Ir e vir, ou vice-versa

“Uso proibido para maiores de 12 anos!” Essa era a frase que eu costumava ler antes de entrar nos parquinhos infantis quando era um pouco mais novo. Não sei se por algum motivo especial ou simplesmente por algum acaso (in)oportuno, sempre a lia. Não reparava muito no significado dela na época. Hoje, vejo que ela até pode fazer muito sentido.

A expressão de aviso quase nunca vinha sozinha; alguns alertas a acompanhavam. Prestes a sumir pelas condições de tempo, letras e palavras pediam que os mais velhos não utilizassem os brinquedos também prestes a se deteriorar. O funcionamento deles dependia disso. “Brinquedos inapropriados para adultos” era o que vinha em seguinte.

A ordem que estava implícita nas expressões era simples e direta: “Somente crianças!” É claro que nunca era seguida. Era comum ver barbados, fumantes e engravatados por ali, sedentos para que alguma criança cedesse o espaço para que pudessem usá-lo um pouco. Vez ou outra, aliás, viam-se à noite essas mesmas pessoas acompanhadas de alguma bebida e de outros bem parecidos com eles. Não pareciam muito inclinados a somente “brincar” naqueles espaços sujos e velhos.

Vendo hoje, me parece que quem pela primeira vez usou essas frases não quis se referir à deterioração dos brinquedos. Essa pessoa quis, na realidade, transmitir a mensagem de que se você tivesse passado dos 12 anos, sua mente já deveria se conduzir para outros propósitos. “Você tem que se tornar adulto!”. “Você precisa ser adulto!”. Não se trata simplesmente de uma questão de que os brinquedos podem quebrar com mais facilidade. Isso é inegável, por sinal. Mas não é essa a mensagem principal. “Cresça!” Com a ordem vinda dos parquinhos, a fantasia já não pode existir mais. E se houver algum indício dela, que se trate de arrumar um jeito para abafá-la.

Mas esse é o lado dos adultos. E talvez do meu ponto de vista, de alguém que queira voltar a ter as mesmas sensações que tinha quando criança ao usar os brinquedos dos parquinhos e, em especial, de poder ir e vir sem nenhum compromisso no ir e vir dos balanços. Esse é o lado das crianças, aquele que é permitido e desejável que elas mantenham. E por que não se lembrar dele?

Lembro de um brinquedo velho, em uma praia de água doce. Não corria água limpa ali, nem pouco lixo havia próximo ao rio que eu avistava à frente. Mas o parquinho não era muito próximo à água. Era possível vê-la no que ela tinha de boa. Ver o horizonte sem ver o quanto de “real” ele tinha.

Dentro do parquinho, cercado do mundo dos adultos, havia um balanço. Cabiam, pelo que me lembro, umas cinco crianças ali. Nunca estava lotado e mesmo que estivesse não era o que parecia. Cada balançar me levava a uma viagem única. Minha e de mais ninguém. Podia haver milhões de pessoas ao meu lado; para mim, não havia uma única pessoa a mais que eu, eu mesmo e todo o mundo que se criava ao meu redor.

O impulso inicial era o mais importante. Enquanto se puxava a corrente para trás, se fazia um movimento com o corpo para frente. Não era preciso usar os pés contra o solo, mas quando isso era feito, as velocidades se aproximavam em pouco tempo das da luz. Com o balanço já um pouco acelerado, não havia mais nada que pudesse segurá-lo, e isso também não era necessário. O ânimo só aumentava a cada centímetro que me distanciava do chão. Não importava mais onde estava e se estava em um lugar que outros poderiam ver como desagradável.

Do alto do balanço, sentia o ar percorrer meu corpo como em nenhum outro lugar poderia sentir. Até mesmo o cheiro podia ser dos melhores. Podia sentir o aroma das mangueiras e das jabuticabeiras de um modo inigualável, ainda que para os adultos e mesmo para mim a água um pouco mais à frente estivesse nada agradável.

Quando eu chegava ao topo, podia ver todo um mundo à minha frente. Campos esverdeados, o céu sem fim, o pôr-do-sol na sua forma mais plena. Podia não ser isso. Podia ser tão-somente imaginação, coisas da minha cabeça. Meus amigos com mais de 12 anos podiam não pensar a mesma coisa e meus pais poderiam me achar um bobo se eu narrasse isso para eles naquele tempo – e imagine agora! Talvez até mesmo esse tempo não tenha existido dessa forma. Talvez, e quantos talvez pode haver nisso tudo, essas são coisas que eu criei em minha mente para fortalecer uma boa imagem de minha infância.

Não terá sido uma tentativa de colorir momentos lamentáveis ou que não tiveram nada de especial?  Uma ilusão em criar coisas boas em instantes, idas e vindas que foram somente banais? Não sei o que posso dizer sobre isso. Sei que, ainda que o motivo seja desconhecido, eu vivi essas sensações. Ainda que estejam elas somente agora na minha mente, eu as vivi. Talvez seja porque na infância não me preocupava muitos com as coisas de adultos. Talvez porque ainda me era permitido fantasiar. Talvez porque eu queira ainda hoje ir a balanços e sentir a mesma sensação de quando eu estava prestes a saltar dele e poder voar para o infinito, sem nenhum compromisso e com toda a liberdade. Ou talvez, é claro, porque as placas não tinham muito sentido e proibiam por proibir, se esquecendo os que as fazem de que até mesmo os adultos podem brincar.

 

Vinicius Januzzi é petiano e vive pensando em encaixar talvez em seus textos.

 

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