Da mudança

 “Descemos e não descemos para dentro dos mesmos rios; somos e não somos”

Tudo muda repentinamente. Começamos um ano sem nunca saber como o terminaremos. Há exatos doze meses, eu não fazia ideia de que estaria a escrever o presente texto. Eu não fazia ideia das pessoas que eu viria a conhecer e das amizades que eu construiria.

Não fazia ideia do quanto me afastaria de alguns, nem do quanto me apegaria a outros. Eu não tinha conhecimento das grandes catástrofes mundiais que ocorreriam. Não sabia qual seria a cotação do dólar em Dezembro. Não sabia que aquele artista famoso iria falecer. Não sabia de nada e isso me leva à pergunta: o que terá acontecido daqui a exatos doze meses?

Não posso afirmar muita coisa com certeza. Não tenho conhecimento do futuro. Heráclito de Éfeso, grande filósofo da escola Jônica, já anunciava: tudo flui e o mundo é kinesis, é transformação. Assim como a chama de uma vela não é estática ou estável (é, antes, a transformação de cera para fogo e então para fumaça), o mundo não é estático; ele flui.

Não, não posso afirmar com certeza muita coisa. Se o fogo é transformação, a permanência é ilusão e a certeza é a mudança. Não se entra no mesmo rio duas vezes, como bem diria Heráclito. As águas que nos tocam nunca são as mesmas e nós, tampouco.

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Assim, querer permanecer é ser escravo de uma ilusão. Aliás, recentemente, tenho pensado bastante acerca da escravidão [e devo isso a dois filmes lançados nos últimos tempos: Django Livre, de Quentin Tarantino e Lincoln, de Steven Spielberg]. Quando olhamos para trás, nos arrependemos de termos praticado e defendido práticas que privavam seres humanos de sua liberdade. A questão é que não sei até que ponto conseguimos superar essas práticas. As pessoas de hoje não são escravas de seus trabalhos? Não vivem escravas de suas expectativas? As pessoas de hoje não buscam a todo custo evitar mudanças drásticas em suas vidas ou evitar o futuro e seus próprios temores?

A mudança é uma constante e, se hoje as pessoas tentam esconder suas contradições e pensamentos com medo do confronto, Heráclito apresenta um outro argumento. Para ele, não só a realidade está em constante transformação, mas também está em contraste e conflito e são as tensões e os opostos que geram harmonia e justiça. O querer permanecer, dessa forma, é uma ilusão caótica. Por que, então, tememos a mudança e nos deixamos escravizar?

No futuro, quando eu voltar a ler esse texto, serei alguém com outras experiências, impactada por diversas coisas a mim desconhecidas no presente, cercada de pessoas antigas, mas também daquelas ainda estranhas a mim. Nossa vida, muitas vezes, não é construída pelo que se faz constante. Antes, é o inesperado que nos molda. E nos molda para, no futuro, sermos remoldados, sermos modificados mais uma vez. Afinal, a constante que sempre se apresentará a nós é a mudança.

Kimberly Anastacio é petiana.

Referência bibliográficas

BARKER, Ernest. Teoria Política Grega, Ed. UnB, 1983, cap.1

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Um comentário em “Da mudança

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  1. Gostei! A dialética recebeu fortes críticas dos metafísicos e dos pitagóricos, principalmente, mas me parece a que é a que melhor consegue lidar com a realidade ontológica ou com a realidade epistemológica (depende do gosto do freguês).

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