Transforme!

Essa história aconteceu comigo um dia desses. Cheguei em casa, joguei o sapato pro alto, fui pra cama num salto, coloquei um disco do caetano, abri um gibi e me encontrei no descanso dos justos que cedo se deitam para cedo labutar.

De repente, meu telefone tocou, não sabia quem era, sem broto, saio pouco, sem carango, pensei até em ser engano, achei melhor não atender, engano não dá pé e eu estava duca com meu gibi do mandrake!
De todo jeito o chapa não parava de ligar, o disco acabou e de todo jeito ia ter que inverter, resolvi levantar, resolvi atender.

“Alô!”

“Alô meu chapa! Quanto tempo não falamos, não é certo sumir dos seus! Estou num boteco chulé perto do velho mercado, sabe como é, chega mais rapaz! Estou com uns amigos aqui de faculdade, tá rolando o maior ziriguidum, morô? Tá faltando você nessa mesa pra gente levar aquele papo firme que você me prometeu! Se não vier sifu, não tá faltando gente pra dar aquela esticada e certinha pra você ensinar aquela gafieira que eu sei que só você tem no pé! Mulher nenhuma dá tábua em sujeito assim!”

“Cara, é fogo, acabei de chegar em casa, sabe como é, preciso salvar a grana, a vida não tá fácil nessa aldeia global!”

“Se manca rapaz! Nunca fostes de papo furado, chega mais que a conta aqui vale pouco perto das ideias dessa turma!”

“Tudo bem, mas só um pouco!”

“Aê! Sabia que você era pra frente, não lembro nada desse seu lado quadrado! Te aguardo!”

Era um colega de faculdade, sabe como é, uma, duas, três matérias juntos, acabou me ligando, é bem verdade que era uma sexta feira sabe qual é? Concordamos todos que a classe estudantil também precisa de anestesia, uma gafieira até que não ia mal. Cheguei lá em pouco tempo, bar lotado, clube democráticos na rua 91. Desci do baú e terminei o trajeto a pé, camisa aberta, marlboro no bolso, bigode aparado, tudo azul, tudo certo. Encontrei meu chapa com uma turma diferente, gente que nunca tinha visto, mas sem problema algum de conhecer. Soube pouco depois que ele entrara na política, cabo eleitoral, reunião de sindicato, sabe como é, muita literatura, muita teoria, inconformado com o mundo e com certos absurdos dessa babilônia cafona. Disse que sofreu reviravolta, girou igual redemoinho, nunca antes tendo feito nada se indignou e resolveu mudar. Agora lia tomos de materialismo histórico e falava em substituição de instituições. Subia a voz, inflamava o discurso, saliva na barba, assim não dá, assim não pode, e a cada “não” uma salva de palma, a mesa cheia de certinha boa pinta, falando da frança e de morar em paris, disse me disse, papo vai e papo vem. Meu amigo pareceu se sensibilizar pra barra do discurso, segundo ele, muita desigualdade acontecia no reino lobato das palavras. Falou também em utopia e como a mudança tinha que vir de maneira gigantesca. Falou que careta não dá pé, e no mais fino bicho grilês me dizia sua contribuição teórica pra mudança da concentração de tutu.

Eu que não sou mancebo goiaba desligado, achei muito interessante toda aquela chacrinha, disse “falou e disse”e “podes crer”, falei que também não levava fé em biônico, ternola falcão, sabe como é, pelegagem ninguém quer. Mas foi quando disse que ia dar no pé, que o bicho me falou que estaria no boteco no dia próximo e no seguinte e no outro, toda semana, quando quisesse aparecer, eu dava a cara que não ia ter bode.

Aí o arquibaldino aprontou, sentei-me de novo no bancola de madeira e indaguei “irmão, como é que se diz, é no bar tua revolução?” E antes de ele me mandar aquela ideia, eu saí falando tudo o que estava na cuca e foi mais ou menos isso aqui:

“Concordo contigo em fazer diferença, concordo contigo que o mundo tá osso, concordo contigo que tem gente com fome e concordo contigo que tem fundo do poço. Mas veja você que é 2012 e não 1972, temos vinte e poucos anos e o zico é treinador, o flamengo não é penta sozinho e o Chico se mostrou um péssimo escritor, o mensalão tá sendo julgado o black tie não é mais intocável, marmanjo operário tem voz em conselho, só uma coisa não mudou, o tamanho desse leviatã gigante, e seu potencial estrago, se não dá pra mudar o combinado, dá pra diminuir a dependência do Estado.
E ele me olhou estranho, papo de careta, conservador, conversador eu já fui logo explicando. Tá na hora de mudar o gingado, dá pra fazer sem esperar o Estado.

