O outsider sou eu

Este texto trata de uma experiência no mínimo irônica: como tudo depende da perspectiva, os relatos a seguir podem tanto se caracterizar por uma rica empiria no campo da “sociologia do desvio”, como também retratam alguns momentos constrangedores para o autor. De qualquer forma, creio que a experiência de se portar como um sujeito desviante elucidou em muito as minhas leituras sobre esse tal ramo da sociologia. “Teoria da rotulação”, “outsider”, teorias interacionistas e afins são alguns dos suportes teóricos que procuro relacionar com um acontecimento específico mas que é cotidianamente vivenciado pelas pessoas em diversas esferas do campo social. Sem mais delongas, relato abaixo uma tentativa de integração ao grupo de vôlei da UnB e como isto se aplica, ou o contrário seria mais exato, na teorização da sociologia do desvio, principalmente a partir de H. Becker.

O grupo de vôlei da UnB, aquele formado inicialmente com o intuito de integrar diversos estudantes da UnB e que agora parte para uma iniciativa mais objetivista, ou seja, treinar quadros para a disputa de campeonatos entre universidades, possui uma dinâmica muito interessante. Isso pela própria mudança em sua função: ao ter maior interesse em conquistas em detrimento de incentivo à participação, a composição do grupo sofre modificações básicas. Não entro no mérito do próprio grupo, pela ação dos indivíduos, sobre a alteração dos objetivos de permanência desse projeto. Algo que constatei, entretanto é que por conta disso, a entrada de novos membros passa por um processo de rotulação e de integração social muito semelhantes àquelas que Becker constata já em 1963 em seus estudos sobre os Outsiders.

O outsider, no caso o próprio autor, é aquele sujeito externo, como o termo já deixa explícito, rotulado como um desviante. No vôlei, ser desviante é não se portar de acordo com a “expertise” dos demais integrantes do grupo. Aliás, isso parte de uma percepção, uma rotulação como disse acima, já que podem existir casos em que o novo integrante possui habilidades “superiores” em comparação aos demais (isso também pode criar um ser desviante, uma vez que o grupo pode se sentir “ameaçado” por aquele novo sujeito e iniciar, assim, um processo de exclusão ou de negação, até que o outsider prove seu “valor” para os propósitos do grupo). Em outras palavras, o grupo recebe o novo integrante já com uma imagem prévia, e isso irá dimensionar completamente a interação entre todos os envolvidos nesse meio social.

Para o sujeito rotulado como desviante, a sensação é de constrangimento e não-pertencimento. Os jogadores antigos e mais experientes evitam qualquer interação, e os medianos recorrem a uma convivência mínima, normalmente dividindo junto a outros medianos a “farda” tarefa de praticar com o novo sujeito. Claro que isso não é absolutamente consciente. Como Becker já afirmava, esses processos de rotulação de desviantes partem de uma construção social e de acordo com regras e culturas prévias. Portanto, quando um integrante mediano somente aceita praticar com o desviante depois de um pedido do “monitor”, acredito que isso vem de uma dinâmica mais complexa do que uma atitude egoísta ou preconceituosa de um único indivíduo.

Esse ponto é muito interessante. Em determinado momento da experiência do autor, o “monitor” havia pedido para o grupo se organizar em um treino de ataque e defesa. Enquanto um lado praticava o “saque”, o outro deveria “defender” e “levantar”. Duas interpretações puderam ser extraídas disso: primeiro, o sujeito desviante foi “incluído” em uma dinâmica até então desconhecida por ele. Não fora informado das regras e não possuía o “costume” dessa prática. Ora, as chances do comportamento do desviante vir a ser insuficiente do ponto de vista do grupo – ou corresponder de fato com a rotulação – crescem muito, já que desconhece aquilo que o restante estava acostumado a praticar. Isso, por sua vez, reforça o rótulo de incapaz para se integrar ao grupo e distancia ainda mais o desviante.

A segunda conclusão vem do que se sucedeu. Todos os saques por diferentes pessoas que foram dirigidos ao time do ser desviante tiveram uma direção única: sempre do lado oposto àquele do desviante. Ao ser rotulado como incapaz e não pertencente ao grupo, julgo que mesmo inconscientemente as pessoas evitavam ao máximo a participação do autor. Inconsciente, porém não deixa de ser propositivo. Isso em decorrência de todas as atitudes exclusivas que o grupo portava até o momento. O efeito é um ciclo vicioso, em que o ser desviante é constantemente excluído e, sendo excluído, não tem oportunidade de demonstrar seu potencial para o propósito do grupo e nem oportunidade de desenvolver suas habilidades a partir da prática. O outsider se vê, então, totalmente excluído daquele meio social com regras e culturas próprias que o rotulam como um ser desviante prejudicial à sobrevivência do grupo “hegemônico”. O resultado, dentre outros, mas o vivenciado pelo autor, é a perda de interesse e completo rompimento com aquele meio.

Esse evento é muito comum para todas as pessoas embutidas em um meio social. Não digo a integração a um time de vôlei em específico, mas todas as dinâmicas sociais de inclusão e exclusão inerentes à construção e manutenção da nossa sociedade complexa. Becker verificava em estudos na década de 1960 esses processos que criam seres desviantes (em oposição ao termo “crime”) mas que continuam muito atuais. Sendo assim, essa pequena contribuição vem da constatação de que processos de rotulação e de desvio não se limitam aos grandes sistemas e dinâmicas sociais, como a política e a econômica. Ao contrário, como o exemplo vivido pelo autor, muitas outras construções do desvio partem de microssistemas e de pequenos grupos, um fato importante para entender o – quão complexo – comportamento de indivíduos e de grupos em diferentes esferas e dimensões do mundo social.

 

Daniel Vasconcelos é petiano.


Para os interessados na “sociologia do desvio”, recomendo:

BECKER, Howard S. OUTSIDERS: estudos de sociologia do desvio. 1ed. Rio de Janeiro, Ed. Jorge Zahar, 2008

 

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