Conflitos Armados – Quando se envolver?

Recentemente assisti a um vídeo no site Council on Foreign Relations, onde o interlocutor, James M. Lindsay, trata do surgimento do America First Comitee, um movimento criado no ano de 1940 e que apelava pelo não envolvimento dos EUA no conflito em curso na Europa. No final do vídeo, Lindsay apresenta a seguinte questão: quando os EUA deveriam intervir em guerras no exterior? Embora a pergunta seja direcionada aos EUA, fiquei imaginando a questão de maneira mais holística. Quando um país deveria se envolver em conflitos armados? Nesse sentido, utilizarei esse texto para fazer uma breve reflexão, em grande medida desinformada, sobre a questão.

Antes de entrar nos motivos, contudo, é importante ressaltar que o engajamento em conflitos armados é algo que deve ser visto como último recurso e que, dessa forma, só deve ser utilizado caso se esgotem todas as outras vias de negociação e as necessidades ou interesses sejam muito consideráveis. Afinal, guerras geram muitos tipos de custos e em grande quantidade. Provocam mortes, geram ódio, desarticulam economias, promovem gastos excessivos, etc.

Dois Motivos

De qualquer forma, indo direto ao assunto, eu diria que existem dois motivos básicos e principais – mas não únicos – para o envolvimento do país numa guerra. Primeiro, a existência de uma ameaça real e/ou potencial à soberania do país em questão. Segundo, quando os interesses políticos, econômicos e geoestratégicos do país estejam ameaçados. Esses dois motivos podem, contudo, serem aglomerados em um único motivo mais amplo, a saber, a existência de uma dinâmica de poder entre os Estados que seja prejudicial e/ou potencialmente prejudicial aos interesses do país em questão.

 Duas Críticas

Uma possível crítica a ser feita em relação a esses motivos é que eles ignoram o papel dos “valores” ou da “moralidade”. “Um país, fundamentado nos motivos propostos, poderia se engajar em uma guerra injusta, e que não está certa.” Diriam esses críticos. Contudo, como eu tentei argumentar no meu último texto, se a concepção de justiça está sujeita a variações de tempo, espaço, cultura e subjetividade, na verdade, não existe essa suposta justiça. A busca pela justiça nas coisas não passa de um exercício mental que não se pauta na realidade palpável, apenas numa abstração. No caso da moralidade – que está intimamente relacionada à justiça, mas não necessariamente é a mesma coisa – temos um quadro parecido. Diferentes concepções de moralidade que estão sujeitas às mesmas variáveis das concepções de justiça. Portanto, uma preocupação com a justiça ou com noções de certo e errado perante eventos onde a própria existência – de uma nação, de um grupo, etc – ou interesses de grande magnitude material estão em jogo, não seria prudente. Não vou me alongar mais sobre esse assunto, embora ele me desperte grande interesse.1

Outra crítica, ainda relacionada à anterior, é que os motivos não permitem a intervenção em um conflito para, por exemplo, impedir uma chacina étnica. Isso é verdade. Mas não vejo problema algum com esse tipo de intervenção. Creio somente que esse tipo de uso do aparato militar deva ser feito de maneira sábia. Condoleezza Rice (sim, ela mesma), argumenta que as forças militares, não foram preparadas para o policiamento ou para promover referendos. Elas são preparadas para serem letais e eficientes na promoção de objetivos políticos. (Rice, 2010) Além disso, ela também afirma: “humanitarian problems are rarely only humanitarian problems; the taking of a life or withholding of food is almost always a political act.” (Rice, 46, 2010) Portanto, uma intervenção militar com comprometimento humanitário sem levar em consideração as dimensões políticas do conflito que se pretende eliminar pode gerar mais fatores negativos do que positivos, tendo em vista que os militares irão se inserir numa dinâmica de poder à qual eles desconhecem. Isso pode alongar sua estadia e gerar a necessidade de atividades de policiamento, state-buldingou outra atribuição peculiar para as funções das forças armadas.

Conclusão

Posso concluir dizendo que, em minha opinião, a resposta para a pergunta do início do texto está fundamentada no interesse e na segurança. A tentativa de crítica dessa perspectiva por meio de argumentos relacionados a noções de justiça e moral esbarram no relativismo desses campos e a crítica referente a possíveis intervenções militares de caráter humanitário não procede por essa conduta não ser absolutamente antagônica com os dois motivos. Além disso, é importante frisar que o engajamento militar deve ser considerado apenas como último recurso.

 

Um texto do petiano Matheus Borém

Textos utilizados ou que influenciaram diretamente:

The Iraq Papers. John Ehrenberg, J. Patrice McSherry, José Ramón Sánchez e Caroleen Marji Sayej. 2010. Oxford University Press

Guerras Justas e Injustas. Michael Walzer. 2003. Martins Fontes

Diplomacia. Henry Kissinger. 2007. Gradiva

History Lessons. James M. Lindsay

http://www.cfr.org/#video3_0caa0518ceea1ba4d3b1aa6ee2352ad8

 

1 Em relação a esse debate, recomendo a leitura do Diálogo de Melos do Tucídides; do Leviatã de Thomas Hobbes e do capítulo 2 do livro Diplomacia de Henry Kissinger.

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Um comentário em “Conflitos Armados – Quando se envolver?

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  1. Quem participou de todas as guerras nos últimos cem anos, participou de mais de 200 guerras desde 1776, cometeu o maior genocídio da história da humanidade com armas atômicas, possui mais de 765 bases miliares em mais de 160 países?
    Parece que a humanidade já espera que sempre que um conflito se deflagre em algum canto do mundo, estará sempre por perto uma guarnição de Marines pronta para restabelecer o equilíbrio militar pelos omnipresentes paladinos da paz mundial.
    Palavras proibidas pelos cientisas políticos e sociólogos em geral o conceito de “absoluto”, discriminado pelo pensamento liberal encontra nos conceitos de liberdade, democracia uma exceção.
    Já se falou em “O fim da História”. É claro que eu discordo, democracia e libertade não são conceitos absolutos, nem se aplicam a qualquer circunstância, época e civilizações como panacéia, mito menos o cristianismo.
    Gostaria de ver, antes de morrer, algum cientista social relativizar e refutar o absolutismo de “democracia” e de “liberdade”, tótens sagrados e adorados como sacramentos dos ideiais ocidentais. Isto é ciência?

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