As diferenças por trás da diversidade

A temática da diversidade abrange a compreensão de vários conceitos básicos, sendo que o da diferença é considerado o mais central. A própria diversidade pode ser considerada como uma forma de tratamento da diferença. Por isso, o debate sobre a diversidade e as discriminações gira em torno das considerações feitas sobre as diferenças. Partindo desse argumento, estudarei de forma livre de abordagens teóricas específicas, a diferença buscando encontrar e entender os aspectos que determinam uma discriminação, em resposta à questão: quando começa um preconceito/uma discriminação?

Em diferentes países e instituições, a diferença é formalmente tratada de forma diferente. Ela pode ser entendida como universal, comum a todos, por isso também tratada como igualdade, baseando-se no pricincípio de que todo mundo é igualmente diferente. Neste caso, a igualdade formal se torna um valor central, representada pela igualdade de chances e de direitos e pela não-discriminação, concepção característica de alguns países democráticos republicanos, que tem a França como forte exemplo.

Uma outra forma de tratar as diferenças é fazendo-o de formas distintas, considerando suas particularidades e necessidades especiais intrínsecas, por meio de seu reconhecimento. Nesse caso, quando as diferenças são reconhecidas na formulação de políticas especiais em benefício de grupos, chamamos tal fenômeno de discriminação positiva, realizada no nível do Estado e das instituições. Os objetivos da forma de tratamento da diferença giram basicamente em torno da busca do que se rentende como justo, em razão de diferentes fatores históricos, econômicos e sociais.

Se observamos além da diversidade do ponto de vista estatal, percebemos como a forma com que ele lida com diferença pode ser reflexo das relações sociais no nível micro. Apesar das medidas estatais, discriminações negativas não são abolidas completamente em razão da existência de relações pessoais complexas, impossíveis de serem controladas por meio de medidas universalistas. Ao mesmo tempo em que são essas relações que determinam a necessidade e, após implementadas, a eficácia das políticas estatais.

Por isso, o nível individual de análise é essencial para a compreensão da forma com que uma sociedade lida com as diferenças em seu meio. Nesse nível, um conceito ganha importância: o de identidade. Individualmente, é em torno da construção da identidade que um indivíduo se relaciona com o outro, em um processo dinâmico, numa via de mão dupla. Já a identificação com o outro determina a forma com que acontece reconhecimento ou aceitação de diferentes características.

Além disso, a identidade não pode ser desvinculada do contexto social e histórico em que se manifestam. Ela é influenciada pela cultura, pelos valores morais e religiosos compartilhados, pelas concepções políticas, por tradições, ao mesmo tempo em que varia conforme a situação econômica de um grupo, suas relações diplomáticas etc. Numa perspectiva ainda mais micro, a aceitação do outro varia conforme experiências e conhecimentos pessoais, bem como diferentes personalidades.

Como se pode ver, a diversidade é um fenômeno extremamente complexo, que envolve vários niveis de estudo. Por isso é difícil saber onde uma discriminação começa, e entender o que determina a aceitação de determinados grupos em uma sociedade, em detrimento de outros. Em razão dessa dificuldade, quando um governo acha necessário a elaboração de políticas ou de leis de promoção da diversidade, isso representa um enorme desafio, pois muitas vezes significa ir de encontro à mentalidades e valores difíceis de serem mudados.

Apesar dessa dificuldade, arrisco dizer que a discriminação começa com a incompreensão de uma diferença, podendo ela ser representada de diferentes formas, como por exemplo apatia, violência, desvalorização ou exclusão. Essa diferença também pode ser construída socialmente, ao longo de muitos anos, por conveniência a um grupo específico, em razão de um dado contexto, ou pode resultar do simples desconhecimento por falta de contato com a realidade do outro.

Peguemos como exemplo a discriminação de gênero, infelizmente bastante comum, relacionada às mulheres. Primeiramente, podemos considerar que homens e mulheres são diferentes biologicamente. Entretanto, considero que as diferenças de comportamento ou aptidões entre eles são construídas socialmente. A partir dessas diferenças construídas (ou mesmo das biológicas, como no caso da maternidade), o tratamento dado às mulheres também é diferente, podendo ele ser discriminatório negativo ou positivo.

Para combater a discriminação, é preciso que se entenda a construção das diferenças. Há dois caminhos de luta, variando conforme o julgamento das diferenças consideradas: a desconstrução de diferenças socialmente constituídas consideradas injustas ou a consideração das mesmas e o seu tratamento justo, podendo ele ser de reconhecimento particular ou de tratamento de igualdade.

Voltando ao caso das mulheres, as duas opções seriam desconstruir as noções de diferenças instrínsecas entre elas e os homens, ou então simplesmente o tratamento igualitário das diferenças dos dois, sem hierarquias. Outra possibilidade, com objetivo de promoção das mulheres quando elas são consideradas em situação de desvantagem, seria o tratamento desigual, em benefício delas, por meio de políticas afirmativas (discriminação positiva).

       A promoção da diversidade é, em si mesma, um valor social. A forma com que lidamos com a diferença, a promovendo conforme um princípio de justiça equitativo ou a mascarando com base num princípio de justiça igualitário, varia conforme o valor que damos à ela. É esse valor que delineia as relações humanas, que podem ou não aproveitar da riqueza da unicidade de cada grupo, de cada indivíduo.

Por Ariadne Santiago.

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