Síndrome da patologização compulsiva?

“If you talk to God, you are praying; 

 If God talks to you, you have schizophrenia.” Thomas Szasz

Primeiramente, alguns dados:

Cerca de 20 milhões de crianças já foram diagnosticadas como portadoras de transtornos mentais e tratadas com fortes antidepressivos; segundo a IMS Health Brasil, 34,6 milhões de capsulas contra a depressão foram vendidas no primeiro semestre de 2011; cerca de 340 milhões de pessoas se encaixam como depressivos, 13 milhões só no Brasil, de acordo com a OMS; entre 1987 e 2007, o número de pessoas incapacitadas por transtornos mentais nos Estados Unidos passou de 1 em 184 para 1 em 76 sendo que o número de crianças diagnosticadas, neste mesmo período, aumentou 35 vezes; atualmente cerca de 10% das pessoas com mais de 6 anos tomam antidepressivos nos EUA; e, por fim, a venda de antidepressivos movimenta cerca de 13 bilhões de dólares anualmente.

Este texto tomará como base, principalmente, o artigo da médica e escritora americana Márcia Angell, intitulado “A epidemia da doença mental”, além de propor algumas reflexões acerca do próprio conceito de doença mental e o caráter subjetivo e temporal de certas doenças como a depressão.

Entre 2001 e 2003, um estudo realizado pelo Instituto Nacional de Saúde Mental constatou que, em uma amostra de adultos selecionados de forma aleatória, 46% encaixava-se nos critérios da Associação Americana de Psiquiatria (APA) por ter tido uma doença mental em alguma fase da vida em uma categorização de quatro tipos de transtornos – ansiedade, humor, controle dos impulsos e causado pelo uso de substâncias. A principal forma de tratamento destes transtornos passou de uma psicoterapia – “terapia da conversa” – para o uso de drogas psicoativas. A causa dessa mudança é, principalmente, a aceitação da teoria de que doenças mentais advêm de desequilíbrios químicos no cérebro que devem ser corrigidos com o uso de certas substâncias.

Essa teoria, porém, apesar de ter sido amplamente aceita pela mídia e por psiquiatras, é alvo de muitas objeções. Robert Whitaker, autor de Anatomy of an Epidemic (2010), por exemplo, afirma que essa teoria se difundiu após o aparecimento no mercado de drogas que afetam o nível de neurotransmissores, como o Amplictil, em 1954, que passou a ser usado para acalmar pacientes com quadros de psicose, o Miltown, em 1955, usado para o tratamento de ansiedade e o Marsilid, em 1957, para o tratamento de depressão.

Fatos importantes: inicialmente, não se sabia muito bem como essas remédios funcionavam posto que não foram desenvolvidos especificamente para o tratamento desses transtornos e sim derivados de remédios para infecções. Ao se descobrir que eles mudavam a concentração de certos neurotransmissores, postulou-se que a causa das doenças mentais era exatamente um desequilíbrio nesses elementos químicos que poderia ser solucionado com o uso de certas drogas. Uma lógica inversa se deu: ao invés de um medicamento ser desenvolvido para o tratamento de uma anormalidade, uma anormalidade foi postulada para adequação a um medicamento visto que como antidepressivos aumentam os níveis de serotonina, concluiu-se que a depressão é causada pela falta de serotonina ou como o Thorazine atenua o nível de dopamina, passou a se defender que a causa da esquizofrenia e outras psicoses é o excesso de dopamina no cérebro. Como bem afirma Angell, de acordo com essa lógica, as “febres são causadas pela escassez de aspirina”.

Mas o principal argumento contra a teoria do desequilíbrio químico é que, apesar das práticas psiquiátricas terem se transformado, medicalizando-se cada vez mais devido a esta teoria, não há comprovações científicas a seu favor além dessa lógica inversa facilmente criticável exposta acima. Whitaker chega a afirmar até que, em alguns casos, a pessoa só apresenta um desequilíbrio químico no cérebro após o inicio do tratamento com substâncias psicoativas.

