Persistências do Bandeirantismo

“O fato da existência dos índios em “nosso” país “nos” obriga a hesitar cada vez que dizemos “nós”.

Mais nós que nós mesmos. Nós outros.”

Eduardo Viveiros de Castro

Bandeirante
ban.dei.ran.te
adj m+f (bandeira+ante) 1 Relativo ou pertencente ao bandeirantismo. 2 sm Homem que, no Brasil, fazia parte das bandeiras destinadas a descobrir minas, apresar índios e etc. s m+f V paulista1. sf  1 Categoria de bandeirantismo para meninas de mais de 10 anos. O mesmo que bandeirista. (FONTE: Dicionário Michaelis Online)

Desde a divulgação da carta dos índios Guarani Kaiowá, no dia 8 de outubro, motivada por uma ordem de despejo do território onde viviam à beira do rio Hovy no município de Iguatemi (MS), as redes sociais tem se mostrado uma excelente forma de difusão de informações e mobilização popular. Isso fica claro diante de iniciativas de grande porte como o “tuitaço” pelo direito de resposta aos Guarani Kaiowá na revista Veja (#RespostaGuaraniKaiowa) – diante de matérias como “A ilusão de um paraíso” e “Visão medieval de antropólogos deixa índios na penúria“, repletas de preconceitos enraizados – e de tags unificadas #SouGuaraniKaiowá. Este texto foi inspirado nos diversos textos, posts e manifestações de intelectuais, ativistas e blogueiros publicados online sobre os recentes episódios envolvendo as questões indígenas de sempre – isto é, de mais de quinhentos anos –, que apesar de urgentes há tanto tempo, permanecem marginalizadas na agenda institucional e mesmo no debate público.

Percorrendo-se os textos, percebe-se que a maioria converge em um mesmo ponto: a diferença da mentalidade ocidentalmente inspirada e do pensamento indígena ao se relacionar com a natureza, com a terra e com outros seres que a habitam.

Orientada por uma visão de progresso e desenvolvimento a todo custo, a forma de viver e pensar das sociedades capitalistas é completamente incompatível com visões de mundo que extrapolam a lógica mercantil, do consumo desenfreado, finalmente, da insuficiência. Mesmo alternativas como o “capitalismo verde”, que buscam conciliar o desenvolvimento com a ideia de sustentabilidade, se mostram incapazes e, em muitos casos, uma ótima “expiação de consciência” diante da responsabilidade da degradação da vida, tal como a conhecemos, do planeta. Tal como a conhecemos, já que, o que está em risco não é o planeta e sim a vida humana – e de outras espécies que nós perversamente levamos e levaremos junto.

“O Brasil hoje se embala em grandiosos sonhos de crescimento”#, e neste Brasil, o índio aparece apenas como um entrave a estes sonhos. Exemplos claros são as duras investidas dos grandes do agronegócio sobre as terras dos Guarani Kaiowá, a construção do setor noroeste, em Brasília, “primeiro bairro ecológico do Brasil” erguido sobre território sagrado da comunidade indígena Tapuya Fulni-Ô, os ataques intimidatórios da polícia federal a aldeia Teles-Pires do povo Munduruku, além, é claro, da devastação que será causada com a construção da Usina de Belo Monte e de outros projetos de semelhante ambição. Diante destas tentativas de reocupar economicamente a terra – já que o mundo indígena é como água para o óleo do mundo do capital, ou seja, já que a relação dos índios com a terra não serve para o desenvolvimento econômico da nação – não é difícil relembrar essa figura histórica do espírito nacional, o bandeirante. Assim, este “homem que, no Brasil, fazia parte das bandeiras destinadas a descobrir minas, apresar índios e etc.” aparece bem representado, na contemporaneidade, pelos agentes do agronegócio, pelas empreiteiras e por projetos de governo pouco dispostos a considerar a alteridade dos sistemas de relações próprias às comunidades diretamente afetadas por eles. O etecétera da definição do dicionário, assim, é prenhe de atualidades.

Como bem disse Tarso de Melo, professor de Direito da Faculdade de Campinas, “não só sua própria existência, mas a forma como os índios insistem em mantê-la é uma grande afronta ao capital e sua lógica”#. Isso demonstra a incapacidade da “cosmovisão” ocidentalista em assimilar e reconhecer a plenitude de outras cosmologias – tangenciando-as como se estas estivessem em um estágio inferior –, deixando de apreender com formas equilibradas e suficientes de se relacionar ao meio ambiente, o que se torna urgente diante da iminência de crises ambientais severas resultantes da própria modernidade capitalista.

Mas talvez não seja difícil perceber o porquê da dificuldade de reconhecer os indígenas como exemplos de pensadores de mundo. A aprendizagem, nesse caso, não poderia escapar ao enfrentamento de todos os absurdos históricos cometidos contra populações tradicionais, no próprio processo de construção da ideia nacional. Algo que parece muito distante quando o espírito do bandeirantismo ainda está tão próximo, tão presente, tão persistente.

Da petiana, Laryssa Teles

 

BIBLIOGRAFIA

Cesar, Alfredo. Nós e os Índios. Publicação online em: http://www.amalgama.blog.br/11/2012/nos-e-os-indios/

Melo, Tarso. Batalha das ideias. Ser índio em tempos de mercadoria. Publicação online em: http://editora.expressaopopular.com.br/noticia/batalha-das-ideias-ser-%C3%ADndio-em-tempos-de-mercadoria

Renzo Taddei, Guarani kaiowá e a perversidade do senso comum. Publicação online em: http://www.canalibase.org.br/os-guarani-kaiowa-e-as-perversidades-do-senso-comum-dos-brancos-2/

Viveiros de Castro, E. . Desenvolvimento econômico e reenvolvimento cosmopolítico: da necessidade à suficiência. Sopro, nº 51. Publicação online em: http://culturaebarbarie.org/sopro/outros/suficiencia.html




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