Violência: causas, soluções, compreensão, superação?

O tema da violência é recorrente nas religiões, no pensamento político e na prática política em si, pois se considerarmos que a política diz respeito ao conflito, a violência pode ser interpretada como sua intensificação destrutiva.

Se a questão de fundo da violência, portanto, for considerada como intensificação do conflito, é importante lembrar também que ela não se reduz à destruição física de bens e corpos. A violência pode ser verbal, simbólica, emocional e silenciosa (pois sentimentos negativos, quando não são reconhecidos e superados, podem transformar raiva em rancor, rancor em mágoa, mágoa em ódio, ódio em destruição do próximo ou de si).

Doutrinas religiosas, filosofias políticas e espirituais, teorias sociais e antropológicas sempre se debruçaram sobre o tema da violência tentando entender suas causas e possíveis soluções. Mesmo que o conflito seja inescapável e até certo ponto, saudável (democracias, por exemplo, não existem sem algum grau de conflito), a violência pode ser considerada negativa e dispensável para uma vida plena. Quando o conflito se exacerba na forma de violência, algo perverso se faz presente, e as causas deste caminho são motivos de reflexão para muitas pensadoras e pensadores, e também para sistemas de crença (religiosos ou não) que caracterizam a maior parte das culturas.

Algumas respostas para a causa da violência podem ser encontradas em explicações espirituais ou teológicas, ou em sistemas filosóficos ou psicológicos, mas estas respostas tendem a ser generalizações consideradas inescapáveis à condição. No pensamento político de origem europeia existem várias explicações para as possíveis causas da violência. Platão dizia que o problema da humanidade estava na deturpação de forças perfeitas do mundo das formas ideais, que se distorciam no mundo matéria como exageros. Para Platão, portanto, qualquer força destrutiva tinha como causa o exagero típico das paixões humanas.

No pensamento ocidental, pode-se pensar também na idéia de “pecado” como princípio ou causa de ações violentas em vários pensamentos ou doutrinas, em especial no Cristianismo. Agostinho falava que passamos a vida sendo bombardeados por forças externas, e que por livre arbítrio podemos escolher o caminho do bem ou o caminho do mal. O bem e o mal não estariam, portanto, dentro de nós, e sim fora. Nós seres humanos seríamos inicialmente habitados por livre-arbítrio e discernimento para fazermos escolhas bondosas ou maléficas. Segundo Agostinho, o caminho do bem é o caminho de Deus e implica considerar o próximo em todas as nossas ações, pensar nas consequências de tudo o que fazemos de forma ponderada. E o caminho do mal, por vez (que tem como uma de suas conseqüências mais atrozes a violência), seria (resumidamente), a escolha de ação respaldada em egoísmo e imediatismo escravizado às paixões que levam ao pecado.

Vocabulários teológicos à parte, na filosofia política moderna contratualistas como Hobbes e Locke ainda mantiveram uma perspectiva de atribuição das causas da violência a uma natureza humana generalizada (paixões predominantes em Hobbes, fraqueza humana em Locke), e as soluções propostas não se reduzem ao livre arbítrio e à ação individual de escolher a virtude em vez do pecado. Para os contratualistas (e a para a maior parte das teorias políticas), soluções para a violência tem escopo externo e coletivo, em geral na formação de uma figura coercitiva chamada estado.

Hobbes propõe um estado absolutista onipotente capaz de conter os comportamentos destrutivos e violentos dos membros de uma sociedade, e Locke propunha um governo civil arbitral, penal e tributário, que contenha as reações exageradas e as vinganças dos indivíduos lesados pelas fraquezas dos outros. Mas como a maior parte dos teóricos e filósofos modernos (com exceção dos anarquistas, e talvez parcialmente Rousseau) ambos localizam a solução fora dos indivíduos, na coerção estatal ou governamental. Já autores como Marx e Engels explicam a origem da violência de forma relacional, pelas desigualdades sociais que começam pela violência e imposição física e se consolidam por desigualdades sociais, econômicas, cognitivas e simbólicas.

As tendências das análises contemporâneas sobre causas da violência nas ciências sociais atualmente articulam conjuntos multicausais de natureza socioeconômica, de identidade nacional e de identidade de grupos, mas ainda assim, tendem a considerar suficiente o pertencimento a determinada coletividade. As dimensões subjetivas individuais estão mais relegadas a um passado de explicações antigas, medievais, teológicas ou no máximo modernas contratualistas. Mas seria possível, para a teoria política de hoje, olhar para algo além das dimensões de pertencimento social dos indivíduos?

Se atualmente, em geral tende-se a assumir que a violência existe por motivos sociais e que deve ser combatida, será que desigualdades econômicas e sociais seriam explicações suficientes, ou algo subjetivo na condição humana individual ainda é pertinente para ser considerado? O que me motiva a escrever sobre isso é justamente aprofundar estudos em teoria política que dizem respeito às dimensões subjetivas dos indivíduos, dos grupos, das culturas e sociedades, ou seja, sobre os valores individuais e partilhados que podem desencadear a violência, evitá-la ou suavizar sua intensidade. Em resumo, até que ponto a violência pode ser considerada inevitável como parte da condição humana, até que ponto é inescapável, até que ponto é escolha? Até que ponto tem origem individual e/ou tem causas coletivas (familiares, sociais, econômicas, religiosas, culturais, grupais)?

A constatação de que a violência existe e de que o estado, ou o medo do estado, são pressupostos suficientes para respaldar estudos sobre violência? Várias culturas além das teologias cristãs ou dos contratualismos hobbesiano e lockeano também interpretam a origem do mal que gera violência como parte da condição humana, como os yogasutras de Patanjali, os tantras hindus, o budismo tibetano, e culturas indígenas das Américas, como Navajo, Hopi, Tolteca e Taino, entre tantas outras, e sem recorrer à figura do estado como única solução possível. Estas culturas podem ser consideradas pelo pensamento ocidental como relevantes de contribuir para o estudo da violência? A minha opinião é que sim. É relevante tentar entender as causas subjetivas da violência, que transcendem sem excluir dimensões sociais?

São perguntas que talvez tenham respostas temporárias, ou resposta alguma, mas que podem ajudar a refletir. Ou quem sabe conter ou suavizar a violência que não existe apenas em cenários de guerra, mas que pode estar dentro de cada um de nós.


Um texto da tutora do PET/POL, Paola Novaes Ramos

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