Dinossauros são reais?

Imaginemos um planeta muito, muito distante da Terra, a aproximadamente 76 milhões de anos-luz. Imaginemos também que este planeta é habitado por seres vivos inteligentes. Por fim, imaginemos que, no decorrer do tempo, este seres inteligentes foram capazes de construir telescópios tão avançados tecnologicamente e potentes o bastante para não só identificarem a Terra dentro deste infinito universo, mas principalmente para observarem nitidamente sua superfície. Pelas leis da física humana, essa distância entre os planetas significa um percurso temporal de 76 milhões de anos para a luz ser captada por nós, ou pelos observadores extraterrestres. Neste exato momento, enquanto os seres inteligentes daquele planeta nos observam, portanto, eles não nos vêem.

Tudo que contemplam é uma natureza sem dimensões, habitada por grandes seres que a dominam. Seres nunca vistos ou identificados anteriormente. Observam seres carnívoros, de muita força física mas pouca capacidade para modificar o ambiente que os cerca, de forma a causar um desequilíbrio. Para nós, estes seres são conhecidos como dinossauros, e já se extinguiram há cerca de 50 milhões de anos. Para os observadores extraterrestres, ao contrário, os grandes seres daquela vasta natureza são seu presente e a prova irrefutável da existência de vida em nosso planeta.

Sem maiores delongas, todas essas suposições levam-nos a refletir sobre um pequeno conceito, de impacto supostamente irrelevante em nossas vidas quotidianas: a realidade. Afinal, o que é real? De fato, comecemos emprestando a máxima de que tudo dependerá do ponto de vista, ou ponto de referência como diriam os físicos. Mas concluiremos não somente sua insuficiência para nossa reflexão. Acabaríamos aqui, de forma “evasiva”, algo de maior debate.

Somos todos reais, irrefutavelmente. Ou pelo menos existimos, como pensamos. Para os seres inteligentes daquele planeta muito, muito distante, provavelmente não passaremos de uma possível especulação de alguns mais ousados em prever o passar dos tempos em nosso planeta. Temos a certeza de que os dinossauros existiram, que foram reais. Na visão dos nossos observadores extraterrestres, de forma oposta, os dinossauros existem em seu presente. Mas são reais? Aqui podemos também aplicar aquela máxima do ponto de vista, porém reflitamos um pouco mais sobre algumas diferenças entre o real e o existe e entre o presente “objetivo” e o presente “subjetivo”, a fim de chegarmos a construções mais sólidas desse dilema.

Para pensarmos em “realidade” e em “existência”, comecemos definindo e refletindo sobre suas essências. Consideremos a essência da “existência” o seu movimento. À essência da “realidade”, por sua vez, consideremos uma bipartição entre movimento e continuidade. Ora, existir significa, antes de qualquer coisa, a precedência ou a procedência do não-existir. Ou seja, quando temos por existência todas as coisas que possuem movimento, suas características concernentes ao espaço e ao tempo que ocupam tornam-se fluidas, variáveis, mutáveis. Derivam de um “início” e possuem um “fim”. A mutabilidade das coisas é a prova de suas existências. Enfim, algo existe pois percebemos seu movimento ao longo do espaço e do tempo.

Esta última suposição nos transfere para a essência da “realidade”, o movimento e a continuidade. A realidade em movimento seria a realidade “subjetiva”, pertencente às concepções de existência de cada ser sobre cada ser em específico. Em outras palavras, a realidade em movimento é aquela em que as coisas só existem e são determinadas de acordo com a percepção subjetiva e particular do observador ao construir abstrações sobre a coisa observada. É, portanto, fluida, variável, mutável. A realidade em continuidade, por sua vez, seria aquela independente do poder de abstração dos seres. Não há seres que a definam. Ao contrário, ela é definida através da existência desses seres. É uma realidade “objetiva”, ou propriamente real. A realidade em continuidade é, por fim, invariável e imutável, uma vez que os seres não são capazes de modificar sua essência.

Consideremos, por enquanto, ao que foi dito acima, para fins de simplificação, que tudo que é real existe objetivamente. Enquanto nem tudo que existe é real, em termos subjetivos.

