O Gigante e a Migalha

Em um mundo nem tão, tão distante do nosso  havia um gigante. Esse mundo, diziam, não ter formato definido, ou, melhor dizendo, tinha o formato que queria o gigante. Gigante que governava a todos impiedosamente, sem levar em conta quem quer que fosse, em qualquer circunstância que batesse à sua porta. Gigante que ia e vinha e que para isso a ninguém pedia autorização. Ali, nesse mundo sem forma, tão só ele mandava, só a ele todo mundo obedecia.

Por que era respeitado? Ninguém na realidade disso sabe muito. Muitos já tentaram explicar seu domínio pela sua força incomensurável, com a qual poderia aniquilar o próprio mundo em questão de poucos dias. Outros já sustentaram a hipótese de que o gigante ali era soberano por ser dono de tudo o que era conhecido. Já foi dito que naquele mundo sempre havia sido desse modo e nem cabia muito protestar contra isso. Nunca o gigante poderia ser questionado, nem poderia deixar de ser dono de tudo ou mesmo deixar de ditar o modo como as coisas deveriam ser.

Alguns chegaram a dizer que o gigante, embora fosse um tanto quanto cruel, no fim das contas, acabava por proteger o seu mundo. Não importava tanto as mortes que frequentemente causava, tampouco o sofrimento que constantemente afligia aqueles que por ele eram dominados, se, ao fim e ao cabo, tudo isso era feito pelo bem daqueles que com ele sempre estiveram. Raros foram os que tentaram imaginar como seria o mundo sem a presença e a vitalidade do gigante. Ali, que tipo de caos haveria sem ele?

O gigante não costumava fazer muito para proteger seu mundo. Pouco se mexia, nada produzia. E precisava fazê-lo? Não bastava o medo e o terror causados pela imagem que tinha o gigante sobre as pessoas daquele mundo? Não bastavam as ameaças, as histórias sobre torturas, sobre comunidades destruídas? Não bastava saber que o gigante por vezes se alimentava daqueles que desafiavam suas regras? Isso bastava. Era mais do que suficiente. O gigante a todos tinha e nada lhe impedia de fazer o que viesse à sua mente.

Naquele mundo tão, tão próximo do nosso, havia um gigante, mas havia também aqueles que a ele obedeciam. Não tinham nome, nem eram conhecidos fora dali. Da perspectiva do gigante, todos eram absolutamente iguais, tal como vemos as formigas e nem paramos para reparar em quão diferentes podem ser elas entre si. O gigante via todos como uma massa a ser trabalhada e modelada segundo os seus desejos, ímpetos e, sobretudo, por sua razão inabalável. Não importavam nenhum pouco os sentimentos e as experiências das pessoas se o gigante estava com fome e queria, vez ou outra, sair pelas suas terras se divertindo. Eram todos um só, e assim eram pela sua vontade. E como por isso em dúvida, se sempre desse jeito se passaram as coisas?

O gigante, apesar de tudo, não era de todo cruel. Sabia que, além de temido, deveria ser também amado. Em algumas de suas refeições, chamava a todos e os reunia debaixo de si. Pedia, antes de mais nada, que trouxessem oferendas e todos os bens que tivessem em mãos. A alimentação do gigante era o momento emblemático daquele mundo. Era o ritual que sintetizava como se davam as coisas por ali.

Ocasião rápida, mas de longo prazo. O gigante comia lentamente o que lhe traziam as pessoas que governava. Em geral, pão com alguma coisa dentro. A cena, tirada de seu contorno de crueldade, era típica dos mundos fantásticos, dos quais muito se pode esperar e pouco se duvidar. Enquanto punha o pão e o que mais vinha às mãos em sua boca, o gigante se desfazia de pedaços que aos seus olhos eram menos interessantes. Jogava-os ao chão e esperava que quem ali estivesse ou recolhesse ou os usasse como comida. Eram muitas, ainda, as migalhas que caíam enquanto mastigava. Migalhas que vinham aos montes e  que eram disputadas ferrenhamente pela multidão ali sob os seus pés.  Cena sanguinolenta, de conflito generalizado. Quanto mais migalhas, menos vidas para governar tinha o gigante. Gostava de brincar com os minúsculos seres que via quando para baixo olhava, chutando-os e esmagando-os com suas botas produzidas por aqueles que matava. Não era crueldade da sua parte; sempre fora assim e não havia razão para não ser daquela maneira.

Perguntava-se por que se respeitava o gigante naquele mundo,  mas também se perguntava por que o gigante fazia o que fazia. Era óbvia a resposta, por mais que fossem intermináveis e sempre conturbados os debates sobre a questão. O gigante matava, destruía, comia e desprezava porque sempre havia sido assim. Se ele sabia como antes era ou como poderia ser no futuro o próprio mundo, disso não se tem nenhuma pista. Mesmo que a realidade tivesse mudado pela vontade do próprio gigante, nem ele se lembraria de que havia feito a mudança. Para ele, como para seus governados, era como se as coisas sempre tivessem sido como são. E para que mudá-las, se, com qualquer mudança que ocorresse, podiam as coisas estar completamente piores amanhã? O gigante nem era, sob a perspectiva daquele mundo, tão ruim. Sempre sabia o que tinha a fazer. Sempre soube. Ainda que matasse, devia ser por um bom motivo e por um propósito necessário para o mundo. O gigante destruía, matava e despedaçava. O gigante unia, motivava e alimentava.

Olhar para o mundo em volta era olhar para o gigante. Nada lhe escapava, mas para que deveria ser diferente? Que liberdade haveria caso não houvesse sua proteção? Olhar para o gigante era olhar para si mesmo. Se existia diferença, por que considerá-la? Que importava, senão a vontade do gigante? Que importava, senão a liberdade e a igualdade que trazia o gigante consigo? Olhar para o gigante era enxergar a realidade na sua totalidade. Tudo a ele se resumia. Ali, nesse mundo sem forma, tão só ele mandava, só a ele todo mundo obedecia.


Texto do petiano Vinicius Prado Januzzi, acostumado a ver gigantes, migalhas e  moinhos de vento facilmente transponíveis.

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