação da valorização. A importância que uma fortuna adquire extravasa a mera quantificação, não pode ser completamente entendida a menos que se investiguem outras esferas que também compõe a relação que as pessoas terão com o dinheiro; o cálculo do valor que esse recurso tem só estará mais completo quando as relações sociais construídas sobre ele também entram no raciocínio.

Entre as relações que as pessoas possuirão com os recursos financeiros, a que levanta a potencialidade presente nesses mesmos recursos seria uma das mais importantes. Dificilmente se pensa no dinheiro isoladamente, há sempre uma associação ente ele e ideias de como investi-lo, gastá-lo. Aqueles que possuem uma quantidade razoavelmente grande de capital monetário – o hipotético milionário do título e sua fortuna se encaixariam nesse caso- terão um patrimônio que tem valor justamente por poder ser alocado para diversos fins. Parte importante de ter dinheiro é sempre pensar no futuro do mesmo, buscar possibilidades de aplicação e, para sociedade capitalista, haveria uma espécie de escala que diria o quão bom ou ruim foi o gasto do dinheiro em determinados casos, nem todo tipo de aplicação tem o mesmo valor.

Aparentemente o mais correto seria sempre investir o dinheiro em algo que trouxesse rentabilidade, multiplicasse a quantidade originalmente investida. A ideia capitalista de lucro está presente também na relação que muitos têm com a moeda e explica em parte o porquê um milionário é admirado, dá o motivo para que certas pessoas determinem como objetivo de vida simplesmente conseguir uma quantia considerável de capital. Entretanto, perder-se em uma mentalidade de mera e simples multiplicação do dinheiro implica em uma ação paradoxal: ao mesmo tempo em que se ganha um recurso que pode ter várias aplicações, aparentemente se esquece desse fato e todo outro tipo de fim, que não fosse lucrativo, que se poderia dar ao dinheiro entra eternamente em um segundo plano, multiplicar seria mais importante que qualquer outra coisa e toda liberdade que esse recurso poderia proporcionar é perdida.

Por fim, uma das últimas questões sobre o quanto vale ser um milionário, depois de tentar rapidamente analisar o quanto como se dá valor ao dinheiro e até mesmo como as pessoas encaram esse recurso, se relaciona mais uma vez as possibilidades a moeda traz. Não há problemas, em um nível superficial, em aplicá-lo para conseguir lucros, mas outros tipos de uso deveriam ganhar mais importância, um ciclo de investimento para futuramente gerar ainda mais investimento deveria ser quebrado. Outras possibilidades positivas de gastos, a exemplo das que levam ao desenvolvimento pessoal, poderiam entrar na hipotética conta de define o valor de ser rico e, como sempre haverá uma esfera subjetiva quando se fala no valor que se dá as escolhas, não cabe a ninguém ter uma resposta final sobre a importância de ter dinheiro, cada um por fim construirá uma resposta própria para a pergunta feita no início.

Referências.

MANKIW, N.Gregory. Introdução à economia. São Paulo: Editora Cengage Learning, 5ª edição, 2009.

Ana Matos é petiana e esse é seu primeiro texto para o blog.

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  1. Quando a riqueza traz maldição

    O que fez com que aos poucos grandes ídolos escrevessem dia-a-dia o script do fim de suas vidas muito antes do que se poderia esperar do dia de suas repentinas mas nunca surpreendentes mortes: Michael Jackson, Whitney Houston, Amy Winehouse, Elvis Presley, Merilyn Monroe, Princess Diana, Howard Hughes, James Dean, Renato Russo, Elis Regina, ou a decadência fulminante de Mike Tyson, Luis Estevão, Joaquim Roriz, Xuxa, Renan Calheiros, Macaulay Culkin, Fifty Cents, Renato Rocha.

    Há pessoas que não estão preparadas para serem ricas. Outras não estão preparadas para as adversidades na vida. O que existe em comum entre elas?

    A riqueza pode matar aquele que não foi preparado para viver nela: começa com uma depressão, passa à fase de culpa por ser tão rico, depois vem o medo de perder tudo, aí vem o desespero, por fim a angústia existencial, e acaba sem saída.