Voltemos ao dilema apresentado no início do texto. Até agora, podemos compreender que tanto a realidade dos dinossauros como a dos seres humanos terão, de um lado, uma “concretude” em essência e, de outro, serão distorcidos pela abstração do ser observador. De forma mais simples, significa dizer que em uma realidade objetiva, tanto os dinossauros, quanto os seres humanos e os seres extraterrestres, serão reais. A distorção ocorre no caso da realidade subjetiva: até aqui, para os observadores extraterrestres, os dinossauros existem e são reais, enquanto os seres humanos não existem e não são reais (já que a abstração sobre a evolução das espécies na Terra em um percurso temporal de 76 milhões de anos torna-se algo tão aleatório que devemos considerar pouco provável se chegar a uma caracterização dos seres humanos de forma fiel à que constamos atualmente).

Apliquemos agora mais duas variáveis ao nosso dilema. O presente “objetivo” e o presente “subjetivo”. O presente objetivo, reflitamos, é aquele que acompanha a realidade objetiva. É o presente geral de todas as coisas, ou seja, são os instantes temporais do universo que independem da percepção dos seres sobre as coisas. Nesse sentido, em cada instante temporal, tudo que existe neste presente objetivo é real. Existe porque em um instante futuro deixará de existir da forma que existiu, do mesmo modo em que existiu segundo a mudança do instante anterior. Enfim, o presente objetivo é a realidade de todas as coisas em cada instante temporal “universal”. O presente subjetivo, por sua vez, alia-se à concepção da realidade subjetiva, porém não a acompanha. É um presente segundo a percepção temporal e espacial de cada ser observador. Significa, logo, que o presente subjetivo não irá contemplar tudo como existente e real. Pensemos: se o ser observador percebe o seu presente de forma subjetiva, todas as coisas das quais possui informação serão reais e existirão, enquanto todas aquelas não percebidas pelos seus sentidos não existiram e não serão reais, porque tudo será percebido subjetivamente; de forma oposta, se ele percebe seu presente de forma totalmente objetiva, todas as coisas existirão, porém não necessariamente serão reais. Serão reais ou não de acordo com a interpretação sobre a duração temporal e espacial das coisas observadas e do poder de abstração dos seres observadores.

Voltemos, finalmente, ao dilema da realidade e existência. Ao admitirmos a entrada de duas novas variáveis, o cenário se inverte. No presente subjetivo daqueles seres extraterrestres, a situação permanece a mesma: ao observarem a Terra, podem considerar os dinossauros como reais e existentes, enquanto que os seres humanos continuam inexistentes e irreais. O maior problema emerge-se quando analisado a partir do presente objetivo. Supondo as leis físicas humanas universais, e os nossos observadores extraterrestres cônscios de sua distância para com a Terra e o conseqüente reflexo disso no tempo, os dinossauros assim contemplados poderão não ser mais reais. Como também é impossível terem dimensões exatas do que viria a ser o presente objetivo da Terra no instante em que a observam, tampouco seriam concretas suas suposições sobre a existência ou não desses dinossauros.

Caberiam duas interpretações. Objetivamente, no instante em que observam os extraterrestres, aqueles dinossauros não mais existem ou são reais pois são imagens de um passado das coisas, e suas existências no presente objetivo é incerto. Subjetivamente, os dinossauros podem ser considerados reais pois fazem parte do presente subjetivo dos extraterrestres. Mas existem de fato? Se aplicarmos nossa simplificação, sim. Contudo, após todas essas divagações, não seria possível acrescentarmos uma nova separação, a saber, a existência objetiva e a existência subjetiva das coisas, quando tratamos a questão do presente?

Até aqui, podemos concluir somente que tudo irá se modificar de acordo com as variáveis colocadas no “tabuleiro”. Quanto ao dilema dos dinossauros, terminemos com uma pergunta, e não com uma conclusão: realidade e existência, quanto postos sob uma perspectiva temporal, irão variar consideravelmente, suficientemente, para nos fazer refletir sobre nossa própria existência e realidade? Ao ponto de negarmos ou concordarmos com especulações que inicialmente concordávamos ou negávamos? Muitas reflexões e poucas respostas? Pelo menos isso ocorreu com o autor: eu não sei mais se dinossauros são reais ou não!!

Daniel Vasconcelos é petiano e, no momento, um especulador. Por isso, pede sinceras desculpas aos astrofísicos e aos filósofos por não poder adequar seu discurso de forma satisfatória. Menos uma reflexão acadêmica e mais um desabafo “especulatório” sobre coisas que não consegue entender ou chegar a uma resposta sem contradições.

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2 comentários em “Dinossauros são reais?

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