Cursum Perficio

“(…)ou eu encontro de novo esse menino que um dia eu fui, ou eu não sei o que vai ser de mim.”

(Chico Anísio)

X já havia morrido várias vezes. Não da forma como estamos acostumados a ver acontecendo diariamente, na qual a vida se vai sem podermos tê-la mais de volta. Morrera tal como muitas pessoas vão e vem todos os dias. Em um dia aparentemente bom e tranquilo, não conseguia mais dormir nem ao menos relaxar e, pronto, via-se em crise. Chorava, tremia, se escondia.

X já tivera muitas dessas mortes. Quando menos esperava, depois de um bom tempo sem senti-las por perto, quando tudo estava superficialmente esplêndido, X caía. Era mais uma morte que lhe batia a porta. Durava alguns dias, até que novamente percebesse, depois de um tempo já cara a cara com o mesmo processo, que não poderia se deixar levar por ela. Era preciso renascer.

Morrer, do modo como muitas vezes ocorrera com X não era nada fácil. Esse ir e vir, esse sobe e desce de uma montanha russa de grandes declives e poucas subidas era algo constante em sua vida, o que, ao contrário do que se pode deduzir, não deixava as coisas mais fáceis. Em cada nova crise/morte  que tinha, novas eram as dores, novas eram as sensações, apesar de parecer, segundo seu ponto de vista, que as conhecia de antemão e que, de alguma forma, queria aquilo para si. Como assim, querer morrer?

Volta ou outra, X pensava em como poderia aliviar seu sofrimento, diminuindo-o, talvez, por alguma dor que pudesse, ainda que por pouco tempo, fazê-lo esquecer dos dias que lhe pareciam tão obscuros. Imaginava também, de forma até frequente, como as multidões poderiam pagar pelo seu martírio diário e pelas constantes mortes que passara: seria tão fácil, falava para si, matar alguns em uma festa do alto clero e, afinal, no seu íntimo, era disso de que a sociedade precisava. Curar-se. Havia muitos problemas nela e ele, vítima direta deles, poderia curá-la. “O mundo precisa mais de pessoas como eu, sem medo e prontas para o desafio”, sempre repetia consigo.

X alternava momentos de impotência e de “poder absoluto”. Como resposta às inescapáveis mortes que lhe acompanhavam em intervalos curtos de tempo, respondia com agressividade a si próprio e a quem estivesse a seu lado, nem que isso se resumisse aos seus pensamentos homicidas e um tanto quanto violentos. É claro, X não gostava de “morrer” e precisava que todos sentissem o mesmo que ele, precisava que as pessoas experimentassem a sensação da derrota e do auto-desprezo como ele sempre houvera experimentado. O seu sofrimento deveria ser também o dos outros. Só assim ele poderia cumprir a sua missão, que desde pequeno imaginava ter, de resguardar o amor pela vida.

Não se revelar por nada nem a ninguém sempre fora o maior objetivo durante o tempo em que viveu. Temia que pudessem usá-lo contra si mesmo, aproveitando-se de suas fraquezas para derrubá-lo com crueldade, pisando-lhe como se não importasse para o mundo. Por vezes, até chegava a se abrir um pouco mais, sabendo, no entanto, que o que falava para os outros sobre ele mesmo era muito pouco do que realmente podia contar. O tom de mistério que X adotou, no entanto, acabou ironicamente para ele sendo seu maior (in)fortúnio. Como desprezava a ideia de compartilhar algo sobre sua vida, X se esqueceu de que não poderia viver sozinho, e que mesmo que o fizesse, não poderia fazê-lo sem alguém – ainda que somente em sua imaginação.

X cansou-se de morrer com tanta frequência. Muitas vezes havia pensado em desistir da vida, mas nunca com tanto ímpeto quanto na última vez que cogitou fazê-lo. Diante de uma nova crise vinda aparentemente sem motivo algum, X decidiu se matar. Planejou sua queda para que ela terminasse gloriosamente. Não poderia morrer sem que isso fosse também tanto um ritual de auto-sacrifício quanto de purificação da humanidade, ou daquilo que ele projetava nela.

Como primeiro passo, X deixou de tomar os vários comprimidos que ingeria todos os dias. O efeito imediato foi praticamente inexistente, talvez até pelo ânimo que obtinha da expectativa de concretização do seu propósito de vida. Com o tempo, passou a ver as coisas de um modo totalmente diferente do que vira nos seus últimos anos, o que, entretanto, não foi suficiente para forçá-lo a desistir da morte.

X pensou em múltiplas maneiras pelas quais poderia morrer. Se chegou a cogitar dar um tiro em sua cabeça ou no próprio peito, foi por pouco tempo. Isso parecia a ele muito banal. Pensou em se afogar, em se incendiar e em se jogar de uma ponte qualquer. Tudo isso continuava sendo comum. À X não incomodava a aparente banalidade do método pelo qual iria se matar, mas tão-somente lhe era negativo a simplicidade que um ou outro lhe oferecia. Acabou por se decidir pelo enforcamento. Não um simples, é claro, afinal, nada poderia sê-lo em sua vida. Faria isso em uma praça, a mais movimentada que encontrasse, tal como no passado eram enforcadas as vítimas da Inquisição. Sua morte serviria não só para curá-lo da sociedade, mas também para curá-la de suas próprias falhas. Ao enforcar-se publicamente, X daria a todos um recado de que fazia aquilo por eles, para salvá-los de seus erros, de suas omissões.

Arrumou uma corda grossa em um terreno abandonado, vestiu jeans e camisa pretas e se manteve descalço. Na praça cuidadosamente escolhida, X subiu em uma árvore (foi inevitável para ele se lembrar do quanto fazia isso no sítio de seu avô quando criança) e deu um nó firme no galho que lhe pareceu mais seguro. Não se propôs a pensar em nada, uma vez que já havia feito muito isso em vida. Da escada que trouxera consigo, juntou o seu pescoço ao laço e se jogou. Foram poucos os segundos dali até a sua morte. X podia ter pensado em tudo naquele momento. Em como poderia não ter feito aquilo, em como poderia ser mais feliz dali em diante, em como poderia viver sem sofrer. X não pensou em nada disso. Morreu e nada mais sentiu. Morreu e deu um fim ao seu caminho.

Um texto do petiano Vinicius Januzzi.

Anúncios

Um comentário em “Cursum Perficio

Adicione o seu

  1. Existem diversos X(s), atualmente, em nossa sociedade, que morrem e nem se dão conta dessa morte, não conseguem expressar suas opiniões, infelicidades, erros e nem omissões. Parabéns, Vinicius Januzzi, o texto nós leva a refletir: quantas vezes serão necessárias “morrer” para percebermos que estamos vivos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: