O Espetáculo da Vingança

– Justiça é uma beleza, nos olhos de quem a vê.

Assim diz Emily, cujo nome verdadeiro é Amanda Clarke, protagonista do seriado norte-americano “Revenge” criado em novembro de 2011. A história da série narra casos de vingança, baseados na obra francesa, de 1844, “O Conde Monte Cristo”, de Alexandre Dumas. Nela, a jovem Emily busca vingança pelas injustiças sofridas por seu pai quando ela era criança, que causaram a destruição de sua família. O sucesso da nova série é notável, já que conta com fãs no mundo todo, apesar de ainda ser relativamente recente.

Assim como “Revenge”, várias outras obras da televisão, do cinema e da literatura tratam do tema vingança, fator que, na maior parte das vezes, as torma atraentes e de sucesso. Se fizermos uma análise da representação do fenômeno da vingança no tempo, percebe-se que, conforme o período histórico, as características vingativas são apresentadas de maneiras peculiares. Na tragédia grega, por exemplo, a vingança predominava contra a própria família, como é o caso extremo de Medéia, que matou seus filhos para se vingar de uma traição.

No teatro inglês dos séculos XVI e XVII, havia um gênero denominado “peças de vingança””, de cunho romântico, como em Hamlet, de Thomas Kyd e difundido pela versão de Shakespeare. Com maior dinamismo da sociedade, a vingança incorpora a variável de ressentimento social e de condição econômica. Em muitas histórias, ficar rico representa uma forma louvável de se vingar.[1]

Ao observar a existência de inúmeros exemplos de expressões artísticas que abordam o tema da vingança, chama-me atenção o caráter de espetáculo que esse fenômeno apresenta. As/os espectadoras/as se deliciam com as atitudes vingativas das/os intérpretes, ainda que sejam bastante violentas. É como se o fato de se vingar garantisse uma permissividade e uma maior legitimidade a formas de violência que são normalmente consideradas inaceitáveis.

A concepção de vingança sempre está vinculada à ideia de busca por justiça. Ao se vingar, a pessoa retribui uma ação que a prejudicou em busca de um equilíbrio social, ainda que esse seja medido de forma bastante subjetiva e passional. Assim, a reciprocidade fica evidente na questão da vingança, baseada, acima de tudo, na ideia de honra pessoal.

Partindo dessa abordagem, pode-se identificar pontos se convergência entre a vingança e a questão da dádiva apresentada por Mauss em sua obra O ensaio sobre a dádiva², leitura da reunião acadêmica do PET da semana passada. De forma extremamente resumida, Mauss considera a obrigação de retribuir ações benevolentes um fato social, ou seja, uma característica universal das organizações sociais, sejam elas tradicionais ou modernas.

Ao interpretar a obra, observa-se uma possível relação entre retribuição e justiça, sendo esta  vista como um equilíbrio de relações. O que é retribuído, nesse caso, é, ao mesmo tempo, feito de forma voluntária e obrigatória, interessada e desinteressada, como se fizesse parte de um acordo tácito para a manutenção de certa ordem “harmônica” social. Está implícita, então, uma vontade de se manter vínculo com tal ordem, base para sua legitimidade.

O ponto em comum entre dádiva e vingança se restringe à relação retribuição e justiça, presente na teoria de Mauss, sendo os incentivos e as intenções de se retribuir exatamente opostas. Enquanto a vingança é estimulada por uma atitude prejudicial, a retribuição à dádiva se dá em razão de uma oferta de algo considerado benéfico pelo ofertante. No caso de uma ação vingativa, a intenção não é necessariamente a de manutenção de vínculo, a não ser que de subordinação, mas sim de rompimento dele.

No caso da dádiva de Mauss, se a retribuição supera a ação recebida, a relação social estabelecida não é afetada negativamente, podendo essa retribuição crescente ser até natural nas trocas de presentes. Porém, a linha entre vingança e justiça é muito mais tênue. Ações vingativas são facilmente consideradas excessivas e, portanto, injustas. Por isso, diversos padrões são estabelecidos para que o círculo vicioso da vingança não ameace a ordem estabelecida, como é o caso do próprio sistema jurídico e as concepções morais (por exemplo, a concepção religiosa do perdão e da justiça divina).

