Das baratas humanas e outras patologias do ser

Neste curto ensaio, procuro desenvolver duas cenas hipotéticas sobre as quais uma determinada comunidade pode estar inserida. Não pretendo, por falta de oportunidade, desenvolver claramente os conceitos, mas apenas circunscrever os ideais da bondade e do egoísmo. Sobre a ideia de bondade, pretendo utilizar de uma “arqueologia do conceito”, ao tentar determinar alguns princípios em tese extintos no momento do egoísmo. Dessa forma, creio que vou criar uma base comparativa para caracterizar os sujeitos da segunda cena hipotética. Em outras palavras, vou procurar os limites da bondade para inscrever o surgimento de um novo sujeito, definido, por essência, pelo egoísmo. A fim de antecipação, chamo-o de “barata humana”.

Na cena hipotética da bondade, podemos perceber alguns traços claros sobre a relação entre os seres que compõem a comunidade ao resgatar princípios triviais que se aproximam – porque são insuficientes em termos – do modelo dessa bondade, como a cooperação e o altruísmo. O primeiro retrata uma relação de igual vontade entre os sujeitos, preocupados na igualdade das suas ações, já o segundo foca-se mais nos atos individuais. Em ambos os casos, entretanto, tem-se que o sujeito de análise é um sujeito naturalmente egoísta, e por isso são categorias próprias da segunda cena hipotética. Interpreto aqui como sujeitos egoístas por dois motivos básicos: primeiro, porque a preocupação pela cooperação parte de uma motivação de equilibrar ações que, se isoladas do conjunto dessas ações, demonstram um caráter de salvaguarda, ou de instinto de proteção ao seu próprio indivíduo, e não ao grupo; o altruísmo, em segundo, é mais claro de ser percebido, ou seja, importam ações individuais que respaldam a própria necessidade de se fazer útil – no sentido mais basilar do termo – diante de terceiros, o que deixa claro, novamente, a primazia do indivíduo sobre a comunidade. Apesar dessas considerações de contraste, são eles – a cooperação e o altruísmo – nossas ferramentas ou resquícios da cena hipotética anterior.

A diferença que aqui vale ressaltar é sobre como será tratada a relação dos sujeitos. Poderíamos pensar sobre caracterizar um único indivíduo, mas isso já estaria dentro de um ambiente hipotético de egoísmo. Prefiro caracterizar, ao contrário, o conjunto dos sujeitos pertencentes a determinada sociedade, pois o princípio da bondade exige que, intrinsecamente a ele, seja contemplada a ideia de uma pluralidade una. Essa é a primeira característica resgatada a partir da relação conceito-sujeito. A comunidade regida pela bondade é definida por uma pluralidade una ao resgatar e interconvergir diferentes graus de motivações (motivações e ações são consideradas sinônimas neste ensaio). Ações individuais são impensáveis, pois todas elas são referentes a um princípio de bondade. São equilibradas pois cada sujeito pensa, antes de agir, na felicidade total. Como considero, na cena hipotética de bondade, o agir igual ao da motivação, seu próprio pensamento será pautado por princípios de felicidade. Exclui-se, portanto, termos de competição, de disputa, de conflito e de insegurança. A bondade significa, em termologia egoísta, a suficiência de uma sociedade feliz. É a plenitude de uma pluralidade que procura sempre satisfazer as vontades de terceiros. E por isso é definida em princípio como impossível.

Os seres no momento de bondade, por sua vez, são seres plurais, ou humanos, como gostaria de propor. Ao não considerarem nem no nível das ideias uma materialidade do conflito e da competição, eles obedecem ao princípio geral de benefício externo. Seres humanos ao seu redor são, pela intimidade proposta pelo momento, considerados os responsáveis pela sua felicidade, pois vivem sob constante troca de motivações boas. Os seres humanos agem por bondade não em beneficio próprio, mas porque reconhecem a supremacia do plural sobre o individual – reconhecem num nível instintivo e natural, já que a ideia de individual por si só não pode ser concebida. Por fim, cabe contemplar que a bondade, e assim como o egoísmo, vai ser determinada por uma escolha. Como os seres humanos vivem em liberdade, eles próprios escolhem o ato de bondade. O que irei tratar no parágrafo seguinte, enfim, será o processo de ruptura dos momentos, mostrando que a escolha primeira do ato egoísta determinou a composição da segunda cena hipotética.

O egoísmo surge das motivações individuais, como já falado. Insisto que as categorias para caracterizar o momento da bondade são extraídas do momento de egoísmo, por isso é uma tentativa, falha por muitos, de reconhecer um momento pleno de difícil concepção. Em primeiro lugar, proponho que o momento de egoísmo surge a partir de uma motivação que não contemplou um ato de bondade. Isso pode ser traduzido da seguinte forma: seres humanos, vivendo em comunidade, plenamente suficientes, perceberam o mundo externo como sendo eles mesmos. A diferença é muito sutil, ou seja, transferiram para a pluralidade sua unidade, fazendo com que a comunidade, inicialmente composta por uma pluralidade una, se transformasse em uma unidade plural. Ao terem a escolha de se oferecerem ao mundo externo, erroneamente interpretado como uma unidade plural, por instinto os seres humanos não trocam atos de bondade, pois definem que estarão agindo para uma unidade e não uma pluralidade. A estagnação dos atos de bondade passa a compor um círculo vicioso. Tem-se, então, o início da cena hipotética de egoísmo.

