Sobre Bosch, Maquiavel, Hobbes e o Mal

A obra de Hyeronimus Bosch (1450-1516), O Olho de Deus (1480), ilustra a idéia cristã de que há um Deus onipotente, onisciente e onipresente capaz de enxergar os sentimentos mais íntimos e atos menos públicos de cada ser humano.

Esta obra retrata a forma como o Vaticano incentivou a relação particular entre indivíduos e Deus, enclausurando a humanidade de cada pessoa em uma conexão abstrata com o Divino, em vez de incentivar que partilhemos angústias ou defeitos em redes de solidariedade (como acontecia no cristianismo primitivo, que vivenciava as confissões de “pecados” em grupos de iguais solidários).

No modelo do Vaticano, a humanidade de cada um, em suas fraquezas e defeitos, pode não ser acessível às demais pessoas, mas a Deus é. Apenas Deus, secretamente, é capaz de ver tudo: o que está dentro e o que está fora de nós. Na obra de Bosch, o Deus-Cristo está no centro da imagem, dentro da pupila de um olho, navegando acima de uma ameaça em latim: Cave, Cave, Deus Videt (“Cuidado, Cuidado, Deus Tudo Vê”).

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Os sete pecados capitais mais conhecidos (ira, orgulho, inveja, avareza, gula, luxúria, preguiça) foram estipulados como referência pelo Papa Gregório Magno (540-604 a.D.), mas, nesta obra, Bosch retrata ainda outros quatro pecados inspirados em livros espirituais medievais apócrifos*. Os “quatro novíssimos pecados do homem” foram retratados nas laterais do tampo de mesa, intitulados também como “as quatro últimas etapas da vida humana”. São eles: “Leito de Morte”, “Juízo Final”, “Paraíso” e “Inferno”, ou seja, cenários de fim de vida/pós-morte, encadeados em etapas sucessivas. Esses quatro temas nas laterais de O Olho de Deus são alguns dos favoritos de Bosch, e aparecem em outras obras de sua autoria.

Como a idéia predominante do quadro é a onisciência, não podemos deixar de observar a relevância política do tema. A onisciência, de Deus ou do estado, sempre é um eficaz instrumento político de coerção. Na esfera espiritual, os maus sentimentos são alvo de controle religioso, mas, na esfera pública, principalmente, os maus atos são o alvo de controle do estado. Essa capacidade de conter comportamentos “desviantes” ou destrutivos, forjada no mundo medieval e empreendida pelo Vaticano pelo medo de um Deus onisciente e punitivo, posteriormente, com outros instrumentos e justificativas laicas, passa para as mãos de estados soberanos absolutos.

A transferência do medo de Deus para o medo do estado pode ser observada em vários teóricos políticos, mas, talvez, principalmente na heterodoxa teoria de estado de Thomas Hobbes. Não apenas em Hobbes, porém, referências de um mundo interno individual cheio de pecados e sentimentos destrutivos são visíveis. Duas passagens de livros politicamente relevantes, a Bíblia e O Príncipe/O Principado de Maquiavel: “O homem vê a face, mas o senhor vê o coração.” (Samuel, Livro I, 16:7) e “Todos vêem o que pareces, mas poucos sentem o que és.” (Nicolau Maquiavel, O Príncipe, cap. 18) também retratam essa perspectiva.

Bosch pintava o macabro e sombrio, e por isso foi maldito em sua época, assim como aconteceu com Maquiavel por tematizar as crueldades que giram ao redor do poder. Maquiavel não necessariamente advogava o mal gratuito, mas apontava que o mal existe e se torna exponencialmente mais intenso na esfera política. Hobbes também é mais maldito do que admirado pela filosofia da moral em função de ideias consideradas estranhas, excêntricas e heréticas. E por tematizar o que há de pior nas paixões humanas para elaborar sua teoria de estado, Hobbes também foi perseguido.

