Tematizações e descrições de fenômenos não são defesas. Ironias não são apologias.

Quando descrevemos ou tematizamos um assunto ou fenômeno, não significa que os consideremos positivos. Muitas vezes, trata-se justamente do contrário, como é o caso dos pessimistas, cínicos, niilistas, e em grande parte, mas com menos acidez e intensidade, dos céticos.

Muitos autores em tempos diferentes (modernos, contemporâneos, atemporais) foram mal interpretados pela confusão de se tirar conclusões apressadas. O raciocínio imediato pode levar à má interpretação de sutilezas ou da tematização de assuntos delicados, confundindo a discussão do assunto com defesa da temática.

Sem querer defender Maquiavel, e apenas usando seu exemplo, podemos verificar várias situações nas quais a má interpretação e a pressa em tirar conclusões podem distorcer uma lógica de pensamento (e na maioria dos casos relativos a este autor, de forma intencional, como fizeram o Vaticano e vários monarcas absolutistas como Henrique VIII). O fato de Maquiavel tematizar as gravitações negativas do poder não significa que ele estivesse defendendo que as pessoas se transformassem nestas gravitações negativas. Maquiavel postulava que, onde há poder, há também os piores sentimentos humanos (como vaidade, crueldade, adulação, interesses mesquinhos, personalismo, auotengrandecimento, apego a bens materiais, disputas etc), mas isto não significa necessariamente que estivesse defendendo que as pessoas se tornassem péssimos exemplares de seres humanos. Tratava-se de uma contatação, segundo ele invariável, da realidade humana. Assim, em um primeiro momento Maquiavel estava alertando para o fato que, se alguém almeja o poder, mesmo com intenções de realizar o bem comum, este alguém precisa ter consciência da inevitabilidade de suas péssimas gravitações. Neste ponto, Maquiavel não estava fazendo apologias, e sim descrevendo o que considerava uma realidade inexorável. Contudo, acabou se tornando autor maldito, entre outros motivos, por causa da má interpretação, ou da interpretação apressada, de seu pensamento.

Outro autor moderno que muitas vezes pode ser mal interpretado, porque intencionalmente escolheu um recurso ambíguo para apresentar suas ideias sobre tipos ideais e reais de sociedade é Thomas More em A Utopia. Sem adentrar os detalhes da obra, o fato de descrever um lugar imaginário que não existia de forma literal em sua época não significa que More acreditasse que um dia uma sociedade como a de Utopia pudesse existir. Provavelmente, ele tendia a acreditar no contrário, ou seja, uma sociedade com aquela configuração talvez jamais fosse possível, dada a tendência à dificuldade que a maior parte dos seres humanos tem de cultivar a virtude que leva à nobreza de alma, segundo este autor. Não que ele não considerasse uma sociedade igualitária e virtuosa desejável, mas provavelmente, More não acreditava que seu modelo imaginário fosse passível de concretização. Apesar disto, muitos consideram More um ideólogo do comunismo econômico, o que pode ser bastante controverso.

Contemporaneamente, tendemos a valorizar o raciocínio crítico a priori, em detrimento de um olhar vazio inicial, que seja, na medida do possível, sem julgamentos apriorísticos diante dos fenômenos, para só posteriormente tirarmos conclusões sobre uma obra escrita, gráfica ou simbólica. Sem perceber, tal postura nos torna, no fundo, autoritários. Não se trata de exigir neutralidade valorativa e tampouco de boa vontade com qualquer coisa, mas apenas de tentarmos nos desarmar um pouco nos primeiros momentos de contato com algo novo, seja um discurso, uma obra de arte, um texto, ou um símbolo, antes de tirarmos conclusões respaldadas em nossas próprias crenças e valores, e não na realidade e nas novidades do outro, externo a nós, que se apresentam.

Texto de Paola Novaes Ramos, tutora do PET/POL.

REFERÊNCIAS

LAPERRIÉRRE, Anne. “A Teorização Enraizada (grounded theory): procedimento analítico e comparação com outras abordagens similares”, in POUPARD, Jean (org.) A pesquisa qualitativa. Enfoques epistemológicos e metodológicos. Petrópolis, Editora Vozes, 2008.

RUIZ, Don Miguel. Os Quatro Compromissos:o livro da filosofia tolteca (um guia prático para liberdade pessoal), Edição Revista, 1997.

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5 comentários em “Tematizações e descrições de fenômenos não são defesas. Ironias não são apologias.

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  1. O texto trás reflexões sobre as concepções pré estabelecidas a respeito de alguns autores. O caso de Maquiavel é um excelente exemplo, pois hoje na contemporaneidade quando é descrito algumas “gravitações negativas do poder” é falado que “fulano ou beltrano” é maquiavélico. Isso não significa que o próprio Maquiavel acreditava que as pessoas iriam se transformar negativamente. Quem sabe o próprio Maquiavel não era maquiavélico. Excelente argumentação Professora Paola Novaes Ramos.

  2. Legal, Jussara… nunca saberemos ao certo qual era a verdade de Maquiavel, pois ele mesmo dizia que temos acesso apenas à imagem e nunca ao coração das pessoas, né? De toda forma ele é polêmico e pode ser interpretado com boa ou má vontade… abs e obrigada pela participação

  3. Totalmente pertinente. Às vezes tornamo-nos alvos fáceis deste tipo de consideração por que estamos expostos quando produzimos constantemente papers, mas é um risco inevitável. Aceitável desde que as acepções valorativas não sejam do tipo ad hominem, nem descambem para a distorção ideológica ou ato-falho.

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