Em defesa do Programa de Educação Tutorial

Recentemente foi divulgada uma matéria com um título em tom apocalíptico como “A crise do PET”. O foco da matéria era na realidade no atraso do recebimento das verbas e dos demais recursos aos quais os grupos PET possuem direito. Entretanto, ao delinear a trajetória do PET, a matéria menciona a mudança de perfil pela qual a concepção de Programa de Educação Tutorial passou nesses últimos anos: de um grupo de pesquisa e ensino destinado a formar a elite da universidade a um “instrumento de extensão universitária”.

Eis o grande mal que eu vejo na imprensa: descrever com tanta propriedade algo que os próprios não vivenciam no dia-a-dia ou sem uma pesquisa mais minuciosa. De fato, o PET mudou bastante nesses últimos anos. Para começar, quando foi criado seu nome era “Programa Especial de Treinamento”, o que poderia ser uma evidência da sua aspiração inicial de se formar uma “elite acadêmica”.

O Programa foi instituído oficialmente apenas em 2005 pela Lei 11.180, que previa a instituição do PET no âmbito do Ministério da Educação (MEC) com o objetivo de “fomentar grupos de aprendizagem tutorial” (Art. 12º). Entretanto, ainda hoje poucas pessoas sabem o que realmente significa essa aprendizagem tutorial.

Os princípios fundamentais da Educação Tutorial podem ser resumidos como a tentativa de proporcionar uma formação humana integral e sólida, criando mecanismos que facilitem a contextualização e a resolução de atividades que almeje o desenvolvimento de competências. A atividade de tutoria busca uma orientação praticamente diária, sem, no entanto, ser impositiva, promovendo um ambiente de cooperação e troca1.

Trazendo um pouco da experiência do dia-a-dia, o PET é isso e mais um pouco. O PET é um espaço que traz o aproveitamento de 100% do que a universidade tem a oferecer: atividades de pesquisa, ensino e extensão, compartilhamento de visões distintas de mundo, discussões e socialização. No PET, não apenas se aprende a como fazer um artigo acadêmico ou uma pesquisa – o que já é importante – nem apenas a organizar uma série de atividades que visem a aprendizagem conjunta, mas o mais importante no PET se aprende a respeitar o outro ou a outra, a conviver com diferenças que pareciam irreconciliáveis, a aprender com essas diferenças e até mesmo a gostar dela.

Arrisco a dizer que grande parte dos ex-membros do PET – ao lembrar os bons momentos passados nesse espaço de integração – falariam não apenas no conhecimento adquirido, mas também das risadas dadas em conjunto, dos momentos de superação de dificuldades, das conversas na salinha e dos momentos compartilhados.

Porque se eu fosse descrever o PET em uma palavra, essa seria “conjunto”. Ou então, completude. Muito mais do que um processo de aprendizagem de competências, o PET é um processo de conhecimento de si mesmo, de seu papel na universidade, na sociedade e na vida. E a adição do elemento da “extensão universitária” foi fundamental nesse processo. Não se trata de voluntarismo social, por favor, nem de assistencialismo. Mas de novamente de troca, de combate ao elitismo de se prender o conhecimento aos muros da universidade, de lutar contra a hierarquização dos vários tipos de conhecimento, em que o acadêmico é superior. Porque o PET também é isso, é acreditar em um mundo em que as relações sejam mais igualitárias. É mais do que acreditar, é agir para que isso aconteça. E agir em conjunto.

E é por isso que às vezes é triste ver que cotidianamente quando se pensa em PET, o foco é outro. Para alguns, a primeira ideia que se vem é um grupo extremamente fechado, de difícil acesso. Mas a verdade é que o PET é um conjunto de ideias e de sonhos. Porque a universidade também é feita de sonhos… o sonho de entrar, de se formar, e principalmente o sonho de mudar o mundo.

Um texto de Nayara Macedo, que se despede do PET e logo mais da universidade.

Ref. Legislação PET:

http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=12227%3Aprograma-de-educacao-tutorial-pet&catid=232%3Apet-programa-de-educacao-tutorial&Itemid=481

1 Educação tutorial no ensino presencial: a experiência do PET na UFMS. Prof. Dr. Paulo Irineu Koltermann e TAE Eladir Luiza Trevellin da Silva. 

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