Muitas vezes, tanto a arte quanto a teoria política podem ser observadas em suas antropologias e em suas concepções de ser humano. Independente de soluções políticas coercitivas e mirabolantes, talvez as ideias de artistas e teóricos políticos malditos sobre a condição humana possam nos ajudar a pensar certas subjetividades ainda hoje inexplicáveis pelas ciências sociais.

Será que retratar assuntos que tocam o mal, com a finalidade de revelar a verdade, ou de observar a natureza mais completa da vida e da condição humana, ainda incomoda nos dias de hoje? Quem se dispõe a ver isso no mundo externo, e principalmente dentro de si? Cabe a cada um de nós decidir e (se) observar.

*Apenas para fins de curiosidade, atualmente, em 2008, o Vaticano, na regência do Papa Bento XVI, estipulou pecados da era da globalização, incluindo na lista os pecados da poluição, engenharia genética, ser obscenamente rico, tráfico de drogas, aborto, pedofilia e causar injustiças sociais.

Paola Novaes Ramos é professora do IPOL-UnB e tutora do PET/POL

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2 comentários em “Sobre Bosch, Maquiavel, Hobbes e o Mal

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  1. Gosto de criar e inovar no conhecimento. Não tenho medo nem preconceitos.
    A idéia que que a inteligênci divina está além do universo não exclui a possibilidade da autonomia do universo sobre a sua criação por Deus. Esta autonomia fez com que o próprio universo seja a imagem divina em sua autosuficiência.
    A idéia está baseada em três princípios:

    a) Dados são medições criadas no princípio positivista da experimentação, ou empiricismo;

    b) Informação consiste num conjunto de dados organizados segundo um contexto de justificação, investigação, descoberta e experimentação, ou seja: depende da intencionalidade do pesqusador para dar significado ao seu arranjo dos dados (informação = arranjo particular dos dados)

    c) Inteligência é a capacidade de modificar as estruturas dos dados de acordo com as expectativas e a intencionalidade e capacidade de organizar e controlar o sistema de informações.

    A partir destes princípios, poderemos conjecturar que o universo é um todo pensante e inteligente.

    Quando Isaac Newton viu a maçã caindo da árvore em direção ao solo deduziu uma equação F=m.a. De uma outra maneira, saindo da visão antropocêntrica de Newton de que o humano decifrou um segredo da natureza divina, aqui estou dizendo que F não é bem = a (m.a).

    Para a maçã cair ao solo, segundo a equação de Newton, tem que se combinar com a terra e a maçã para tudo dar certo. Por que: a maçã e a terra processam os dados continuamente enquanto a maçã cai, o que envolve os dados da maçã, da terra, da atmosfera, da temperatura do ar, da densidade do ar, da latitude e longitude onde ocorre o movimento, da distância entre a terra e a maçã, e assim por diante. Como se vê, a equação da gravidade F=m.a não dá conta de todo o processo da queda da maçã. O que nos leva a concluir que um sistema tão dinâmico é um sistema dinâmico e quase imprevisível: não se pode garantir a qualquer instante anterior onde estará a maçã durante a sua queda e em que momento ela chegará ao solo, com que velocidade, e etc. A conclusão única é que a maçã e terra estão pocessando os dados durante a queda e isto somente poderia acontecer se a natureza deixasse de seguir a equação f=m.a e tivesse imbuída de inteligência. Conclusão: o universo não precisa de leis, pois todo o universo dispõe de intligência.
    Estou maduro hoje para admitir mesmo em minha cristandade que Deus não interfere neste sistema uma vez que outorgou-nos, ou na linguagem Weberiana, nos adjudicou a nós homens a nossa própria autonomia como o fez coma natureza deixando de tutelar-nos.
    Erguer as ãos ao céus para suplicar ou se apoiar em Deus, ou no imite,para dividir as nossas culpas e nos pnitenciarmos pelas nossas fraquezas é indisculpável e injustificável diante das evidências epistemológicas e ontológicas da teologia.

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