Esse momento, sinteticamente, pode ser bem caracterizado por categorias próximas das que então possuímos. Ao terminar os atos de bondade, tudo fará sentido quando motivado por interesses individuais – aqui já se reconhece os interesses individuais, que seriam uma materialização da unidade temida pelos seres humanos. Surge daí a competição, pois o ganho individual será mais satisfatório do que a felicidade geral. Os atos são ordenados pelo egoísmo, pois tudo será em função de uma unidade. As mesmas categorias de cooperação e altruísmo são também formas de egoísmo, como reconhecemos mais acima. O agrupamento dos sujeitos, então, não mais pode ser concebido como uma comunidade, e a interação não mais é controlada pela bondade. Ao contrário, esses indivíduos formam agrupamentos pela necessidade básica de se colocarem acima de outrem – algo impossível se fossem seres isolados. Portanto, a máxima do egoísmo é conviver pois isso garante competição, trocas de valores, e conflitos de toda ordem. Passo ao desfecho da convivência egoísta, que é a caracterização dos indivíduos que nomeio baratas humanas.

As baratas humanas são os sujeitos mais evoluídos da convivência egoísta. Vou esclarecer o porquê de sua denominação: os sujeitos, no momento egoísta, favorecem tudo em prol de sua individualidade, ou seja, resgatam características que fortalecem suas posições no grupo. O mais bem localizado, por teoria, é aquele que, na competição de todos, se mostrou o mais altruísta e cooperativo, ou sendo mais direto, o indivíduo que mais camuflou seu egoísmo pelos atos cínicos de bondade. Por isso a parte humana. Exponho agora a marca identificatória do sujeito egoísta, o lado “barata”. São baratas os seres não mais regidos por princípios de bondade, de “ética” e “moral” – mais uma vez, conceitos do momento egoísta que somente servem de referência ou resquício para nosso pensamento. Ao contrário, são baratas pois toda a criatividade limitada é condicionada ao instinto básico de sobrevivência em um mundo de competição.

As baratas humanas são, portanto, sujeitos típicos ideais de um agrupamento egoísta. Não se preocupam com atos de bondade, e se detém na noção do ganho único. Por isso, são elas as responsáveis por ordenar e manter o próprio estado egoísta. Suas motivações tendem a maximizar a tristeza generalizada, assim como priorizar as satisfações que causam danos a terceiros. É interessante refletir sobre isso: mesmo não sendo proposital, pois é intuitivo e inato da barata humana, o fato é que a sustentação de sua posição só será possível através desse mecanismo de conflito. Na convivência egoísta, assim, pode ser percebida essa dicotomia: tentativa de exclusão e sofrimento do externo; necessidade de manter o sujeito externo para a conclusão dessa exclusão. Naturalmente, essa dicotomia convergirá para um único patamar egoísta. As baratas humanas, enfim, são sujeitos dados de uma convivência que privilegia motivações exclusivamente contrastantes. E por isso mesmo o termo se encaixa no cenário: são seres intuitivos para a satisfação própria, mas que mantém uma fachada cínica de cooperação e altruísmo para a plenitude desse ambiente propício.

Faço, porquanto, algumas considerações finais. A primeira diz respeito ao processo evolutivo dos seres humanos e das baratas humanas. A única proposição, que assim considero, é a de que o cenário egoísta somente toma forma através do ato egoísta, e por isso mesmo exigiu-se inicialmente um cenário de bondade. Isso, todavia, não significa evolução como a passagem de um momento pior para um melhor. As baratas humanas consideram como tal pois dependem, necessariamente, desse artifício. De forma oposta, considero que o momento egoísta é uma deformação de uma cena hipotética de bondade, e que a própria concepção de evolução já é uma categoria egoísta. Aos seres humanos, as diferenças de motivações não são definidas em graus ou por hierarquia, já que todas elas possuem o objetivo final que é a felicidade. Além disso, ressalto que trato de cenas ou momentos, e portanto a temporalidade e a mutabilidade entre um e outro são inconstantes e imprevisíveis, tudo dependendo da atuação dos seres com seu exterior. A segunda consideração relaciona-se com a interação entre os seres de ambas as cenas. Como são seres localizados em pólos opostos, todas as suas motivações também serão opostas. Enquanto o ato de bondade é simples por natureza, o ato egoísta é articulado, construído, planejado. A terceira consideração é, por fim, sobre a superação do momento egoísta. Interpreto que a convivência egoísta só é superada quando, posto num limite em que a dicotomia se dilui no único interesse de exclusão, o agrupamento se fragmentará até o ponto máximo de dois sujeitos. Estes, por fim, são levados – assim espero – pela necessidade da bondade ao reconhecerem que a humanidade depende, por essência, da simplicidade – que é plena, plural e não pretensiosa.

Daniel Vasconcelos é petiano.

Mais do que demonstrar minhas posições sobre o que considero válido para a vida humana, proponho uma reflexão sobre as nossas próprias ações em sociedade ao tentar “hiperbolizar” dois extremos da ação humana. Por vezes, podemos não reconhecer o “retorno” de certas motivações, mas somente fazendo com que nossa realidade seja posta em questão é que realmente saberemos o que nos move em direção à felicidade – por mais contrastante e diversificado que ela seja.

 

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