O direito pode ser visto, assim, como uma padronização legítima dos meios de vingança, para que o equilíbrio da justiça possa ser garantido.  Acredito que, por isso, o ato vingativo não deve ser encaixado em parâmetros morais, como certo e errado, mas como aceito socialmente ou não. Assim, diferente da obrigatoriedade da retribuição da dádiva, a vingança não é obrigatória, mas sua permissividade (também entendida como aceitação ou não julgamento) varia conforme o contexto em que ocorre.

Mais que os conceitos até agora discutidos – principalmente o de vingança e o de justiça – a permissividade apresenta caráter essencialmente subjetivo. Caso se considere que instituições são falhas na garantia do que se entende por justiça, a vingança individual tende a ser cada vez mais aceita. Ou ainda, quando certa ordem social opressora nos é sensível, a vingança por parte do oprimido pode representar uma forma de contestação da ordem vigente.

É por esse motivo que expressões artísticas que tematizam a vingança chamam atenção de tantas pessoas. Os motivos pelos quais a exposição da vingança pode se tornar atrativa são inúmeros, dentre eles estão a compaixão, a identificação com o vingador, a catarse ou até mesmo a revolta. A justiça feita pelas próprias mãos dos intérpretes que assistimos muitas vezes representa uma luta pela justiça que gostaríamos que fosse aplicada a todo sistema, uma mudança mais ampla, e que não poderia ser realizada por uma simples ação egoísta que, acima de tudo, é violenta.

Peço desculpas pela falta de embasamento teórico de meus argumentos, justificável pelo fato desse texto ser resultado de uma reflexão inicial e básica sobre o fenômeno da vingança, que me interessa há tempos, mas que precisou do incentivo da discussão acadêmica semanal de Mauss para tomar corpo.

Texto da petiana Ariadne Santiago.

[1] TEIXEIRA, Jerônimo. A justiça selvagem.Veja: Seção Livros. Edição 209, 728 de janeiro de 2009.

[2] MAUSS, Marcel. Ensaio sobre a dádiva. Partes 1, 2 e 3.

Anúncios

7 comentários em “O Espetáculo da Vingança

Adicione o seu

  1. Às vezes penso que aquilo que pretende o roteirista de Batman, quando tenta justificar a enorme violência do protagonista justificando-a pela morte violenta de seu progenitor, Bruce Waine.
    Se voce abstrair o fato anterior a violência de Batman fica vazia. Apenas um voluntarismo que distorce aidéia de Terra da liberdade e dos pricípios da liver-iniciativa e autonomia cidadã, patriota.
    Na nossa sociedade a liberdade de agir passou a ser um valor inquetionável, assijm, deixa de ser refutável e consequentemente, científica e passa a ser um dogma fora das nossas possibilidades de esgotamento filosófico-científico.
    Não é assim que penso.
    O Vai-e-vem No Eterno Retorno (Nietzche)
    [Eterno retorno] é a lei de um mundo sem ser, sem unidade, sem identidade. (Deleuze)
    Eterno Retorno é um conceito desenvolvido pelo filósofo Friedrich Nietzsche (1844-1900), considerado por ele próprio um dos seus pensamentos mais aterrorizadores. Foi durante um passeio em 1881 que Nietzsche refletiu sobre os sentidos das vivências em alternâncias que se “repetem”. Embora em várias de suas obras encontramos pistas do que seria o Eterno Retorno, é na sua obra A Gaia Ciência (1882), um dos mais belos livros antes de Nietzsche sofrer das baixas de sua saúde, que ele nos brinda com a idéia mais nítida do que seria esse conceito:
    “E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: “Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e seqüência – e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez – e tu com ela, poeirinha da poeira!“ Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderías: “Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!” Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: “Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?” pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?” (aforismo 56)
    Parece que o Eterno Retorno defende a tese de que pólos se alternam nas vivências numa eterna repetição. Criação e destruição, alegria e tristeza, saúde e doença, bem e mal, belo e feio,… tudo vai e tudo retorna. Porém, esses pólos não se opõem, mas são faces de uma mesma realidade, isto é, um complementa o outro, são contínuos de um jogo só. Alegria e tristeza são faces de uma única coisa experienciada com grau diferente.
    A temporalidade não está presente no Eterno Retorno, a realidade para Nietzsche não tem uma finalidade nem um objetivo a cumprir, e por isso as alternâncias de prazer e desprazer se repetem durante a vida. – O Eterno Retorno não se reporta a uma demarcação temporal cíclica e exata, mas às nuances de vivências que se complementam e dão o colorido da vida.
    O devir não ocorre de um modo exatamente igual, mas são variações de sentidos já vivenciados, faces de uma mesma realidade. A alegria e a tristeza que senti não serão iguais no amanhã, mas voltarei a experimentar esses estados em suas diferentes variações.
    A indagação que Nietzsche nos faz através do aforismo acima não se trata de uma negação da vida, pelo contrário, nos remete a uma afirmação da vida. Não posso crescer se não experimento declínio e vice-versa, são faces de uma mesma moeda sem demarcação de tempo e exatidão, de tal modo, Nietzsche nos aponta que “os homens não têm de fugir à vida como os pessimistas, mas como alegres convivas de um banquete que desejam suas taças novamente cheias, dirão à vida: uma vez mais”. – Eis aqui uma bela resposta de Nietzsche ao “pessimismo” de Schopenhauer.
    Se tudo retorna – o prazer e o desprazer, a dor e o deleite, a alegria e o sofrimento – queremos mesmo viver à eternidade onde nada de novo irá acontecer além de vivências com nuances variadas de uma mesma realidade? – Não é fácil dar uma resposta a indagação que o Eterno Retorno nos faz. Mas apenas você pode respondê-la, e ninguém poderá fazer isso por você, uma resposta pronta e acabada não faz sentido, da mesma forma que a “verdade” e a “mentira” não encontram acomodação no pensamento de Nietzsche. Talvez decorra daí o sentido perturbador do conceito.
    Nietzsche nos dá o Eterno Retorno como uma saída, que consiste em buscar a criação na destruição; só nessa complementação que podemos transcender e reafirmar a vida em detrimento dos valores que envenenaram a humanidade e negaram a vida, sobretudo, aqueles simbolizados na cruz.
    Vivemos no Brasil de 2012 um momento que acredito ser o ponto de apogeu da tolerância máxima dos costumes mais incivilizados a que a sociedade já poderia suportar sem rupturas sociais.
    Tudo no Brasil é permitido. Vivemos um momento de maior distensão dos costumes e vícios como nunca antes a sociedade brasileira dos centros urbanos jamais experimentou em tal intensidade e abrangência.
    Nesta quadra histórica tudo tem de ser permitido. Proibir é o maior castigo que se pode impingir ao cidadão.
    Este é o resultado do pêndulo do vai-e-vem alternando períodos que periodicamente experimenta a sociedade humana ao longo da sua História social. Assim vimos alternarem-se os períodos de total amplitude de liberdade de ideologias, como no período dos filósofos gregos, então a reação contrária ao excesso de liberdade de pensamento e comportamento social veio o período de total controle social, moral, ético, religioso, filosófico que foram os 1000 anos da Idade Média.