Vi que me olhava com desconfiança, mexia no bigode, apertou as órbitas, resolvi parar a lambança e falar sério pra depois não dar bode. Enxi o pulmão… E comecei:
No debate sobre democracia, duas formas são usualmente discutidas pelos teóricos: a democracia participativa e a democracia representativa. Tenório (2007) afirma que na democracia representativa observa-se participação política limitada por parte dos cidadãos e uma distância entre representantes e representados. Na democracia participativa ocorre um processo de conexão da sociedade com o poder público na dinâmica de formulação de políticas. De acordo com Dahl (2001), a democracia participativa proporciona aos cidadãos boas oportunidades de se envolverem no processo de governar a si mesmos, enquanto em um governo representativo em uma grande unidade isso não seria possível. Por outro lado, Dahl (2001) aponta alguns problemas na utilização da democracia participativa ou de assembleia. Acontece que, segundo Oliveira, (2010), desde 2002 o governo federal tem avançado em uma concepção de gestão democrático-participativa, criando diversos canais de participação, dentre eles, conselhos nacionais, federais e municipais, orçamento participatico e conferências (o primeiro slogan inclusive foi “Brasil um país de todos”). Vários planos de políticas públicas foram elaborados mediante a participação de movimentos sociais e de unidades do terceiro setor, um exemplo, o plano de desenvolvimento regional para área de influência da BR 163. Isso se faz interessante, pois, até o final dos anos 1990 a participação se reduzia apenas ao canal eleitoral (um homem um voto), ao corporativo (mercado) e ao organizacional (terceiro setor inscipiente), (Avelar). Assistimos ao longo da década de 2000 o início da interferência significativa da sociedade civil organizada no ciclo e no processo de políticas públicas, fenômeno inédito na história política do país e muito respeitado no exterior. O quadro é simples, o Estado é significativo. No Brasil nota-se, de acordo com Moura e Silva (2008), a predominância de perspectivas que conferem uma primazia do Estado, como ator protagonista na estruturação da vida social, prevalecendo assim uma concepção “estatista”, a qual confere ao Estado a capacidade de iniciativa e de condução da dinâmica sociopolítica e/ou da modernização do país, cabendo aos atores não estatais um papel de coadjuvantes destituídos de agência. E mais, para Carvalho (2001), no Brasil não predomina uma tradição de vida civil ativa, o que fortalece a premissa de que o Estado sempre assumiu uma postura central na relação entre poder público e sociedade. Adicionalmente, verifica-se que o poder público não é garantidor dos direitos de todos, mas de grupos econômicos e de cidadãos que com ele tecem uma rede clientelista de distribuição particularista de bens públicos. Essa cultura “estatista” favorece, também, uma visão corporativa dos interesses coletivos. Segundo Carvalho (2007), a ausência de ampla organização autônoma da sociedade faz com que os interesses corporativos prevaleçam. Assim, a representação política não funciona com a finalidade de resolver os problemas que assolam a maioria da população, mas sim para atender os interesses pessoais.