    Mas, também existem aqueles que não conseguem enfrentar as adversidades na vida, quando vêem frustradas expectativas e desejos não concretizados, apesar de lutarem para atingirem os seus objetivos.

    Segundo Jean Jacques Rousseau, reside na comparação entre seres humanos a causa única de toda inveja do ser humano.

    Para Rousseau o único pecado da humanidade é o da inveja.

    Dela derivam todos os males sociais.

    Quando alguém se compara a outra pessoa, deseja ver-se superior, então começa um processo para desqualificar aquela a quem percebe a superioridade, mas para tão somente julga-lo inferior por não ter legitimamente conquistado aquele status indevido.

    Da comparação surge somente uma conclusão: eu sou superior ao outro, apesar das evidências em contrário.

    Esta sublimação da inferioridade patente se transforma em inveja latente, então toda uma estratégia dissimuladora da inveja começa a se desenhar através de uma estratégia de ataques constantes à posição social e econômica do outro que é o objeto de comparação.

    No modelo explicativo hipotético-dedutivo para o surgimento da sociedade humana, segundo o filósofo Jean Jacques Rousseau, o período pressocietário antes da fundação da civilização foi o mais feliz da espécie humana onde o bom-selvagem jazia em seu mundo isolado e solitário, feliz e livre da convivência e da concorrência social, o seu inferno hoje.

    Mas, o crescimento demográfico modificou este estado natural, obrigando o ser humano a compartilhar seu espaço, suas expectativas, sua privacidade com o seu semelhante. Este foi o seu inferno particular.

    Obrigado que foi à convivência coletiva foi constrangido a construir e a submeter-se ao acordo coletivo do chamado contrato social onde todos se toleravam e ao mesmo tempo todos competindo entre si, se odiavam, compelidos pela competição pela sobrevivência frente aos fatores limitantes do meio ambiente e de recursos mais escassos na natureza por hora disponíveis.

    Assim, cada cidadão se torna um inimigo cordial de seu semelhante, sob um governo que faça cumprir a vontade geral visando o bem comum na sociedade.

    Quando o primeiro ser humano primitivo resolveu pela primeira vez demarcar o seu território, passando concomitantemente de coletor e caçador a ser um acumulador de estoques de alimentos e objetos, ele mudou para sempre a história da civilização: quando ele olhando aquele estoque de alimentos e disse “é meu” começou a era humana da propriedade privada, iniciou-se a era dos bens privados. Inaugurou o ser humano, para Rousseau, a era que deu a origem de todos os males da humanidade: a propriedade privada, a inveja, a cobiça, a luta pela guarda e posse dos bens, a riqueza, a pobreza e todas as guerras.

    Saber gerir apropriadamente o patrimônio é uma habilidade rara entre os habitantes deste planeta. De modo geral, as pessoas são escravas do dinheiro. Poucas são aquelas que conseguem governar com sabedoria a fortuna, grande ou pequena, que se encontra sob seu encargo. A maioria, quando tem alguma riqueza, ou a esbanja num consumismo descomedido, ou a acumula cada vez mais no seu pão-durismo. Nesse caso, “o dinheiro é como a água do mar; quanto mais uma pessoa bebe, mais sede sente”.

    A prosperidade, o prestígio e o poder são mais ameaçadores do que a falta de posse, o desprestígio e a fraqueza. A soberba da riqueza é muito mais perigosa do que o colapso da pobreza. Isso não significa que a riqueza seja incompatível com a vida autêntica, mas nela corre-se mais risco de auto-suficiência do que nos limites da necessidade. A autonomia humana é o extermínio da confiança nos outros. Por isso, um sujeito independente é alguém insuportável, ingovernável.

    O dinheiro não é uma ferramenta passiva. Ele é uma coisa que ganha poder de um personagem e obtém domínio sobre as pessoas. No tronco do dinheiro existe um componente emocional que o eleva à condição de dominador.

    Quando não se tem um plano para uma fortuna, o dinheiro vai para coisas inúteis. O que faltou a Michael Jackson foi um objetivo para a sua riqueza. Poderia ter criado uma faculdade para artistas pobres; ao invés de criar um palácio para ficar libando os jovens. Poderia construir um império de distribuição de produtos culturais intangíveis, como shows, vídeos, internet musical. Mas, na falta de objetivos e de planos gastou o dinheiro em bobagens e taras, e outras sinecuras, como virou uma espécie de folclore entre os magnatas exóticos e ociosos pelo mundo fazer coisas extravagantes e exóticas.