    O resultado deste período de fechamento foi consequentemente a abertura produzida pela Renascença, que tratou no período seguinte de se contrapor ao fechamento, ao processo de submersão e de concentração-centralizada da Igreja sobre a vida dos seres humanos submetidos àquela ordem fechada e rigorosa, onde todos os setores da vida humana estavam submetidos aos estatutos religiosos: a música em uníssono; às artes, permitidos apenas temas religiosos e sem cores, apenas em preto e cinza; às ciências totalmente submetidas aos inquisidores; às regras comerciais e financeiras, ao comércio totalmente fechado e incipiente, confinando a vida aos feudos sob a suzerania dos senhores feudais e estes aos bispos e à hierarquia católica; assim, a verdadeira abertura que representou o fim do Feudalismo e do Medievalismo foi a revolução que eclodiu e explodiu os fundamentos da crença religiosa hegemônica que abriu politicamente, moralmente, culturalmente, cientificamente e economicamente o mundo ocidental para a revolução burguesa e para o fim de uma ordem mundial religiosa para uma nova ordem mundial ateísta, científica, mundana, humanista e capitalista.
    Assistimos nesta época o limiar da liberdade máxima de costumes até onde pode experimentar o espírito livre de regras a não ser as regras ditadas pela liberdade de agir e pensar que o ser humano jamais pode conceber sem medos de quebrar e romper todos os mitos e tradições, onde o espírito humano pode experimentar tudo, de todas as formas concebíveis de se experimentar todas as sensações, desejos, vontade, liberdade, ideologia, comportamento e regras como jamais sonharam nossos ancestrais.
    O resultado ou a resultante deste excesso que se avizinha, por uma quase lei-do-retorno eterno é que o limite do excesso de liberdade é a atração pela irresistível volta do conservadorismo, e as razões para isto é que a liberdade em excesso está destruindo os fundamentos do direito á liberdade.
    Liberdade em excesso destrói as condições do próprio exercício da liberdade.
    Liberdade absoluta gera a destruição do direito à liberdade, pois não respeita os limites que não são reconhecidos para a liberdade em si.
    A referência para o usufruto da liberdade é a sua falta ou o seu cerceamento. Sem limites a liberdade fica sem um referencial logo não pode ser percebida como liberdade uma vez que a liberdade se opõe aos limites e regras. A liberdade sem limites não se realiza como tal, uma vez que nada se opõe a si, logo liberdade sem restrição não permite o seu exercício pleno uma vez que não encontra a sua contrapartida que seria a restrição ou o limite.
    A liberdade é apenas a necessidade de romper limites e restrição. Sem limites e restrições não pode existir liberdade de ser livre quando nada é proibido.
    Assim, a sociedade perde a noção e a necessidade de ser livre e a conseqüência é o desejo de construir barreiras ao exercício da liberdade para poder exercê-la.
    Quando isto ocorre então se começa a experimentar a nostalgia da antiliberdade.
    Este novo sentimento novo começa a seduzir os membros do grupo social como algo novo e novamente fascinante que é construir regras para depois burlá-las.
    Assim, recomeça-se a guerra entre os libertários e os organizadores. Uns tentando sentir novos desejos e novas experiências em um novo mundo regulado, ordenado, organizado, planejado, previsível, restrito, e o velho mundo ainda perdido na antiga liberdade total, na total anarquia, na total falta de limites, mergulhada na total desestruturação onde a civilização sepultou toda forma de organização social, divisão de tarefas e trabalho social, religião, regras, leis, fronteiras, limites, perspectivas, economia, sustentabilidade social, enfim, qualquer resquício de civilização para começar tudo de novo.
    Sem que percebamos estamos começando o mergulho no mundo sem ordem social. Abolimos algumas regras onde tornamos alienados de obrigações sociais, civis, econômicas, morais, científicas e religiosas os índios, as crianças, os velhos, as mulheres, os homossexuais e os tornamos relativamente capazes, relativamente tutelados pelo Estado.
    Assim, criando guetos e exceções nas obrigações legais, abrimos exceções para privilegiar alguns grupos, como na criação de privilégios compensatórios para os afrodescendentes, para os despossuídos, para os sem-terra, para os sem-tetos, para os viciados em drogas estupefacientes, para as mulheres, para as crianças, para as mulheres, para os idosos, para os deficientes físicos, enfim transformamos a sociedade em facções recheadas de particularidades e privilégios e criamos guetos de discórdia e privilégios enquanto acreditávamos estar pacificando a sociedade através da ideologia do igualitarismo de chegada.
    Desde o cristianismo nunca a ideologia igualitarista foi transformada em estratégia social da engenharia política com todas as conseqüências que isto poderia causar.
    Depois das idéias cristãs de igualdade, vieram as idéias comunistas nos falanstérios, depois vieram as sociais-democracias, o estado-do-bem-estar-social, depois o estatocentrismo, depois o estado empresário, depois a responsabilidade social, e por fim, a justiça social.
