Cores, botas e reflexões

O curta “Cores e Botas” apresenta a história de Joana, uma menina na década de 1980 que sonhava em ser paquita. Joana passava horas vendo televisão e treinando para ficar parecida com as paquitas. Tinha brinquedos e maletuxas da Xuxa. Junto com uma amiga, vai fazer o teste para, quem sabe, ter a chance de estar no palco do programa. Até aqui, nada demais, certo?! Qual seria o problema de sonhar com isso? Provavelmente, naquela época, Joana seria só mais uma das meninas que compartilhava deste mesmo sonho. Qual seria a questão tratada aqui? Bom, Joana é uma menina negra e, então, este sonho passa a não ser um simples desejo, mas sim o mote para várias reflexões.

Em uma certa parte do filme, Joana tenta pintar seu cabelo de loiro com papel crepom. A família vê a bagunça e o constrangimento de todos é perceptível, fica estampado nos olhos. Mesmo sendo uma criança, a menina foi capaz de perceber que só loiras podiam ser paquitas. Para conquistar seu sonho, precisaria ser loira,certo? Bom, é uma inferência lógica, faz muito sentido. Em certa medida, Joana tinha razão: ela acaba não passando no teste. Na fila para fazêlo, só meninas brancas, com cabelo liso. Os aplicadores do teste não conseguem esconder: o que esta menina está fazendo aqui? Ela acha mesmo que pode ser uma paquita?

O filme é curto e dinâmico, vale a pena assistir; revela muito mais do que a história de uma menina que vê um sonho infantil não dar muito certo. Todos nós temos, e teremos, sonhos frustrados. Quem nunca quis ser astronauta, jogador de futebol? Quem, de fato, conseguiu sê-lo? A questão que apontamos relaciona-se aos porquês. Qual o motivo para que Joana não fosse aprovada no teste? Simplesmente a cor de sua pele. O resultado já estava dado a ela, as condições foram impostas e, diante das estruturas sociais, não havia muito que a pequena pudesse fazer. Bom, ela até tentou; tentou deixar seu cabelo loiro, mas não funcionou muito bem.

Interessante como o cabelo é uma marca distintiva tão importante, especialmente para as mulheres. Nelas, o cabelo é fortemente associado a noções de feminilidade e beleza. Para todas as pessoas, homens e mulheres, na nossa sociedade, o cabelo costuma ser uma marca identitária forte; diz muito sobre você, sobre sua personalidade. Joana tinha o cabelo “ruim”, como costuma ser visto o cabelo dos negros. Calma, vamos por partes. Primeiro: o que torna um cabelo bom? O que o cabelo fez pra ser chamado de ruim? Bom e ruim são valores subjetivos que, ao nosso ver, não fazem muito sentido quando são atribuídos ao cabelo. Seguidamente, questionamo-nos: qual a razão para o cabelo dos negros ser considerado ruim? Por que não cabelos lisos e finos, em que vários penteados são difíceis de fazer?

As respostas, talvez, sejam simples, mas têm implicações muito mais complexas. A questão do cabelo não pode ser vista isoladamente; está intimamente relacionado a todos os valores negativos comumente associados à negritude e outros elementos da cultura negra. Hoje, há infinitos produtos para alisamento e, pasmem!, até mesmo cremes que prometem clarear a cor da pele. Por que alguém passaria horas fazendo tratamentos de “beleza”, muitas vezes dolorosos, para transformar completamente a natureza de seus atributos? “Para fica bonita!”, poderíamos afirmar. Mas bonita segundo quem? Bom, pelo que vemos, de acordo com o que vemos reproduzido nas mídias.

O padrão exposto e sempre afirmado e reafirmado como o ideal é o branco, magro, liso. Não estamos livres da influência no mundo a nossa volta, e não é mera questão de ‘alienação’ se deixar levar por esta mídia. A pressão é grande e não podemos pensar nessa questão como algo individual, como se apenas pessoas ‘volúveis e influenciáveis’ estivessem expostas a estes padrões. O fenômeno é social. Este reforço de certos esterótipos acontece em larga escala, em diversos ambientes. Poderia ser até cruel exigir que os indivíduos, sozinhos, fossem capazes de ignorá-lo. Individualmente, seria como uma guerra de apenas uma pessoa contra o resto do mundo. O vencedor já estaria determinado, não?

A história de Joana nos revela como o racismo ainda está presente entre nós. Ignorá-lo é uma escolha possível, mas não faz com que ele deixe de existir. Embora a negritude possa ser entendida como algo que se constrói socialmente, nascer negro ou branco traz consigo uma série de determinantes para toda a vida. Limitações, lugares, comportamentos: muitos deles são decididos simplesmente pela cor de sua pele. A reprovação de Joana já estava decidida muito antes; ser paquita não era uma possibilidade reservada a ela.

Assim, podemos afirmar aos quatro cantos que todos são iguais, que não existe preconceito nem racismo, mas isto não acaba com o preconceito nem o racismo. A diferença está presente e não pode ser negada. Contudo, o tratamento discriminatório não pode ser permitido (1). Talvez, algum dia, não haja mais racismo; só quando as Joana´s puderem ser paquita e, mais do que isso, quando tal fato não causar estranhamento.

Marcelo Caetano é petiano, negro e defensor das cotas raciais, ainda que não seja um cotista

(1) Só para deixar claro, não entendemos que a política de cotas seja um tratamento de discriminação e preconceito. Na verdade, trata-se de uma política de afirmação, diante do reconhecimento da diferença e da necessidade de políticas públicas em relação a esta diferença.

Para mais informações: http://blogueirasfeministas.com/2012/04/direitos-humanos-cotas-raciais/

http://tamarafreire.wordpress.com/2012/08/15/essa-conversa-nao-e-sobre-voces/

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