    O dinheiro não tem o condão de mudar as expectativas e o comportamento humanos:

    a) uma pessoa pobre triste provavelmente continuará a ser uma pessoa rica, porém triste;

    b) uma pessoa pobre introvertida continuará a ser uma pessoa rica introvertida;

    c) uma pessoa alegre pobre provavelmente continuará a ser uma pessoa rica alegre;

    d) uma pessoa pobre intelectualizada continuará a ser uma pessoa rica intelectualizada;

    e) uma pessoa pobre e superficial, tosca, fútil, provavelmente continuará a ser uma pessoa rica superficial, tosca e fútil;

    f) uma pessoa pobre soberba e arrogante provavelmente continuará a ser uma pessoa rica soberba arrogante;

    g) uma pessoa pobre egoísta provavelmente continuará a ser uma pessoa rica e egoísta;

    h) uma pessoa pobre generosa, paciente provavelmente continuará a ser uma pessoa rica generosa e paciente;

    i) uma pessoa pobre honesta provavelmente continuará a ser uma pessoa rica honesta;

    j) uma pessoa pobre desonesta continuará a ser uma pessoa rica desonesta;

    k) uma pessoa pobre impaciente, agressiva provavelmente continuará a ser uma pessoa rica impaciente e agressiva;

    l) uma pessoa pobre indecisa provavelmente continuará a ser uma pessoa rica indecisa;

    m) uma pessoa pobre burra provavelmente continuará a ser uma pessoa rica burra;

    n) uma pessoa pobre de mau gosto provavelmente continuará a ser uma pessoa rica de mau gosto;

    o) uma pessoa pobre exigente provavelmente continuará a ser uma pessoa rica exigente;

    p) uma pessoa pobre mal-educada provavelmente continuará a ser uma pessoa rica mal-educada;

    q) uma pessoa pobre caridosa provavelmente continuará a ser uma pessoa rica caridosa.

    Porque a riqueza não tem o poder de superar as limitações psicológicas que nenhuma terapia ou tratamento psicológico conseguiria a muito custo, sem consumir longos anos de condicionamento por que o dinheiro não teria este poder.

    Atribuir à riqueza a mudança de comportamento das pessoas não passa de desculpa para o efeito da maior visibilidade que os ricos gozam na sociedade, tornando-os alvo predileto da cobiça, da inveja e da censura mais do que qualquer outra situação de status econômico, social, político, intelectual trazido pela situação de celebridade associada à riqueza.

    Os ricos possuem tantos defeitos e qualidades quanto qualquer ser humano, a diferença é que a riqueza pode por em destaque aquilo que os pobres também fazem no anonimato da pobreza que não lhes garante a ribalta ou um palco onde as suas qualidades ou defeitos são exponenciamente reverberados e publicizados apenas porque eles são os ícones sociais das pessoas que almejam a sua posição na sociedade em virtude da riqueza, por isso se interessam doentiamente por tudo o que eles fazem e eles o fazem porque na maioria das vezes gozam deste palco para se destacarem e seduzirem multidões a cada passo que dão.

    Seria reduzir a condição humana meramente à questão da posse ou não de riqueza. Isto seria um reducionismo que anularia qualquer outra motivação para os atos humanos.

    Para começar existem limites físicos para se gozar da riqueza:

    a) existe limite para a ingestão de alimentos e líquidos no corpo humano, cujo excesso pode provocar efeitos contrários às expectativas de satisfação gastronômica;

    b) existem limites à posse de bens, cujo excesso pode provocar o impedimento da fruição dos mesmos bens adquiridos em quantidades tais que não podem ser desfrutados;

    imagine quem tivesse 365 imóveis e o mesmo número de automóveis: como seria possível desfrutar de cada um deles? Seria um esforço extenuante que ao final anularia o prazer de adquiri-los; assim se sucede com outros bens materiais pessoais como bolsas, celulares, ipad, motos, roupas, relógios, etc.

    Isso obrigaria o rico a ser seletivo para adquirir bens que possam realmente trazer satisfação, e para trazer a esperada satisfação é preciso ter a possibilidade de usá-los, e isto somente é possível se tiver acesso real aos bens contáveis adquiridos em quantidades administráveis, ou seja, em quantidades modestas: necessárias e suficientes.

    A aquisição da primeira Ferrari ou Mercedes tem muito maior importância subjetiva e valor do que a aquisição da vigésima Ferrari ou Mercedes, que de tão comuns passam a ter valor relativo menor, isto nenhum rico pode impedir que aconteça, então, a moderação na posse dos bens não tem nada a ver com a capacidade de aquisição do bem e sim com a sua escassez; tem mais a ver com a qualidade, e não com a sua abundância.

    O treinamento social para a riqueza começa no berço; pessoas que nasceram em um lar abastado financeiramente não entram em pânico diante da súbita abundância.

    O que então faz uma pessoa rica infeliz?

    O grande vazio existencial que nem o dinheiro pode preencher ou repor.

    a) Desejos facilmente atendidos e satisfeitos;

    b) Desejos nunca totalmente satisfeitos ou nunca atendidos;

    c) Finalística: o sentido de finalidade existencial e material.

    O enorme vazio deixado no interior do sentimento e das expectativas do ser humano ocidental que colocou na saciedade dos desejos a razão de ser da existência feliz.

    A dor e o desconforto da abstinência assim com a saciedade dos desejos acabam deixando um enorme vazio. Este paradoxo da eterna insatisfação quer seja da fome, sede, solidão, quietude, paz, os deixam desnorteados e sem estímulos.

    Então a falta de estímulos e de desafios deixa os nossos sentidos inativo, trazendo uma sensação de incompletude física, psicológica, fisiológica, espiritual, sentimental, sexual, material e intelectual.

    Nós, seres humanos ocidentais abominamos a matéria mais abundante do universo que é o vazio, o espaço, o vácuo, o nada.

    Então somos compelidos a sempre preenchermos os espaços vazios do: corpo, da alma, do espírito, da ciência, do conhecimento, das causas, da razão, do estômago, dos desejos, dos instintos, do sexo, da religião, de afeto, enfim tudo, o futuro fica como um repositório a ser preenchido das realizações saciadas; não admitimos que a fome, a sede nunca serão saciadas de uma vez por todas, será que sempre repetiremos o ritual insano de tentarmos apagar este fogo que sempre retorna intenso e inelutável da fome e da sede!

    A busca do fim das coisas, a busca da finalidade, Finalística transcendental, a busca da razão, do motivo, das causas últimas de tudo, tem nos atormentado como uma obrigação intelectual, espiritual, afetiva, emocional e filosofal. Tudo deve (deveria) ter um começo e deverá (deveria) chegar a um fim.

    Assim tudo ficaria completo em seus devidos lugares, em nome da razão.

    A idéia do eterno, do acaso nos incomoda, instiga, perturba e nos inquieta.

    A idéia de falta de finalidade, do vazio, do nada, do infinito não faz parte da lógica humana ocidental.

    Nascemos para quê? Viemos de onde? Precisamos calar os vazios e responder a essas perguntas e obtermos todas as causas e razões, os motivos e as motivações para todos os atos e fenômenos que acontecem. Precisamos estabelecer uma cadeia causal-temporal para todos os eventos de acordo com as expectativas partindo do anterior para o posterior, do passado para o presente e do presente para o futuro.

    Acreditamos que a riqueza vai nos saciar os desejos todos, mas quando isto acontece, surgem novos desejos e então vem a mãe de todos os desejos que é o desejo de ter um desejo não imaginado, e não saciado, novos desejos a satisfazer.

    A falta de um novo desejo cria um vácuo impossível de ser preenchido por que o novo desejo não foi sequer identificado, materializado, formulado, concebido, é um não sei o que eu queria mas não descobri ainda o que é…

    O resultado disto é: apatia, loucura, vícios, suicídio anômico, indiferença, agressividade, perda dos valores sociais, desorientação, paixão irrefreada, ódio, enfim, todos os sentimentos extremos, inversão de formas de busca de prazer, obsessão pelas novidades e por novos caminhos, novas concepções da realidade.

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