    Em fim, vieram os ecologistas, que igualaram os direitos humanos aos direitos dos animais, das plantas, da natureza, criaram a idéia do crime contra a natureza, crime contra a pureza da ordem social.
    Todo o comportamento humano foi criminalizado, para fugir ao controle estatal foram criadas estratégias para o combate e à fiscalização de estatutos cada vez mais restritivos à ação humana contra a liberdade da natureza.
    Ao par disso, todas as regras morais foram corrompidas por que tinha um grande defeito: eram antigas!
    Tudo que era antigo, que era passado estava condenado a ser rompido, corrompido, e modificado.
    Nesta contradição entre a criminalização do comportamento social anterior à nova era de libertação do ser humano de todas as regras antigas, das novas regras irracionais então criadas, pareceu que de tão esdrúxulas as novas regras já nasceram para serem violadas.
    Estas enormes possibilidades de se violarem regras impossíveis de serem observadas induziram-nos ao extermínio da ordem social por completo.
    Como se pode imaginar que um adulto de 16 anos de idade está proibido de exercer a sua maturidade genética e animal abstendo-se de relação sexual com alguém mais velho? Sendo ao mesmo tempo relativamente incapaz de responder em sua plenitude por seus atos civis?
    Obviamente, esta nova ordem de valores em um mundo sem valores morais apenas serviu para confundir e criar o ambiente para a criminalização da conduta humana por completo!
    Transformando todos em potenciais delinqüentes e criminosos, estavam cridas as condições objetivas e subjetivas para a completa subversão da ordem social.
    Qualquer um poderia subverter a ordem social e legal, por menor que fossem os atos sociais. Tudo conspirava para transformar todo ser adulto em delinqüente. Transformar todo adolescente e criança em um ser em conflito permanente com as leis e com a sociedade.
    As oportunidades dadas para a burla são abundantes. Não existe forma de se deixar de se cometer qualquer delito em um prazo de 24 horas. Ninguém escapa do ato criminoso.
    Todos somos delinqüentes. Do homem que assedia a mulher, ao pedófilo que admira a Lolita. Tudo é crime.
    Dos pais que não podem mais admoestar e incomodar os seus filhos sem cometer crime, ao professor que não pode desagradar aos infantes na sala de aula.
    O Estado extraiu a adjudicação da autoridade paterna, docente, jacente aos adultos e desautorizou os cidadãos de qualquer direito de competir com ele no exercício da autoridade.
    Extrapolando este mundo de anarquia moral e de completa falta de hierarquia social, foram se erodindo os princípios morais, tradicionais e religiosos. Já não contam mais os costumes discretos neste vale tudo onde programas de televisão mostram casais coabitando debaixo de mesas, sob os edredons, fornicando apenas para exercitarem a vaidade e a capacidade de seduzir.
    O sexo é elevado à categoria dos instintos animalescos sem o manto do romantismo sem um compromisso mais longo conseqüente.
    Que nada, somos apenas instintos selvagens que servimos apenas à evolução da espécie no sentido literalmente darwiniano da escala da evolução genética. Apenas animais em evolução como todas as outras espécies.
    Para que disfarçar a verdadeira motivação das intenções humanas! Vamos á festa dos instintos carnais sem moderação!
    Este convite ao mundo dos instintos deve levar ao estímulos de todos os sentidos amplificados pelas drogas excitantes, estupefacientes onde o limite do prazer deve sempre ser superado, ultrapassado sem limites, pois o ser humano merece estender até o infinito as suas necessidades de prazer e de experimentar os limites dos sentidos.
    A falta de limites destrói a própria liberdade porque o conceito de liberdade não é um conceito autônomo. Liberdade existe apenas para se contrapor às restrições. Não se exerce a liberdade no vazio de limites. Sem o contraste da restrição a liberdade não existe liberdade. A liberdade é um conceito dependente e dialético. Não existe liberdade em absoluto. Não se percebe a liberdade em um ambiente libertário.
    Um peixe nunca saberá o que é a água a não ser que seja retirado dela para o ar ou para a terra.
    A liberdade só pode ser sentida e percebida quando se não tem liberdade, como um peixe que só percebe que vive na água quando retirado da água, e a falta que a água faz para si.
    A liberdade não existe no abstrato, nem existe no absoluto. Para existir a liberdade tem que existir a restrição à liberdade. A liberdade é exercida apenas contra a sua restrição.
    Para existir a liberdade há que existir a ordem, a regra, a hierarquia, o controle, a restrição. Sem estes elementos não faz sentido se falar em liberdade.
    Assim a liberdade irrestrita destrói as condições de sua própria existência.
    A liberdade é a faculdade de se abster de cumprir alguma obrigação ou dever social, moral, civil, religioso, científico, sentimental, sexual, esportivo, artístico, econômico, político, intelectual, contratual e qualquer outra expectativa social ou pessoal.
    Se não existirem estas obrigações, deveres e expectativas a serem observados então não existe liberdade.