Não se trata aqui de propor o estado mínimo, (argumento rejeitado por definição, e não por explicação, pela maioria das pessoas) mas propor a parceria e o diálogo do Estado tal como se encontra, com a sociedade civil. Assim, não seria diminuí-lo, mas diminuir a dependência da população em relação a ele. Devo ter lido mais uns 20 ou 30 artigos sobre abordagens recentes na administração pública que envolvem estas reflexões. Para dar um exemplo, Kathryn Newcomer (1999), que trabalha a questão de uma nova concepção de accountability por parte do Estado, terceirização (contratação de entidades não estatais e não mercadológicas para prestação de serviços), enxugamento e principalmente o papel do cidadão, outro exemplo, Kevin Bacon, que entende o estado e suas matérias, como indivíduo auto-interessado, assim suas atribuições são estatais e não necessariamente públicas. Mas o gancho a se fazer encontra-se no papel do cidadão, se o Estado encontra-se mais aberto à parcerias, se a geração atual caminha para uma consolidação institucional, seria realmente, a curto prazo, a melhor saída, a substituição de instituições ao invés da transformação destas e de uma maior inclusão da sociedade civil? Em termos práticos? O ponto que desejo colocar neste texto se chama Civismo. Eis que os EUA, por exemplo, tem uma tradição, como atesta Tocqueville, do cidadão como ator autônomo. Sim, estamos falando de agência, estamos falando de práxis e, há abordagens mais recentes que afirmam estarmos falando também de políticas públicas (concebendo-as como diretrizes à problemas públicos, Secchi. Se um meio fio encontra-se sem tinta, cidadãos se organizam para pintá-lo. Se um parque encontra-se sujo, se organizam para limpeza, se a administração local encontra-se sem capital humano ou sem verba, organizam-se para levantar ambos. Eis uma cultura que encontra-se inscipiente no Brasil e nós, cidadãos, temos de lutar para consolidá-la.

