Normalidade

Não existe essa de ser louco
É tudo eu, é tudo você
Somos nós
Simples, comuns, iguais
Mas nem somos tão normais assim
E o que nos torna diferentes
É justamente ser assim
Um outro qualquer
Que não muda em nada
Mas difere em tudo
Ser desse jeito
Loucamente apaixonado
Perdidamente maluco
Buscamos ser assim
Porque só a vida não nos basta
É preciso vivê-la
Muito mais do que tê-la
Sentir
Não nas mãos
No peito
Pulsando dentro de nós
Mas nada disso faz sentido
Somos loucos
E loucos não devem ser ouvidos
Eles quase sempre têm razão

A palavra normal vem de normalis – regra – e, etimologicamente, quer dizer “aquilo que não se inclina nem para a esquerda nem para a direita” (MISKOLCI, 2003, p. 110); é como deve ser, a partir de um padrão adotado. Até o início de 1800 referia-se à uma ortogonal; com Auguste Comte recebeu a sua primeira conotação médica. Ocorre uma intersecção entre os conhecimentos médicos e os conhecimentos sociológicos, uma vez que ambos buscam classificar, categorizar e, como o próprio nome sugere, normatizar comportamentos e expressões.

A ideia é que seria possível, a partir de um padrão pré-estabelecido, determinar o lugar dos objetos e das pessoas, medi-los e sistematizá-los. Dessa forma, todas as coisas seriam pensadas a partir desse padrão; caso houvesse algum desvio, aquilo já não seria mais normal, não atenderia os critérios de normalidade. Assim, seria “anormal”, “estranho”, “errado”.

Contudo, é interessante notar que é difícil delimitar o que seria normal; cada um utiliza a sua razão, a partir de suas próprias medidas, moldadas por meio de suas experiências, crenças, trajetórias e subjetividades, para traçar os limites do normal. Vale ressaltar, também, que ainda mais difícil é estabelecer o contrário da normalidade: utilizamos várias palavras, tentando delimitar o que seria, mas nada parece ser capaz de apreender todo o significado que o signo pretensamente deveria significar. Não é possível normatizar o “anormal”.

“O louco, através de suas ações, ameaça a frágil teia social e passa a ser considerado disruptor e obstáculos àqueles atos cotidianos que são orientados pelos sistemas de classificação do inconsciente que integram a cultura local” (dos Santos et al., 1992, p.85).  O louco, o fora da normalidade, é aquele que causa algum distúrbio à ordem, seja a ordem econômica, social, cultural, etc. Nisso, constitui-se como ameaça àqueles que desejam manter o status quo, conservar, de maneira geral, aquilo que lhe é favorável, mas que gera problemas aos outros.

Por fim, notamos como o conceito é contraditório: ao mesmo tempo em que é negado, também é confirmado. Ninguém quer ser comum, normal; todos querem ser diferentes, ter algo que os faça serem notados. Mas mesmo ao sair do padrão, ainda é preciso manter-se no padrão: não se pode afastar da linha, no máximo, sair de dentro do círculo e passar a apenas tangenciá-la. “Essa ambigüidade implícita ao quantificativo nos indica de antemão que se trata de duas partes distintas de nós mesmos, uma que se  quer conforme as regras, enquanto a outra gostaria de subtrair-se ao padrão  comum.” (Mc DOUGALL, 1983, p.3).

Texto de Marcelo Caetano, que não tem feito muita questão de ser tomado como ‘normal’

BIBLIOGRAFIA

Mc DOUGALL, Joyce.  Em defesa de uma certa normalidade. Porto Alegre,
Metrópole, 1983. Disponível em: http://www.jurandirsantos.com.br/outros_artigos/pp_em_defesa_de_uma_certa_normalidade.pdf

MISKOLCI, Richard. Reflexões sobre normalidade e desvio social. Estudos de Sociologia, Araraquara, vol. 13/14, 2002/2003, pp. 109-126. Disponível em: http://d.yimg.com/kq/groups/18448977/1438533243/name/Reflex%C3%B5es+sobre+normalidade+e+desvio+social.pdf

dos Santos, José Quirino et al. Perturbações da normalidade sócio-cultural. São Paulo em Perspectiva, vol. 6 (4), outubro/dezembro, 1992, pp. 84-91.
Disponível em: http://www.seade.gov.br/produtos/spp/v06n04/v06n04_12.pdf

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3 comentários em “Normalidade

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  1. Não é suficiente ser diferente ou fora dos padrões para ser louco. Existem as condições necessárias.
    Ser direrente é o ofício e a obrigação das vanguardas das elites intelectuais, artísticas, esportivas, políticas, sociais, que para trazerem o novo precisam vencer as resistências e quebrar as expectativas.
    A considerada loucura de hoje pode não ser a de amanhã. Quem seria sensato em dizer há dois séculos que o humano poderia voar dentro de um tubo metálico pelos céus, ou além dos céus? Seria incinerado imediatamente.
    Tempo e lugar para cada loucura. Quem poderia imaginar que os padrões de vestimentas pudessem chegar aos níveis tão antigos que quase se pode andar nú em vias públicas, vestindo roupas que mais parecem uma segunda pele.
    A loucura tem como condição necessária a capacidade de tumultuar e indignar o sistema social. Fora disso é apenas uma discrepância de opinião.

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