De acordo com o professor da Escola de Medicina de Harvard, Leon Eisenberg , a psiquiatria passou, no final do século XX de uma fase “descerebrada” caracterizada por uma falta de interesse dos psiquiatras em aspectos físicos do cérebro dando mais peso a análises freudianas do inconsciente, para uma fase “desmentalizada” na qual o contexto de vida da pessoa ficou cada vez mais de lado priorizando-se a redução dos sintomas através de medicamentos. Quando ficaram claros os efeitos negativos dessa ampla medicalização, houve uma divisão na psiquiatria e um movimento antipsiquiatria relatando e criticando os abusos daquela ganhou forma.

Uma das preocupações desse movimento é a extensão com que a indústria farmacêutica influencia na decisão do que constitui uma doença mental e como estas devem ser tratadas. Uma menção ao manual que “estabelece os critérios de diagnósticos” dos transtornos mentais, o DSM – Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – é necessária.

A primeira edição (1952) e a segunda (1968) condiziam com a visão freudiana acerca da doença mental, ou seja, davam importância a questões do subconsciente, e não eram muito conhecidas em outras áreas. Já a terceira edição, publicada em 1980 – como já vimos, época em que houve uma mudança na forma dos diagnósticos e tratamentos na área dos transtornos mentais – representou uma ruptura com as edições anteriores sendo um produto desse modelo biológico com foco na química cerebral. O número de diagnósticos subiu de 182 para 265 e ficou amplamente conhecido em diversas áreas. Seu objetivo principal era trazer uma maior confiabilidade no diagnóstico do psiquiatra, mas também “justificar o uso de drogas psicoativas”. Amparado em grande medida na opinião dos seus formuladores e na falta de referências científicas, o DSM começou a ser de grande interesse da indústria farmacêutica – esta passou a subsidiar as reuniões da Associação Americana de Psiquiatria (APA) e a lhe oferecer um grande financiamento. Outro dado interessante é que dos 170 colaborados do DSM IV, 95 estavam ligados financeiramente a laboratórios farmacêuticos. E, ao que parece, o DSM V, previsto pra ser publicado em maio de 2013, será ainda mais interessante para a indústria farmacêutica já que parece que novos diagnósticos vão ocupar a vasta lista de transtornos mentais.

Thomas Szasz, em The Myth of Mental Illness (1960), ao se perguntar se “existe tal coisa como a doença mental” afirma que esta funcionaria mais como um “mito conveniente”. Em relação à ideia mais aceita entre os psiquiatras da doença mental como uma doença que afeta o cérebro através de disfunções físico-químicas, que já foi tratada anteriormente, Szasz a critica afirmando que esta ideia apresenta um erro fundamental: para Szasz, doença mental não é um problema no cérebro – de forma análoga a um problema no coração ou no estômago – e sim um “problem in living”, ou seja, não seria um defeito neurológico, mas um problema na vivência. Dessa forma, não há como explicar certas crenças (por exemplo, um paciente que acha que está morto ou que é Napoleão) através de um defeito no sistema nervoso. O autor chama atenção, também, ao fato do humano moderno não se estressar mais tanto com a sobrevivência biológica, mas sim com as tensões inerentes ao convívio social. Assim, para o autor, enquanto doenças no corpo são caracterizadas por desequilíbrios físico-químicos, “doenças na mente” são acontecimentos psicossociais. Ao negar a existência da doença mental, Szasz não negligencia e muito menos põe de lado, as implicações sociais e psicológicas que geralmente são atreladas a ela. O modelo de Szasz, baseado nessa luta conflituosa inerente das relações sociais, pode ser muito elucidativo e representou um avanço em relação ao modo estritamente biológico e simplista de entender a doença mental, dando importância ao que um desequilíbrio na ordem do simbólico pode causar nas narrativas de entendimento do mundo de um indivíduo.