  2. A maior liberdade é a faculdade de se estabelecer a liberdade em uma regra para se poder ter o direito de não exercê-la: a liberdade de não gozá-la, quando é oferecida, é a maior de todas as provas de ser livre.

  3. Muito interessante, Aridane!

    “O Conde de Monte Cristo” é um dos meus livros favoritos. Não gostei apenas do livro (Dumas é simplesmente brilhante, tanto o pai quanto o filho, que escreveu A Dama das Camélias), como também da adaptação ao cinema, embora, é claro, tenha perdido um pouco da reflexão psicológica da obra. O livro trata disso mesmo: a questão da Justiça na perspectiva do ato da vingança. O protagonista da história é condenado injustamente, pois foi vítima da conspiração de amigos invejosos e devido à essa trama ele passa 14 anos na prisão. Por sorte, conhece um senhor que, além de ensinar conhecimentos gerais e linguagens, indica o local de um tesouro, o qual ele busca após conseguir fugir. Ele volta então a sua cidade sobre o codinome de Conde de Monte Cristo. Nesse sentido, a riqueza tem um papel fundamental. O próprio personagem se intitula algumas vezes como Avenged Angel ou anjo da vingança, anjo vingador… Essa expressão para mim traz justamente os dois elementos do texto: a questão da justiça (anjo traz algo como sagrado, ou divino, o que remete ao ideal de Justiça Divina) e a retribuição negativa ou vingança. Nesse sentido, a vingança, na mentalidade do personagem, é legítima e justa, mais que isso, ela é uma mistura de direito e dever. Como o próprio Dantès deixa a entender, ela é uma dádiva das trevas…

    Mas o que me impressiona realmente é a identificação do público com os efeitos da vingança. Tenho certeza que a quantidade de pessoas que se sentiram felizes ou satisfeitas com final de “Dogville” é numerosa. A vingança, quando parece justa e proporcional, é regozijante, mesmo nos casos em que ela apresenta atos extremos de crueldade (como em Dogville). Acho que isso se deve ao fato de todos/as guardarem um pouco de mágoas nas próprias vidas… A catarse que acontece é justamente pelo fato de que na sociedade atual existem uma série de constrangimentos – como o monopólio do uso legítimo da força – que impedem que a vingança se concretize no campo real. Ou seja, as pessoas se identificam e se realizam porque no filme/livre ocorre justamente o que elas queriam fazer na vida real, mas não pode. Isso lembra um pouco as discussões contratualistas e a questão da representação: há um contrato (visando a ordem), que estabelece que a justiça seja feita por um Estado, um Estado que obviamente não consegue representar de forma total o/a agente que sofreu o ato, pelo simples fato de que o Estado não o sofreu, então ele seria o menos apropriado para julgar o quanto proporcional deveria ser a pena, e no entanto a escolha de um árbitro neutro é um princípio de justiça. Já no estado de natureza, se tem a “justiça feita pelas próprias mãos”, o que não garante o predomínio da ordem, mas na filosofia de alguns ao estado de guerra. Tanto a justiça a cargo unicamente do Estado (e do corpo jurídico) quanto a cargo apenas dos indivíduos me parece ter seus defeitos.
    Enfim, é apenas algo a se pensar.
    Foi um bom texto!

  4. Muito obrigada pelas contribuições, Roberto! Achei interessante a relação que fez entre a liberdade de se abster de respeitar regras sociais e a vingança.
    E Nayara, o que vocês escreveu foi basicamente a ideia que eu quis passar no texto, e fico feliz que você tenha gostado :)

  5. Agradeço a deferência. Aproveito para me escusar pelas falhas na digitação do texto. Culpa da falta de revisão. Neste dia estava um pouco assoberbado. Agradeceria do mesmo modo as críticas caso tivessem vindo, do mesmo modo. Parabéns para os atentos leitores.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: