Na estrada!

Sim, aqui estou eu, comendo lasanha de caixinha e tomando um vinho barato cujo nome por respeito omitirei, e eis que penso em tudo o que já foi pensado e sinto vontade de gritar, de pedir, de implorar, de joelhos, humilhado, no chão, cuspido, ferido, abandonado, com raiva, com vontade, em liberdade, sentindo, por favor: DÊEM UMA CHANCE À LITERATURA!

Penso muito no mecanismo cujos doutos preferem nomear “processo criativo”. Não sei, minha impressão é que cada pessoa o possui de forma e intensidade diferente. Penso, contudo, no que levou grandes mentes como Goethe, Joyce, Orwell, Shakespeare, Kafka, sei lá, uma infinidade de gente a sentar à luz de uma vela lampião à gás elétrico e escrever à mão tudo aquilo que foi os deuses sabem que foi escrito. Penso de volta no processo de apreensão disso tudo. Existem certas músicas de Jazz, devo dizer, cujo ápice da forma livre, a improvisação é antecedido por um tema ou qualquer outra estrutura musical menos intensa. Sim, estamos ali, todos nós, a escutar, sendo preparados para o momento em que tudo acontecerá. Ouve-se o tempo, ritmo, acompanhamento dos instrumentos graves, algo quebra, mudança de velocidade, algo está por vir, pode-se pressentir, apostaria minha vida que algo está vindo, oh, está vindo, quase lá, no local certo, não pare e BANG! Explode com a sua cabeça, o instrumento e o músico se tornam um, são despidos de tudo o que os blinda estruturalmente, sociedade, valores, moral, ali ficaram nus de tudo o que os determina e conseguem abrir o peito à facadas para deixar sair a mais pura expressão pessoal, profunda, sentimental, individualista. Na melhor acepção bondosa da palavra. Novamente, eis que penso no processo de apreensão da literatura, não precisamos ser gênios, se é que isso existe, como tais escritores para sermos capazes de sentir. Assim como não precisamos saber as estruturas de improvisação musical para perceber o ápice de uma música quase sexual, permitam-me a analogia. BANG! acerta seu cérebro como um martelo e simples palavras, uma história, se tornam algo impressionantemente, impressionista realmente, expressivamente direta, da mente daquele grande autor para o coração de um grande leitor.

É claro, não são todos os livros que possuem este raro dom, mas por favor, senhoras e senhores, dêem uma chance à literatura! Se o mundo fosse simples, a arte não existiria, creio que foi Schopenhauer quem disse isso. Você já leu Schopenhauer? Leu Schopenhauer? NÃO leu Schopenhauer? Woah, azar o seu. OU deveria dizer, sorte a sua??? Sim a literatura muitas vezes é como a improvisação do Jazz, tem um fluxo, um ritmo, um fluído que alimenta até as almas mais sedentas por qualquer sensação verdadeiramente honesta, direta, perigosamente dileta. Poderia ser chato e dizer: “Puxa, a academia tem seu valor, puxa vida, não posso obter mais prazer que lendo Stuart Mill ou sei lá, Newton”. Poderia dizer: “Acho que no mundo de hoje, ninguém lê mais literatura”. Mas quer saber? Que papo chato, reclamão! Desconheço os dados reais que poderiam me mostrar que nunca leu-se tanto. A questão não é essa, este manifesto em prosa vem no ritmo alucinado de um coração latente. Se lê-se ou não, se é bom ou ruim, grito honestamente, cavalheiros e cavalheiras, apenas: DEEM UMA CHANCE À LITERATURA!

POW! Poderia dizer que grandes histórias assim como grandes pensamentos são mais que benéficos à saúde mental. Mas não! Se sou fanático pela prosa não posso ser vendedor desonesto. Benéficos a saúde mental apenas no sentido de curá-la do mal de ser excessivamente normal. Porque mal poderia afirmar que a tal literatura sem sal não é pior que jornal, afinal, pode muito bem fazer apenas mal! Outro dia me peguei vendo a epígrafe de “O sol também se levanta” do Hemingway na edição que eu tenho. Era, é claro, da querida Gertrude Stein. WOW, em duas citações eis o que ela diz: O artista não deve lamuriar-se por perceber o mal do mundo, mas antes, deve fornecer antídotos ao mesmo. PORÉM, logo em seguida ela completa: Vocês são TODOS uma geração perdida. Hilário! Veja você que se o artista é responsável por fornecer o antídoto ao mal do mundo, deve ser ele, ao contrário, o mais desesperado, talvez mais que os que precisem realmente de um antídoto. Justo porque, se cabe ao paladino literato prescrever um remédio ao mal do mundo é justamente porque ele o percebe. BANG! E pior ainda, não só o percebe como o sofre em toda sua intensidade seja qual esse mal maluco maligno, malandro, malgrado, maléfico, maltês for! Veja você que de um doente, não pode surgir um remédio. Poderia gritar a falácia de que a literatura só trará benefícios à saúde mental, mas como disse acima, QUE MENTIRA, de quem não vive a felicidade não pode sair a descrição dela. Lembro de Hermann Hesse em “Quem pode amar é feliz” descrevendo o amor. Hilário! Ele deixa um pouquinho implícito sobre a questão do amor platônico ser indescritível. Como se pode descrever o amor ideal para os imersos no chamado “amor real”, aliás, como se pode descrever o amor ideal pura e propriamente dito! Camões me perdoe, mais de “cem sonetos para amar o amor” que é fogo e arde sem se ver só posso extrair que tal ideia da ferida que dói e não se sente não pode ser outra que um processo explicitamente alucinógeno. Não desejo entrar nesse mérito do amor cuja discussão pode levar meses, anos, séculos, éons, e vocês sabem que à época da companhia das índias orientais camonianas existia muito ópio, :) Apenas quero dizer que nem tudo na literatura são maravilhas, muitas das saídas propostas por estas grandes histórias nos levam justamente ao fato de que não há saídas, satisfatórias pelo menos, ou operacionalizaveis. Eis que o super homem de Nietzche é um “super” homem e o héroi do absurdo de Camus é um herói, mas e o sujeito normal? Deus, podemos usar o ilícito como Harry Haller em o “lobo da estepe”, o místico como o asceta “Karamazov”, o conformismo psicopata de Holden de “o apanhador no campo de centeio”, talvez até o isolamento Thoreauniano. UHH, talvez até desconstruir a forma dadaísticamente e eis que à isso dedico uma linha de reticências

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Mas a conclusão de toda essa bagunça filosoficamente errônea, artísticamente política, é que apesar de ter o potencial de exterminar seu eu interior eu ainda rogo-lhes meus caros irmãos em armas, rifles feitos do karma extraído da vanguarda errada: dêem uma chance à literatura!

MASOQUISTA! Gritarão! “Porque procurar aquilo que pode excessivamente me conduzir à dor”? (ainda que possa também conduzir a felicidade!) “Porque perder meu tempo lendo devaneios de gente doida ou mais perdida que um cego em meio ao tiroteio?”.

Bem, e eis o final desse simplista e honesto manifesto em prosa. Três ou quatro motivos apresentarei. O primeiro: Aquela conversa da tia do ensino fundamental de que poder-se ia conhecer e atingir novos mundos através da imaginação, bem, NÃO é mentira. Hilário. Na verdade, conhecer uma grande história é refletir o tempo todo, a catarse não se encerra ao chegar à última página. Se nenhum final é feliz justamente por ser um final, a literatura apresenta o alcance do infinito. Fecho o livro agora e pensarei nele durante o dia de amanhã, de depois de amanhã, de Páscoa em 2028. Isso porque o objeto da literatura é o mesmo, o humano, e o humano tem dois braços e nariz desde que é humano, da grécia antiga ao egoísta atual, o humano degladia-se com o processo misterioso chamado viver e quem sabe vivamos até a Páscoa de 2028?! Ao longo de nossa efêmera existência conhecer o trajeto e as lições de outros companheiros de trincheira é tão bom quanto ruim no mínimo impressionante. E eis o segundo motivo. Literatura pode ser um meio de argumentar, pode ser um meio de se declarar, racional inclusive, muitas vezes. Mas se chamamos de arte é porque é tanto calculista quanto sentimental e é disso que sinto ânsia todos os dias de uma medíocre existência: Sentir. Sim, se a tristeza é a minha sina, já diria Camus, prefiro senti-la em sua intensidade. A pedra não é viva porque não reage. Seja lá o que for viver, o fato é que vivê-lo é a cabalística prática milenar de existir. Rogo todos os dias por uma sensação, qualquer que seja e eis que a literatura a apresenta, o amor de Turgueniev, o ódio de Winston Smith, a vingança Montecristense, a loucura Cervantista, o suor de Mersault, a paixão de Werther, a fé de Kerouac. Sintamos, senhoras e senhores! Leiamos, senhoras e senhores! Vivamos! A terceira e a quarta razão, deixo em mistério, tenho certeza de que as cavalheiras encontrarão por aí, em um ou outro capítulo. Despeço-me tão próximo de vocês quanto vosso espírito. Amo a todos inteiramente pelo que são e se por amor somos capazes de tudo, peço-lhes humildemente: DÊEM UMA CHANCE À LITERATURA!

Texto escrito por Luiz Fernando Roriz, pós “Na estrada” de Walter Salles.

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5 comentários em “Na estrada!

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  1. Seu texto ficou muito bom, Luti. Escrita livre, fluxo de consciência… e uma bela lição (o mantra “dêem uma chance à literatura”).

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