É com esse foco no caráter simbólico da experiência e na subjetividade que Maria Rita Kehl, psicanalista brasileira, analisa a depressão. Em seu livro “O tempo e o cão: a atualidade das depressões” (2009), Kehl relaciona a depressão com a experiência com o tempo na sociedade capitalista contemporânea afirmando que os depressivos seriam, assim, aqueles que não se ajustaram ao tempo rápido – que pode ser bem exemplificado pelo jargão “tempo é dinheiro” – característico da época. Com a sua reflexão sobre o tempo, utilizando conceitos de filósofos como Henry Bergson e Walter Benjamin, a autora situa a depressão como um “sintoma social” da contemporaneidade.

Pra finalizar, com o DSM V a categorização da sociedade por transtornos aumenta. Aquelas crianças muito birrentas não vão ser só chatas, vão sofrer de uma “desregulação do temperamento por disforia”; adolescentes muito extravagantes não serão só excêntricos, terão uma “síndrome do risco psicótico”; indivíduos que demonstrarem um interesse considerado além do normal por sexo terá um “transtorno hipersexual”. A medicalização e a patologização da vida está se tornando cada vez mais comum. Talvez seja o caso de nos perguntarmos se essa situação se agravará a tal de ponto de psiquiatras descobrirem qualquer coisa como uma “síndrome da patologização compulsiva”.

Da petiana Laryssa Teles, que termina este texto com mais perguntas do que respostas, de uma forma sinceramente despretensiosa e consciente de que este tema rende muito pano pra manga.

BIBLIOGRAFIA

ANGELL, Márcia. A epidemia da doença mental. Revista Piauí, nº 59, ago/2011.

SZASZ, Thomas. The Myth of Mental Illness. American Psychologist, 1960. Disponível em: www.szasz.com

KEHL, Maria Rita. O tempo e o cão: a atualidade das depressões. São Paulo: Boitempo Editorial, 2009.

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2 comentários em “Síndrome da patologização compulsiva?

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  1. É um grande avanço que se queira discutir assunto tão técnico e complexo, visto que temos três Ciências ou práticas clínicas que se dedicam ao assunto distúrbio psicopatológico, a saber: Psicologia, Psiquiatria e Psicanálise. Diz-se que são ciências filhas ou inspiradas na Fenomenologia criada por Schopenhauer, inspirado em Platão e seu conceito de IDÉIA.
    A Medicina ainda não bateu o martelo quanto a capacidade das condições emocionais afetar patologicamente a fisiologia, causando doenças, como agente etiológico ativo e único. Por outro lado alguns médicos inspirados pelo Holismo de Hipócrates e outros médicos lastreados pela Teoria dos Sistemas Gerais tentam harmonizar causas complexas para o diagnóstico certeiro.
    O cérebro é uma máquina complexa e ainda misteriosa. Como eu sou um tanto holista e fenomenologista prefiro me alinhar com aqueles que acreditam no enorme poder da mente para no jargão Nietzsceriano representar a reallidade segundo padrões mentais subjetivos da realidade, únical por que não possui acesso a outras referências de outras realidades.
    Cada pessoa é um mundinho tentando camuflar-se no mundinho presumido do outro, fingindo endendê-lo e interpretá-lo de acordo com as expectativas sociais normais. Quando este acordo é rompido com a instituição da normalidade tem-se um problema psicoativo que pode somatizar-se em patologia fisiológica, com todas as consequências.
    Não quero dizer que todas as patologias originam-se do estado emocional, mas algumas sim. Como também isto não autoriza pensar que todo problema psíquico transofrmar-se-há em problema orgãnico. Alguma coisa liga mente e corpo muito mais do que querem crer os médicos alopatas e muitomenos do querem crer os psicoterapeutas. encontrar o ponto de equilíbrio, eis a questão.

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