O civismo, em meu entendimento, não faz referência a moral e cívica de 1970 (reforço de valores e nacionalismo), é um conceito onde se criam redes de solidariedade que possibilitam a consolidação e otimização de instituições através da ação do cidadão sobre as mesmas. Se uma administração alega um prazo para entregar uma quadra de basquete num determinado município que possui veia civista, haverá pressão, cobrança, controle social. Curiosamente os trabalhos mais recentes sobre corrupção (Gico e Alencar, e Vieira), tem encontrado uma associação negativa entre as variáveis controle social e corrupção. Ou seja, enquanto uma cresce a outra decresce. Interessante notar que onde há controle social, a taxa de percepção de corrupção encontra-se menor que naqueles municípios onde este não ocorre. A sociedade civil pode se organizar informalmente, em redes de solidariedade que podem futuramente gerar projetos reconhecidos juridicamente, OSCIPS, OS, ONGS, institutos, fundações, etc.
Sim, o problema de nós, jovens, é que atravessar a ponte do “eu tenho uma ideia” e do “vou fazer isso na universidade” para o campo do empreendedorismo social parece ser muito difícil quando na verdade não o é. Mas para o bem do país existem jovens que lutam pela consolidação de organizações que atuam em grande escala. O site “mesalva” ensina matemática e oferece capacitação em exatas para um público gigantesco, cerca de um milhão de visualizações http://www.mesalva.net/. Feito por um jovem estudante do sul do país. O projeto RED (http://enemred.blogspot.com.br/), atua no combate ao analfabetismo e na aceleração de alunos considerados anteriormente como irrecuperáveis pelo GOVERNO! Feito por uma menina que acabou de passar no vestibular. O Yougreen (http://www.yougreen.com.br/ ) trabalha com o trato de resíduos sólidos e conseguiu este ano que sua lista de prioridades ambientais em políticas públicas fosse incluída no programa de todos os candidatos a prefeitura paulista. Feita por outro garoto Roger Koepl, inclusive ganhador do prêmio da Bayer. O projeto Icare (http://www.icaregames.com.br/) desenvolve jogos educativos e atua com softwares educacionais. A empresa Artemísia, tem um programa de embaixadores choice que levam questões sociais para diferentes esferas de ensino no país (http://www.artemisia.org.br/movimento_choice.php). É uma empresa jr. O projeto Urna limpa, a fundação brava, o projeto youth foundation, enfim. Lembro de uma foto do Rio de Janeiro, de satélite, onde era possível ver a Gávea e a Rocinha, os dois são separados por uma rua e, ao atravessá-la, você perde 10 anos em expectativa de vida, e alguns pontos consideráveis em IDH. Enquanto essa foto for atual, não estamos fazendo o suficiente. Precisamos, como jovens, romper agremiações que acabam sendo puramente simbólicas e de curta duração, para colher resultados que conjuguem ambos qualidade e quantidade. Atender 40 mil pessoas em um projeto, mas… Porque parar em 40 mil pessoas se seu projeto pode beneficiar um milhão? Existem oportunidades, o premio pepsico http://www.pepsico10.com/ , o premio laureate http://blogs.anhembi.br/premiolaureatebrasil/?page_id=2 de jovens empreendedores sociais, o laboratório estudar da fundação estudar, os lemman volunteers da fundação lemman, o youth group para trabalhar fora em projetos sociais http://www.opportunitiesforyouth.org/2012/08/18/youth-advocacy-group-call-for-nominations/  o ashoka que te leva pra África, Índia, enfim, para também poder atuar, https://www.ashoka.org/story/online-course-young-changemakers-sharpen-their-“world-changing”-muscles—-registration-now-open#.UCadEY7ldps , o programa de intercâmbio social da AIESEC, o beehave http://www.beehave.com.br/ , o upstart http://www.upstart.com/ , os empreendedores criativos, http://www.empreendedorescriativos.com.br/ a GIZ cooperaçao Brasil Alemanha para combate ao desmatamento na amazônia, http://www.giz.de/en/, o Insight 2 Brasília.
Sinceramente o potencial de ação no momento em que vivemos é gigantesco! Em minha humilde opinião, temos de cruzar a ponte da ideia, da vontade, da inquietação, da mesa de bar universitária, do estágio no MRE ou numa consultoria chulé, para o empreendedorismo social, prática, mudança organizada e observável, pra não dizer durável. Para pensar em qualidade e quantidade, o retorno pode ser gigantesco: criar redes de solidariedade. Segundo Putnam (2007), a sociedade dotada de redes de confiança e solidariedade horizontais contribui para a formação de instituições mais sólidas. Nessas comunidades existem padrões de confiança, solidariedade e engajamento cívico; as ações são coordenadas entre indivíduos através de regras de cooperação, fazendo aumentar o desempenho das instituições e a eficiência da sociedade. E atuar socialmente, empreender, se voluntariar, não significa parar com o estágio nem com o bar, nem com nada, significa apenas alocar seu tempo de maneira eficiente e vencer o medo e o risco de empreender. Implica em refletir e ter grandes ideias, em atuar. Não existem ações certas e erradas, o indivíduo deve ter a liberdade de pensar e agir (claro que essa discussão é mais complexa), mas existem ações ineficientes e com certeza, na minha humilde opinião, o ócio não criativo é uma delas.
Está na hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor! Estamos falando tanto neste blog de mudar o mundo, de fim do mundo, de viramundo então porque não? Vocês teriam coragem? A questão é dar as mãos, independentemente de uma determinada visão de mundo X ou Y. É o civismo em sua forma pura, atuando para otimizar pessoas, instituições e estruturas sejam elas republicanas, democratas, verdes, psdbistas, petistas, marxistas, liberais, e por aí vai. Não é uma questão de qual utopia é melhor, mas de capital humano necessário para agir na realidade. Quantidade e qualidade!”
Depois desse papo meu chapa se empolgou bastante, disse que era hora de trocar o “brasa mora” pela “mão na massa” e contribuir para o futuro na geração que não viveu a ditadura, pra geração que tem formação clientelista em menor escala, comparada à cultura tecnocrata de pré reforma gerencial de 1995 (ainda que o clientelismo exista), pra geração que julga e prende político corrupto, pra geração que não tem medo, que sai a rua pra gritar contra improbidade, contra o preconceito de gênero, que quer consolidar direitos conquistados pela anterior e conquistar outros, pra geração da mão na massa, do livro, da ideia, do risco, da coragem, do amor, quebrando toda a ideia de indivíduo atomizado que o mundo moderno tentou nos enfiar guela abaixo.
E hoje, meu chapa, é um dos meus principais parceiros no meu atual projeto e nunca mais fomos mais de uma vez por mês no velho bar.
“Transforme você também!”

Último texto de Luiz Fernando Roriz, saindo do PET e tentando humildemente deixar uma mensagem inspiradora. O mundo não é lugar pra pressuposto, nem mesmo esse.

P.S. As referências sem os anos são textos de xerox, como este é um espaço informal, não achei necessário colocar todas dada a extensão do texto, se alguém quiser basta pedir que disponibilizarei.

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